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Eu sei que a noite passada foi meio louca demais pra você. Talvez eu tenha até te assustado quando eu disse aquelas coisas. Releva, vai. Foram o álcool, os cigarros, algumas coisas a mais e o cheiro do seu perfume. Também foi um pouco daquela energia sobre a qual eu te falei. Energia que me deixa inebriado, speechless até. É essa coisa da nossa juventude, sabe? Essa coisa da rapidez com que o mundo se move, com que a gente vive as coisas. Essa intensidade desconcertante, essa angústia de perder um único momento por entre os dedos. Eu tento aproveitar cada segundo antes que a ampulheta esvazie e acho que te fiz ver isso. Sempre exagero porque nunca se sabe o dia de amanhã, guria. Aliás, eu te chamei assim e você me repreendeu por eu não ser sulista e não ter o direito de usar esta palavra. E eu acho que você não falava sério enquanto anotava o seu telefone na gola da minha camisa branca suja de vinho e de marcas do seu batom novo com cheiro de cereja. Você gostou do meu sorriso, não foi? Eu me lembro de você ter falado alguma coisa sobre ele redimir esse meu jeito rápido demais de falar as coisas e bagunçado de mostrar minhas ideias. Eu te disse que era prosa sem rima, sem verso, sem parágrafo. Você era mais poesia ritmada, daquelas rimas bem raras que a gente não encontra em esquina nenhuma. Menina teimosa, eu disse. Não lembro bem se foi por dizer que não tinha medo de envelhecer ou se achava bobagem esses vislumbres que eu e meus amigos tínhamos em permanecer pra sempre jovens. Não te assusta que esse mundo que a gente conhece pode acabar tão facilmente? Toda essa beleza, esses cabelos esvoaçantes nas janelas dos carros, essas garrafas e óculos escuros como em clipes de TV, todo esse papo sobre mudar o mundo? Não te assusta que isso acabe antes mesmo da gente se dar conta do quão bobos nós fomos em pensar que poderíamos mudar alguma coisa além de nós mesmos? Não sei se você ainda está com fome, mas é que eu acordei quase agora e tinha que te ligar. Acho que fiz essa promessa ontem enquanto a gente discutia o destino do Oriente Médio pela terceira vez. Não concordo nem um pouco com guerras pela paz. Quem precisa de paz enquanto a gente tem esse mundo de maravilhas pra viver? Síndrome da Terra do Nunca. Tá, eu sei. Mas me deixa ser Peter Pan só por mais um ano ou dois. Depois a gente vai ter que crescer e vestir ternos caros e relógios antiquados. E a gente vai ter que se sentar em mesas de departamentos e escrever relatórios e almoçar com tempo curto e dormir oito horas por dia e perder toda a vida que ainda existe em nós. Blá, blá, blá e eu só falo disso: desse meu medo de perder a juventude pra sempre. A propósito, acho que você esqueceu um dos brincos verdes e redondos aqui em cima da cômoda. Um pouco brega, o brinco, mas combina com a imagem que você quer passar de conservadora e centrada. Achei engraçado quando você me pediu para parar de cantarolar em francês como se aquilo te ofendesse pessoalmente. Foi divertido te ver corando logo depois de ver como parecia a minha mãe e como os anos tinham, subitamente, aparecido no teu rosto. Acho que você é assim, às vezes: se deixa levar muito pela pressão do mundo. Tem que ser isso, tem que ser aquilo, tem que mostrar responsabilidade, tem que ter uma imagem pública. Danem-se todos eles. O importante é que a música de ontem era boa e que a companhia era melhor ainda. Pode ter durado uma noite só ou um encontro perdido por aí, mas eu adorei te conhecer ontem, guria-do-cabelo-castanho-escuro-dos-olhos-verdes-escuros-da-alma-azul-escura-de-vestido-vermelho-escuro. Bem, liguei pra dizer mesmo é que me lembro de tudo e que queria te encontrar por aí. Seja para protagonizar um daqueles clipes de liberdade ou me misturar com a multidão como você faz. Aliás, lembrei porque liguei agora. Você me pediu pra não te perder de vista. Mas acho que, no fundo, você sabe que se destaca da multidão.

Tuuu... Tuuu... Tuuu...


publicado em 15 de Dezembro de 2011, 08:44
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Daniel Oliveira

Daniel Oliveira é “jornalista de comportamento” em mesa de bar, publicitário em formação, botafoguense por amor e canalha romântico. Não presta e não deve ser levado a sério. É colunista do Casal Sem Vergonha e escreve sobre relacionamentos no Entre Todas As Coisas.


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