Devolvendo a simplicidade da vida

Para cada doença existe um remédio e seus efeitos colaterais

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Quando lemos os sites de notícias, nos atualizamos sobre os tumultos na economia mundial e, principalmente, quando precisamos organizar todos os detalhes que nossa vida privada exige, somos capazes de sentir o peso esmagador do que chamamos de vida moderna mesmo sem colocar em palavras.

Me refiro ao estranho sentimento de cansaço. Uma fadiga que nunca desaparece. A preocupação constante em honrar os compromissos. Ao mesmo tempo em que assumimos cada vez mais responsabilidades.

Lembro-me da fase mais difícil que passei, morando numa quitinete bem pequena. Eu só era capaz de sonhar com uma casa boa e confortável. Quando finalmente pude arcar com os custos de um apartamento melhor, achei que tudo estaria resolvido e então vieram as crises de insônia e o medo de não conseguir pagar as contas no fim do mês.

É conflitante como as buscas que prometem luxo e conforto, são as mesmas que nos geram preocupação, ansiedade e depressão logo após conquistá-las.

É compreensível que enxerguemos os avanços modernos pelos benefícios – que existem. Sabemos que podemos viver com mais conforto e qualidade de vida em muitos aspectos, mas onde podemos traçar a linha entre o que nos é benéfico e o que nos prejudica?

Aprendemos que é preciso adicionar elementos para resolver nossos problemas. Como diz o ditado popular: “para cada doença um remédio”. No entanto, é fácil notar que remédios, pela forma como atuam, trazem efeitos colaterais. Muitos deles tão fortes quanto os benefícios.

A ideia de levar uma vida mais simples é partir pela eliminação, retomar o mais próximo do que temos de natureza e buscar entender o que realmente é essencial para viver.

Foi pensando assim que o filósofo norte-americano David Henry Thoreau isolou-se da cidade, às margens do lago Walden, buscando entender o que torna uma vida mais plena.

Em 1854, escreveu:

"Fui para os bosques porque pretendia viver deliberadamente, defrontar-me apenas com os fatos essenciais da vida, e ver se podia aprender o que tinha a me ensinar, em vez de descobrir na hora da morte que não tinha vivido."

David Henry Thoreau

Thoreau queria tirar de si tudo o que não fosse vida, para assim descobrir o que realmente era viver.

O ciclo infinito

Na civilização moderna existe uma moeda central. Com raras exceções, o que fazemos em toda atividade remunerada é a troca de tempo por dinheiro.

O problema está na forma como fazemos essa permuta. Como recebemos em dinheiro e entregamos esforço, acabamos nos distanciando do custo real, afetando a forma como pensamos sobre nossas compras, investimentos e tomamos decisões.

Para entender como a distância entre a moeda real e a forma de pagamento afeta nossa percepção, observe o seguinte estudo publicado pelo Journal of Consumer Research:

Pesquisadores encontraram que sentimos a chamada “dor do pagamento” quando compramos utilizando dinheiro vivo. Observou-se também que formas de pagamento diferentes proporcionam dores diferentes, mas no caso do cartão de crédito, essa dor é consideravelmente menor. O estudo demonstrou que as pessoas que pagam com dinheiro em espécie fazem escolhas mais saudáveis de compra. No entanto, pessoas gastando com cartão de crédito apresentaram comportamento mais impulsivo e escolhas mais pobres.

Simplificando, quando nos distanciamos da moeda real, nossas escolhas são afetadas e tomamos decisões menos racionais.

Quando falamos da moeda prática, o tempo, a ideia ficam ainda mais nebulosa. Pense no seguinte:

Compramos um carro para ganhar tempo, queremos chegar mais rápido nos lugares. Para isso gastamos uma quantidade enorme de dinheiro, que só conseguimos juntar trabalhando mais. A aquisição do carro nos torna mais sedentários. Deixamos de caminhar pela cidade, estocando a energia do que comemos. Para evitar isso, precisamos utilizar ainda mais tempo e dinheiro, dedicando um horário extra para frequentar uma academia e pagando uma boa quantia apenas para nos movimentar.

