Deixe o trabalho no trabalho

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São dez da noite e ainda estou pensando sobre trabalho. Pensando em algo que podia mudar em um artigo, ou o que devia ter feito em artigos anteriores.

Eu e meu marido estamos sentados no mesmo recinto, mas não estou realmente aqui. Estou a 1km de distância, e assim tem sido há meses.

Fiz isso em todos os trabalhos até agora. Não consigo deixar o trabalho no trabalho – nunca soube como fazê-lo.

Adoro trabalhar duro – sentir o cérebro pulsar com energia enquanto tento absorver o máximo de informação que um ser humano consegue em um dia.

Sempre pensei que isso me faria melhor, que me faria diferente, mas, definitivamente, não é verdade.

* * *

Quantos vivem assim? Quantos trabalham até que fisicamente, mentalmente, não consigam mais trabalhar? E você mesmo pensa que é assim que se deve fazer, que é a exigência do sucesso, certo?

Mas é possível se sentir realizado no trabalho e em casa, sem sacrificar um em nome do outro.

O trabalho nunca se afasta de nós, está no telefone ou no computador – alcançou o nível de quase onipresença.

Sempre atendo imediatamente questões ligadas ao trabalho porque tendo a pensar assim:

“E se precisarem de mim e eu não estiver com o telefone, e então as pessoas podem achar que não quero ser encontrada, e daí vão achar que eu não quero trabalhar, e então serei demitida.
Não quero ser demitida, então preciso atender.”

Se eu desconstruir isso um pouquinho, bem de leve, já começo a ver as falhas nessa lógica. O meu empregador realmente vai achar que eu não quero um trabalho se eu não atender quando não estiver no trabalho?

Não.

Não obstante nosso desejo incessante de sempre responder emails e estar “presente” 24 horas por dia/sete dias por semana, os empregadores sabem que isso não é bom para nós. Caraca, não é bom pra ninguém.

O Google está conduzindo um estudo de dez anos sobre as vidas de trabalho de seus empregados, tentando entender como as pessoas podem trabalhar melhor. O que eles descobriram é que apenas 31% de seus empregados conseguem deixar o trabalho no trabalho. Isso significa que 69% das pessoas levam o trabalho para casa com elas.

Porém, na verdade vai mais fundo do que isso: as pessoas não conseguem distinguir entre vida de trabalho e vida pessoal.

O escritório da Google em Dublin instituiu uma prática chamada “Apagando o Google”. Todos os empregados daquele escritório foram orientados a deixar seus dispositivos de trabalho no trabalho, e desligados. Isso foi feito em um esforço de traçar fronteiras claras entre a vida no escritório e a vida de trabalho.

Há uma percepção de que mais trabalho signifique mais produtividade, mas isso nem sempre é o caso.

Ralar e se matar não funciona

Imagine que você nunca deixe de trabalhar por doença, ou saia de férias, e esteja sempre “em plantão”. Você também faz 70 horas por semana, esperando que um dia isso seja reconhecido e dê retorno ... pera aí: só que nunca.

The Economist olhou os dados de países da OECD (Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento) e descobriu que os trabalhadores mais produtivos eram na verdade aqueles que passavam menos tempo no escritório. A Lifehacker levou isso um passo a diante e estabeleceu claramente o número de horas que trabalhamos antes de ver os resultados diminuírem (colinha: é cerca de 30 horas).

Os estadunidenses em particular raramente usam suas férias, o empregado médio tem cerca de 9.2 dias de tempo de férias não utilizado. Esse tempo aumentou de 6.2 dias em 2011.

Para colocar tudo isso numa perspectiva global (também cheia de viés), o Índice de Vida Melhor da OECD nos diz:

O trabalhador médio na OECD trabalha 1,776 horas por ano e devota 62% do dia, ou cerca de 15 horas, para cuidados pessoais (comer, dormir, etc.) e lazer (socializar com amigos e família, hobbies, jogos, uso de computador e televisão, etc.)

