Democracia e corrupção. Os governos representam seu povo?

Lobby, falta de representatividade real, governos como "comissários políticos do poder econômico". Vivemos em um mundo com democracia?

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Mas será que nossos governos representam o povo?

A Universidade de Princeton fez a mesma pergunta e, com mais recursos que eu, fez uma pesquisa foda que está nesse vídeo aqui de baixo:

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Os dados do estudo acima são, como podemos ver, voltado para os Estados Unidos, mas fica bem fácil de transportar isso para a maioria dos governos desse mundão. No Brasil, a profissão de lobista é proibida, mas sabemos há tempos - e agora, com todas as investigações recentes feitas no país - que esse tipo de profissional tem  acesso amplo nas esferas municipais, estaduais e federais, além de uma influência enorme e efetiva.

E aí que vem a pergunta seguinte.

Mas será que efetivamente vivemos em uma democracia?

A conversa foi gravada no programa Roda Viva, da TV Cultura, lá em 2003. Mas que época pertinente para trazer à tona esse trecho em que o prêmio Nobel de literatura, José Saramago, fala sobre a democracia em que vivemos, ou no simulacro de soberania popular em que ele afirmou que estamos. 

A fala está entre os minutos 48:09 e 53:01 (a gente separou pra você. É só dar o play) e levanta uma questão super importante. Abaixo, o vídeo. Logo depois, a transcrição que fiz do ponto citado:

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Entrevistadora: Qual poderia ser o tipo de resistência à globalização, uma vez que ela parece ser irreversível, né? Ela não volta atrás, nós não vamos voltar atrás. Então, qual seria uma atitude possível? Eu pergunto, de negociação? Seria uma negociação?

José Saramago: Negociação como? [...] As corporações econômicas e financeiras acreditam que estão dispostas a negociar. [...] Claro que não estão dispostas a negociar. E não estão dispostas a negociar porque nem sequer necessitam.

Têm um intermediário que se encarregará de apagar os fogos, mais ou menos, que se manifestem aqui e ali. E esse intermediário são os governos nacionais.

Quer dizer, os governos transformaram-se em comissários políticos do poder econômico. É um qualificativo talvez um pouco brutal que eu uso muito conscientemente [...], então eu aplico a atuação dos governos atualmente à relação do poder econômico. E levanta uma questão fundamental que nós não nos atrevemos a enfrentar, que é a relação da democracia. 

Não podemos continuar com essa fantochada [...], com essa fachada que é a de continuar a chamar de democracia algo que não tem nada a ver com democracia. Vivemos num regime plutocrático, o governo dos ricos sobre os pobres. É isso, com uma... com um sistema que podemos chamar de representativo, mas politicamente representativo e só. E limitado no seu alcance. Porque nós podemos fazer tudo até um certo ponto.

Podemos ter um governo, elegermos um governo, um governo eleito com os votos dos cidadãos. À partir daí, para cima, não podemos chegar. E daí para cima é que está o poder efetivo. Portanto, continuar a chamar isto de democracia, fazer de conta que estamos em uma democracia, ser cúmplice de facto da mascarada em que toda esta... em que tudo isso se transformou, as mídias, os partidos. 

Toda a gente, enganada. Enganada exatamente como aquelas pessoas que estavam na caverna (em referência a seu livro A Caverna), na caverna do Platão, olhando para aquelas sombras e vendo "aí, essa é a realidade". E nós vemos uma sombra na parede e dizemos "olha a democracia". E não é mais que uma sombra.

[...]

Precisamos incitar um debate sobre a democracia, um debate mundial sobre a democracia. Vivemos em uma época em que pode se discutir tudo. Tudo. Discute-se tudo, o meio-ambiente, a homossexualidade, isto e aquilo, aquilo outro. Discute-se tudo. Há uma coisa que não se toca, como se fosse um dado adquirido de uma vez para sempre. 

[...]

Antigamente se representava a república como uma senhora com uma coisa aqui, com uma bandeira aqui, quase sempre com um seio à mostra ou quase (aqui, Saramago faz referência à obra La Liberté guidant le peuple - A Liberdade Guiando o Povo -,  pintura de Eugène Delacroix em comemoração à Revolução de Julho de 1830), não sei porque haveria de ser assim. E agora, como é que representamos a democracia? Nem sequer a representamos, ou então [com] uma imagem simbólica, universal, que é a Estátua da Liberdade [americana], digamos. Ai está a representação da democracia.

E toda essa parafernália, todo esse discurso. A palavra democracia parece ser pronunciada e escrita milhões de vezes todos os dias, como se fosse um facto. E não é um facto. E não é

Se querem fazer qualquer coisa, se querem fazer qualquer coisa, é isso. Vamos discutir essa coisa. 

* * *

Vamos?


publicado em 09 de Novembro de 2015, 15:50
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Jader Pires

É escritor e colunista do Papo de Homem. Escreve, a cada quinze dias, a coluna Do Amor. Tem dois livros publicados, o livro Do Amor e o Ela Prefere as Uvas Verdes, além de escrever histórias de verdade no Cartas de Amor, em que ele escreve um conto exclusivo pra você.


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