Desventuras da Solteirice

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Meu amigo só queria se divertir.

A semana chegava ao fim, o tédio o consumia já por alguns dias – o trabalho chato, as mesmas pessoas de sempre, todo um mundinho que continuava girando, estivesse ele aqui ou não. E como toda pessoa que sobrevive aos dias que se sucedem sem grandes acontecimentos, ele achou que merecia se divertir naquela sexta-feira.

Ele foi para sua casa, tomou seu mais demorado banho e borrifou seu mais cheiroso perfume. É vaidoso, esse meu amigo. Tendo seus camaradas viajado, optou por ir sozinho a uma festa já conhecida, pois sabia que muitas mulheres a freqüentavam.

Chegou, sacou o ambiente. Acreditou com força que naquele dia se daria bem, sentia que estava com o poder do macho conquistador e que levaria para casa alguma bela garota disposta ao sexo casual.

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Todo solteiro vive uma guerra perene...

Mas os minutos se fizeram mais breves que o normal, e logo muitos casais já se pegavam pelas paredes da casa. É terrível o momento em que o homem solteiro percebe que é uma das poucas pessoas sozinhas na pista.

Sim, alguns de nós saímos apenas para dançar, conversar ou ver gente (acreditem, mulheres!), mas ficar sozinho quando existe o instinto caçador causa uma das maiores sensações de fracasso que um portador de cromossomos XY jamais poderá sentir. Tendo sucumbido a esse sentimento, meu amigo optou pelo mais fácil e investiu em uma velha conhecida.

Não era das mais atraentes, disse ele, mas tinha alguns atributos que lhe agradavam. Entoou bem baixo o mantra "sexo casual lá em casa logo mais... ahn hunnnn". Graças a ele, suportou uma conversa bastante sem graça, até que julgou oportuno chamá-la para sua casa – já era tarde, e logo ela poderia inventar uma desculpa para se esquivar.

Mas não: ele não ouviu "mas a gente nem se conhece direito" ou "tenho que acordar cedo amanhã". Ela topou, e rapidamente meu amigo vislumbrou a oportunidade de testemunhar a alvorada sob um lençol embebido em suor e gozo. Entraram em um táxi:

"Pega o caminho mais rápido, por favor".

Meu amigo estava afoito.

terra-devastada

... e muitas vezes ele só consegue conquistar uma terra devastada

Mais afoita, contudo, foi a garota: tão logo eles se deitaram na cama, ela passou a gritar de forma até então nunca experimentada pelo pobre rapaz, que alternava o pensamento de "tenho que segurar um pouco pra gozar" e "tô ferrado, amanhã serei expulso do condomínio".

Quando questinados a respeito do evento, moradores da Tijuca, São Conrado e até mesmo tripulantes de um navio ancorado na costa forneceram relatos de horror, julgando ter ouvido o sacrifício de um bode ou a abertura dos portões do inferno.

Em pânico, meu amigo preferiu parar de estimular a garota e torcer para que ela alcançasse seu intento por esforços próprios ou fracassasse de vez. E, para o bem do pobre, a moça logo alcançou o grande momento do esporte, desabando em gritos e urros abomináveis.

Como não poderia deixar de acontecer, uma vizinha velha e judiada enfiou a cabeça enrugada para fora de sua janela e desfilou sua indignação. Meu amigo engoliu a raiva e passou a torcer para que um milagre transformasse a garota em um sanduíche ou prato de macarronada, já que ele, como bom solteiro, não estocava alimentos em casa.

Mas não, ela continuou ali e ainda julgou que o coitado estava interessado em saber qual brinquedo o filho dela ganhou no aniversário, quais notas ele tinha tirado no mês anterior e outras bobagens com as quais as mães se preocupam. Destituído de paciência e bom coração, ele não demonstrava qualquer sentimento.

A garota era esperta e percebeu o desinteresse, ao qual reagiu com a afirmação de que precisava levar seu rebento ao médico. O sorriso se estampou na cara dos dois, já que havia sido desfeita a armadilha do constrangimento pós-coito. Meu amigo ficaria livre para dormir até o sol se esconder novamente e a garota poderia levar sua cria para um lugar qualquer.

Todos felizes, mas ele ainda teria que passar por uma provação final: dirigindo-se para a porta, a fina dama se lembrou de que não tinha dinheiro. Despida de pudores, solicitou ao nobre rapaz uma ajuda pecuniária para pegar um táxi.

Curiosamente, ela ignorou o fato de que os táxis no Rio de Janeiro são extremamente baratos e solicitou, com cara de criança pidona, um valor alto – alto o suficiente para quase pagar uma dessas garotas que fazem profissionalmente o que nós todos fazemos para garantir a continuidade da espécie.

Quando fez esse relato para mim, no dia seguinte, meu amigo sorria de forma nervosa. E eu ri como há muito não ria, mas no fundo me solidarizei. Deus tenha piedade dos homens solteiros, esse pobres seres aos quais se atribui muita diversão, mas que no fundo são os mais aguerridos estudiosos da lama e do revés.

Carlos E. Bonini é autor convidado da Papo de Homem. Você pode encontrar mais contos dele no Do Limbo, ou outros textos mais recentes em seu excelente blog Da Misoginia.


publicado em 13 de Agosto de 2007, 14:57
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Carlos E. Bonini

Carlos E. Bonini ainda não nos disse nada sobre ele. Sim, também estamos curiosos.


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