Se você subtrair as 8 horas que se espera dormir todas as noites, isso o deixa com cerca de 7 horas de tempo entre lazer e alimentação. Agora adicione o trabalho não pago, como limpar a casa, o tempo de transporte até o trabalho, e... sim, já dá para ver onde se chega com esse raciocínio.

Por que isso é ruim?

O corpo precisa de tempo de regeneração. Juro pela vida do meu gato que você precisa dessas horas todos dia sem falta para processar, recapitular e reorganizar.

De acordo com o New York Times:

“(…) Durante o dia seguimos de um estado alerta progressivamente na direção da fadiga fisiológica em ciclos de aproximadamente 90 minutos.”

Enganamos a nós mesmos evitando essa fadiga com café ou simplesmente ignorando o que o corpo está nos dizendo. Mas não podemos realmente enganar o corpo. A fadiga vai nos apanhar e, quando o fizer, tanto o trabalho quanto a vida pessoal sofrerão.

Se autoenganando pela comida

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Estas coisas não substituem o tempo afastado do trabalho, apenas levam ao burnout

Na imagem:

Como enganamos nosso corpo para que trabalhe acima da capacidade

  • Açúcar

  • Estimulantes

  • Carboidratos vazios


A intersecção entre vida e trabalho

Aqueles que vivem mais próximos não conseguem evitar o impactado causado por nossos estados emocionais e físicos – e isso é conhecido como intersecção. O que os pesquisadores descobriram é que podemos impactar negativamente a vida familiar ao trazer o trabalho para casa. O lado bom é que a vida familiar, por outro ângulo, pode afetar positivamente a vida de trabalho... se permitirmos que isso ocorra.

O tempo em família e o tempo passado com os amados nos reenergiza (geralmente). Quando chegamos do trabalho comprometidos com realmente passar tempo com a família somos capazes de fornecer mais recursos ao parceiro e aqueles a quem amamos. Isso os faz se sentirem ótimos, mas em troca também acabam fornecendo mais energia a você, o que afeta positivamente seu trabalho. Esse sentimento feliz e maravilhoso se deve à oxitocina (também conhecido como “hormônio do abraço” / “droga do amor” e vários outros termos afetuosos).

Por muitas razões (medo de perder o trabalho, medo de ser visto como preguiçoso) a maioria de nós não usufrui os benefícios oferecidos. Fazer uso de alguns benefícios pode nos fazer sentir mais energizados no trabalho ou em casa. É bom lembrar que não há nada de errado com pedir ajuda, todos necessitamos ajuda vez que outra. Fazer uso de quaisquer benefícios que seus empregadores ofereçam pode possibilitar que devotemos mais energia a vida familiar.

* * *

Ok, ótimo, deixemos o trabalho no trabalho. Mas e como se faz isso?

Prepare-se mentalmente para o fim do dia

Quando trazemos o trabalho para casa, normalmente estamos pensando no email que não mandamos, ou em tudo que se tem que fazer amanhã, e no resto da semana. Assim, antes de sair do trabalho, limpe a mesa.

Uma mesa de trabalho (inbox, computador, etc) sem bagunça ajuda a limpar a mente. Como meu estimado colega Mikael Cho coloca:

A bagunça física compete por sua atenção, e porque o cérebro tem recursos de atenção limitados, essa competição pode reduzir sua produtividade e a prejudicar.

Eu limpo a mesa cerca de meia hora antes de terminar o trabalho. O processo de tirar as coisas do campo de visão (tanto as físicas quanto digitais) me ajuda a navegar mentalmente pelo dia. Organizar minha mesa me ajuda a organizar minha mente. Trabalho em casa, então isso se torna ainda mais importante para mim. Se eu não limpo minha área de espaço, me torno fisicamente incapaz de largar o trabalho.

