"Desculpa, amigo. Essa mulher tá acabando comigo. Pode dar nota baixa" | Do Amor #82

De quando a gente sai do eixo por conta de alguém, ou dos amores malditos

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"Mas pelo amor de deus, o que mais você queria que eu fizesse? Parece que tudo o que eu tento não serve de nada, qualquer coisa que eu diga só piora mais as coisas!". As janelas dianteiras na frente faziam o barulho da rua entrar e, consequentemente, o forçava falar ainda mais alto para que a gravação pudesse captar bem sua voz e a intenção nela. Com o aparelho grudado numa ventosa de borracha que chupava o painel do carro, precisava potencializar a fala para ser escutado.

Mas não estava, nem de longe, sendo ouvido.

Quando o cara entrou no Uber, o motorista já estava com os olhos avermelhados, a cara meio inchada. O "bom dia" saiu tão pesado que quase não chegou nele, estatelando-se em algum lugar entre o banco do motorista e o assento traseiro. Não entendendo muito, o cara cruzou a perna e, de óculos escuros, abriu o celular para conferir o trajeto até seu destino final. Aproveitaria também para mandar um e-mail ou dois, adiantar o dia. Mas sua concentração foi para o buraco. A cada parada, num farol ou nas vias mais carregadas, o condutor mandava novas mensagens para a namorada. Claramente estavam tendo uma discussão e o cara julgou ser das pesadas, tomando por medida o desespero no jeito com que o "motoras" procurava as palavras, com que organizava as ideias, gaguejando e se repetindo. E, ao julgar pelas respostas secas da voz feminina que voltava, eles haviam terminado um relacionamento que não tinha muita esperança de volta. "Caralho, presta atenção no que você tá falando!", ele insistia. "Puta que o pariu, para de ser assim! Se eu tô dizendo que...".

E tentava. E persistia. A cada esquina mais vagarosa, em todo semáforo avermelhado, ele dava pequenos murros no volante, puxava forte o ar pelo nariz para segurar o muco que se formava e apertava constantemente os olhos para ver se ainda escorria alguma lágrima. Mas, logo cedo naquela manhã, ele já estava seco. O cara, atrás, completamente fisgado no que estava ocorrendo. Claro, não tinha muito como fugir e nem fingir que estava alheio à gritaria ou aos cortes duros que ela dava ao retornar com áudios glaciais, que o pobre homem que dirigia o carro precisava botar para ouvir de novo, só que com maior volume da segunda vez, tamanha a impassibilidade de sua ex-companheira.

Ele era a força que não podia ser parada dando com a fuça no objeto que não podia ser movido, no caso, a decisão dela.

Sua mão estava descontrolada. O cara no banco de trás ficava reparando na velocidade tremida com que ele trocava de marcha, apertava o botão de enviar áudios, adiantava a rota no mapa do aplicativo para saber se faltava muito, aumentava e diminuía o volume do rádio conforme as respostas dela iam chegando. Claro, o com estava sintonizado na Antena 1, tocando canções no programa Daylight, "de segunda à sexta à partir das cinco horas, duas horas de músicas para começar bem o seu dia", era a vinheta que passava entre um clássico meloso e outro, só pra romanticamente aumentar a melancolia dentro do carro que passou a contar com "Lady in Red" como trilha sonora. "A dama de vermelho está dançando comigo, bochecha com bochecha". Tirou os óculos escuros, incrédulo com a sincronia irônica da vida.

Mas já estava chegando ao fim o seu itinerário. Lá no banco da frente, a figura do outro era desoladora. Uivava para não demonstrar que estava entregue às lágrimas, então fazia uma espécie de careta tentando segurar o choro. Estava uma lástima. Foi diminuindo a velocidade, encostando na calçada. Estacionou. O inverno dentro do carro.

"Desculpa, amigo. Essa mulher tá acabando comigo. Pode dar nota baixa aí". Seu pedido não vinha com ódio, como se não ligasse, mas tinha um excesso de conformismo, como se tivesse entendido tudo ao parar, como se enxergasse todo o quadro, sua relação com a outra pessoa, seu pequeno contato com o cara de trás.

Ao sair, antes mesmo de entrar no edifício onde era aguardado para a reunião, o usuário pegou o celular do bolso, abriu o aplicativo e deu nota cinco para o motorista. "Porque o dia hoje foi foda", ele colocou como comentário. "Boa sorte aí. Vai ficar tudo bem", comentou também quando se virou. Mas percebeu que o motorista já havia fechado a janela pra chorar.

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publicado em 25 de Maio de 2018, 00:00
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Jader Pires

É escritor e colunista do Papo de Homem. Escreve, a cada quinze dias, a coluna Do Amor. Tem dois livros publicados, o livro Do Amor e o Ela Prefere as Uvas Verdes, além de escrever histórias de verdade no Cartas de Amor, em que ele escreve um conto exclusivo pra você.


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