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Desempregados ou mal-empregados?

No Reino Unido, e algumas outras partes do mundo desenvolvido, o desemprego continua a cair – mesmo que bem pouco. É uma boa notícia. É algo a se comemorar que as forças produtivas na economia estejam crescendo e há um pouco mais de dinheiro nos bolsos das pessoas.

Mas se formos mais ambiciosos por potencial humano, uma cena tenebrosa emerge – mais tenebrosa que as figuras dos órgãos do governo, como o Escritório de Estatísticas Nacionais do Reino Unido, sugerem.

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Desemprego no Reino Unido em fevereiro de 2014

Precisamos fazer uma distinção. Emprego significa estar, genericamente, em um trabalho. Mal-emprego (misemployment) significa estar em um trabalho, mas de um tipo que não consegue lidar com qualquer sinceridade com as verdadeiras necessidades de outras pessoas, meramente estimulando-as a desejos e prazeres insatisfatórios. Assim como Primark, Patek Philippe e youporn.com fazem.

Um homem contratado pela rede de cassinos Las Vegas Sands para entregar panfletos a turistas, a fim de convencê-los a usar máquinas caça-níqueis, está claramente “empregado”, no sentido técnico. Ele está fora dos registros de desemprego. Afinal, ele recebe um salário em troca de ajudar a resolver um (pequeno) quebra-cabeça da condição humana do interesse dos seus empregadores: que menos pessoas deixem o céu azul e o agito alegre da rua principal de uma cidade ao sul de Nevada sem entrar nos halls refrigerados de um cassino decorado com tema egípcio e repleto de filas de máquinas barulhentas.

Vestido como Hot Dog para forçar consumidores: mal-empregado

O homem está, de fato, empregado, mas na verdade, ele pertence a uma larga subseção daqueles que, no trabalho, podemos chamar de “mal-empregados”. Sua ocupação está gerando capital, mas não está contribuindo para o bem estar e florescimento humano. Ele está nos rankings de mal-empregados acompanhado pelas pessoas que fabricam cigarros, programas de televisão estéreis mas viciantes, condomínios mal planejados, roupas de má qualidade e com ajustes ruins, propagandas enganosas, biscoitos entupidores de artérias e bebidas cheias de açúcar (porém, deliciosas). A taxa de mal-emprego na economia pode ser bem alta.

Podemos ser genuinamente gratos por um trabalho e dar nosso melhor para fazê-lo bem, enquanto no fundo das nossas mentes, nutrimos – como empregados – a esperança de que nosso trabalho contribua de maneira real para o bem comum, que estejamos fazendo, modestamente, alguma diferença.

Não são apenas os tipos de trabalho mais nocivos que podemos chamar de mal-emprego. Nós intuitivamente o reconhecemos quando pensamos em um emprego como “isso é só trabalho”, quando sentimos que muito do nosso tempo, esforço e inteligência está sendo gasto em reuniões que resolvem pouco, em forçar as pessoas a comprar produtos que – no fundo dos nossos corações, nós não admiramos.

Designers de iluminação, engenheiros de pintura e modelos: todos mal empregados
Designers de iluminação, engenheiros de pintura e modelos: todos mal-empregados

Economistas e governos vêm, com moderado sucesso, aprendendo técnicas para reduzir a taxa geral de desemprego. Um aspecto central da sua estratégia tem sido a impressão de dinheiro e a diminuição das taxas de juros. Na linguagem da área, a chave para diminuir o desemprego tem sido “estimular demanda”.

Apesar de tecnicamente efetivo, esse método falha em estipular qualquer distinção entre boa e má demanda e, portanto, entre emprego e mal-emprego.

Felizmente, há soluções reais capazes de diminuir o mal-emprego. O truque não é apenas estimular a demanda per se, o truque é estimular a demanda correta: encorajar as pessoas a adquirir os constituintes da verdadeira satisfação e, portanto, dar a indivíduos e negócios a chance de direcionar seu trabalho e gerar lucros em áreas da economia com real significado.

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Em uma nação realmente preocupada com o mal-emprego, o gosto do público seria educado para demandar e pagar pelas coisas mais importantes. 20% da população adulta estaria, portanto, empregada em áreas de florescimento e saúde mental. Pelo menos outros 30% estaria empregada em construir um ambiente que pudesse satisfazer à alma.

Para atingir tal estado, não é suficiente imprimir dinheiro. O desafio é estimular pessoas a gastar nas coisas certas. Isso requer educação pública de forma que as audiências reconheçam o valor do que é realmente valioso e afastem-se do que falha em atender suas verdadeiras necessidades.

Não estamos sugerindo que os números do emprego são irrelevantes – eles importam bastante. Eles são a primeira coisa a ser atendida. De todo modo, esses números estão mascarando uma questão mais ambiciosa: estamos aplicando o capital humano em todo seu potencial?

Este texto foi originalmente publicado no Philosophers Mail e traduzido por Luciano Ribeiro sob autorização do autor.


publicado em 26 de Março de 2014, 07:01
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Alain de Botton

Pensador com uma visão afiada sobre as questões mais urgentes de hoje, escritor de livros e ensaios, fala de educação, notícias, arte, amor, viagens, arquitetura e outros temas essenciais da "filosofia da vida cotidiana". Também é fundador da School Of Life, escola dedicada a uma nova visão de formação humana.


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