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Demoninho

Sonhou mais uma vez que descarregava a bexiga como uma cachoeira sobre a rua, em pleno Carnaval. Despertou. Relação óbvia, sonho recorrente. Tinha necessidade expressa de urinar.

Levantou-se da cama preguiçosamente, sem ter certeza de que despertara. Colocou os pés no chão e foi até o banheiro. A mulher na cama não percebeu nada. Ele, de pé, nem pensava que havia ali uma mulher.

Quando abriu a porta do banheiro, quase desmaiou (só não o fez pela incerteza da realidade). Havia, em pose de demônio íncubo, sobre a tampa fechada do vaso, um bicho feiíssimo, algo como um macaco aparentado com um lobo, que mirava o homem através de olhos vermelhos, redondos, malévolos. Era isso mesmo; um pequeno demônio, um demoninho.

“Desculpa aí, mano” – falou o bicho com sotaque paulista. Depois, escancarou a boca e mostrou a língua, revelando ainda seus dentes de cão feroz. Depois da careta, consertou, com sotaque carioca – “Por favor, não se assuste; ganhei uma licença, parei por aqui, mas não quero intimidar ninguém; tava distraído”

"No sonho, nós falamos com os demônios", pensou o homem. Não custa tentar. “Mas... mas... o que... vo... cê... faz... a... qui, por... fa... vor!?”

O demoninho tentou rir antes de explicar que ele, o homem, era seu protegido. "É que nem existem anjos da guarda, sacô? A gente não aparece, não tá nem aí. A gente fica só de bob enquanto nossos protegidos vão fazendo merda pela vida e é isso que nos faz crescer, ficar na boa. Até que um santo dia, ô, manéra na linguagem", penitenciou-se o demoninho (putz, de novo!), "até que dia desses a gente tá bem crescido e pode andar por aí, já homem feito, de terno e gravata bem apertada, seja o verão que for, sessenta graus à sombra, parecendo até um advogado. Aí, tá sabendo, a gente anda pelos bares, bebe uns chopes, faz uns amigos. Dá até pra consolar uns anjos da guarda que a gente manja pelo jeitão melancólico deles, escondido em roupas claras demais. Uns pobres fracassados, sacô?"

Acabou se acostumando com a coisa. Era um bichinho. E em dificuldades. O problema é que o homem, funcionário público de terceira classe, não ajudava em nada o demoninho. Não fodia ninguém. Não atrapalhava a vida dos outros. Em suma, não praticava mal nenhum. Não era como o diretor da repartição, que tinha como protetores três demônios já bem crescidos.

Este homem aqui, modesto, sequer atendia demandas externas. Ficava nos arquivos, no almoxarifado, cumprindo funções simples e de forma expedita. Isso porque sempre fora assim, desde criança. Uma pessoa afável e tranquila cuja esposa o acolheu como um menino em sua casa, ela mesma, uma pessoa do mesmo timbre, quer dizer, tranquila, afável. Porém, com boas economias herdadas de um pai, vejam só vocês, advogado de empresa estatal...

Com o tempo o demoninho, apesar de se fartar todos os dias com pão e manteiga (era tudo que gostava de comer), passou a parecer cada vez mais com um macaquinho, sempre mais magrinho, cada diz menor que no dia anterior. Seus olhinhos agora eram assustados, como os de um miquinho sagui que ouviu um barulho repentino.

Virou um bichinho de estimação para o casal sem filhos e, em virtude de seu fracasso como demônio, terminou com licença permanente, ao contrário dos melhores, que tinham a graça, mil perdões, de ficar pouco tempo sobre a superfície, coisa que odiavam, pois só podiam se vestir com cerrados ternos e gravatas, sob qualquer temperatura, e tudo que podiam fazer era ficar bêbados de chope.

A gente sempre vai amar isso tudo

De vez em quando o demoninho soltava, com sua voz cada vez mais fina e infantil, um “Valeu aí, mano”, principalmente quando ganhava mais uma fatia de pão. O homem sorria, mas um dia quis saber o porque desse hábito estranho de falar que nem um paulista. "Explico", disse o demoninho, já em bom carioquês:

"É que o Portal fica em São Paulo. A gente sempre vem de lá e... bem, daí o hábito, sacô?"

"Ah, sim, entendo", sorriu o homem, a mirar o demoninho lambuzado de manteiga, olhinhos tristes, doces e amorosos. Pobre demoninho, pobre demoninho.


publicado em 19 de Fevereiro de 2012, 06:08
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Marcos Nunes

Carioca, brasileiro, desertor. Chato pra caralho, não gosta de ler textos marcados com canetinha cor de rosa. Seu negócio é literatura desagradável, não querer consertar o mundo de acordo com suas visões, o que só pode dar merda para todo o resto do mundo. Embora pau mandado não tema lema, ele tem o seu: "Perplexidade aflita sob a perspectiva caótica".


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