Outra ótima forma de começar a relaxar após o dia de trabalho é fazer uma lista de afazeres para o próximo dia. Isso assegurará que você comece o dia com um plano e fins claros em mente – o que significa que você estará gastando menos tempo pensando sobre tudo que tem a fazer, e mais tempo de fato fazendo essas coisas.

Ponha as conquistas no papel

É tão fácil ser sugado por tudo que se tem a fazer que esquecemos tudo que já fizemos. Que benefício há em trabalhar sem sequer nos orgulhamos daquelas realizações em que colocamos tanto tempo e esforço? Antes de encerrar o dia podemos olhar de novo para a lista de afazeres, e descobrir o que se realizou naquele dia, e sentir-se bem a respeito disso.

A minha lista ontem era assim (desculpem o garrancho):

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"Olha só, fiz coisas!" | (Nota engraçadinha do editor: tentamos traduzir a imagem, mas não entendemos o que está escrito)

Embora pareça super simples se orgulhar das realizações, não é algo que a maioria de nós faça. Pode até mesmo parecer meio bobo no início. Isso não quer dizer escrever coisas como: “Sou demais, sou fantástico, deixei todo mundo pra trás!”

É uma reflexão verdadeira de um sucesso que você tenha obtido naquele dia. Ajuda a estabelecer sua confiança e lhe dá impulso para o próximo dia de trabalho.

Proteja seu tempo

Se você gasta tempo elaborando um cronograma para si próprio, cuidadosamente esculpindo o tempo do dia para passá-lo com a família ou com alguma tarefa particular, proteja esse tempo. Isso serve como um lembrete para quando começar e terminar tarefas. Sim, significa ser firme consigo mesmo e manter o compromisso com o tempo.

Não é suficiente tirar umas miniférias aqui e ali, e nem me fale de férias “de trabalho”. Não dá para transformar em férias algo em que se coloca a palavra “trabalho”. Se decidimos tirar algum tempo de folga, devemos avisar as pessoas no trabalho que elas não conseguirão nos contactar. Mantenha-se igualmente sério no compromisso de tirar uma folga.

Isto também se aplica a saída do trabalho todos os dias. Tente efetivamente dar tchau para as pessoas, deixe-as saber que encerrou o dia. Essa é uma manifestação física de encerrar o trabalho que também ajuda sua própria mente a largar a labuta.

Estabeleça um cronograma claro, se mantenha nesse cronograma, e se não for possível se ater a ele, o corrija.

Se você não respeitar seu tempo pessoal, ninguém mais terá boa razão para o fazer.

* * *

Há anos já tenho dito que vou estabelecer um equilíbrio melhor entre vida e trabalho, mas nunca fiz nada nessa direção. Só fico falando do assunto, cheia de expectativas, vendi isso como algo a esperar do futuro.

Bom, isso é burro.

Sempre haverá mais a fazer, mas sobrecarregar-se de trabalho não é a solução. Só nos deixa mais vulneráveis nos vários aspectos da vida. A saúde sofre, os relacionamentos pessoais sofrem, o sono sofre, e então o trabalho sofre.

Seus empregados e colegas de trabalho sabem que você não é uma máquina (pelo menos espero que saibam), e eles também não são máquinas. Eles também tem famílias e amigos e compromissos fora do ambiente de trabalho. É correto cuidar de si mesmo e fazer coisas para si mesmo. Sim, você pode se dar permissão para largar o trabalho no fim de cada dia, mas primeiro é preciso que você mesmo se dê permissão.

Nota do editor: Este post apareceu originalmente no blog ooomf e foi traduzido sob autorização da autora.


publicado em 11 de Outubro de 2014, 06:11
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Andrea Ayres-Deets

Escritora chefe na Crew, uma rede exclusiva para convidados que conecta projetos de software a desenvolvedores e designers escolhidos a dedo. Andrea escreve sobre psicologia, criatividade e negócios no blog da Crew.


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