Já as pessoas que optam por um transporte alternativo, ao exemplo da bicicleta ou caminhada, economizam em todos os fatores: o custo, quando comparado ao carro, é irrisório. O tempo que levam pra chegar nos lugares não costuma ser tão diferente, dado o intenso tráfego das grandes cidades. A necessidade de frequentar um local pra se movimentar desaparece, já que naturalmente se movimentam ao longo do dia. E os ganhos em satisfação e qualidade de vida fazem o resto da compensação.

Para mudar a forma como decidimos nossos gastos, basta um leve exercício. Tente calcular o quanto ganha por hora e comece a ver os preços em horas trabalhadas. Depois que entendemos que alguém que recebe um salário mínimo mensal, um iPhone custa 580 horas de trabalho, o preço verdadeiro das coisas parece bem mais assustador.

Os exemplos são simples, mas servem para mostrar como frequentemente adicionamos camadas de complicação na tentativa de resolver um problema inicial. Criamos um ciclo incessante onde os remédios que adotamos trazem efeitos colaterais que precisam de ainda mais remédios.

"A senhora sabia que esse seu iPhone custa 2 meses de trabalho?" "Senhora?" "Volte aqui, senhora."

Retorno ao simples

“Por simples ignorância e equívoco, muita gente, mesmo neste país relativamente livre, se deixa absorver de tal modo por preocupações artificiais e tarefas superfluamente ásperas, que não pode colher os frutos mais saborosos da vida"

David Henry Thoreau

Faz muito tempo que deixamos de trabalhar para garantir o que necessitamos para uma vida saudável, passamos a dedicar horas a fio para compensar um luxo que não precisamos.

É fácil entender os desejos pelos luxos que o marketing nos vende todos os dias, mas devemos voltar com frequência ao nosso estado mais natural, para saber diferenciar o essencial e o supérfluo.

Os elementos necessários para nossa sobrevivência foram definidos durante milhares de anos de evolução da humanidade, mas às vezes precisamos de um esforço para lembrar o que isso significa.

Rimos das pessoas que decidem morar afastadas das grandes cidades e levam uma vida simplória. A decisão de ganhar menos dinheiro com a possibilidade de uma vida melhor nos causa estranheza. Em algum momento da história, a falta de ambição tornou-se uma espécie de falha moral, quando na verdade essa mesma ambição é a causa de inúmeras doenças modernas.

Sabemos que passar o dia sentado está nos matando, que nossa ambição é um indicador de sucesso, mas que está associada ao envelhecimento precoce e debilidade física. Estamos literalmente trocando tempo de vida por resultados melhores, mas no fim, a troco de que?

Não digo para abandonarmos a vida na cidade e voltar a viver como os índios, mas que voluntariamente, por um determinado período, é importante viver com mais simplicidade.

Isso significa fazer trabalhos manuais, plantar um pouco do que precisamos para comer, dormir quando estiver escuro e acordar com o dia. Deixar de lado condimentos e alimentos processados, comer o que for mais próximo da natureza e evitar os excessos. Nada além do essencial humano, mas o suficiente para solucionar grandes problemas que todos passamos.

Caso contrário, estaremos apenas dando continuidade às observações que Thoreau já havia feito no século 19:

“A excessiva lida torna-lhe os dedos demasiados trêmulos e desajeitados. Na realidade, o trabalhador não dispõe de lazer para uma genuína integridade dia a dia, nem pode se permitir a manutenção das relações mais humanas com outros homens, pois seu trabalho seria depreciado no mercado. Não há condições para que seja outra coisa se não uma máquina.”

David Henry Thoreau


publicado em 25 de Julho de 2016, 18:22
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Alberto Brandão

É analista de sistemas, estudante de física e escritor colunista do Papo de Homem. Escreve sobre tudo o que acha interessante no Mnenyie, e também produz uma newsletter semanal, a Caos (Con)textual, com textos exclusivos e curadoria de conteúdo. Ficaria honrado em ser seu amigo no Facebook e conversar com você por email.


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