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Dian Fossey | Mulheres que você deveria conhecer #5

A história de quem viveu e morreu pelo seu ideal e ensinou o mundo a amar e respeitar os animais

Imagine fazer a viagem da sua vida e nela descobrir seu verdadeiro propósito, sua real vocação. E a partir daí começar a dedicar-se a realização e preservação deste ideal. Legal, né não?

Pois Dian Fossey viveu essa história em nome da preservação dos Gorilas-da-Montanha, na África.

Nascida em 1932, em São Francisco, Califórnia, a chamada ‘mulher gorila’, com doutorado em Zoologia pela Universidade de Cambridge, formou-se primeiro em Terapia Ocupacional no ano de 1954 e trabalhou em diversos hospitais infantis da Califórnia e em Louisville, no Kentucky. Chegou a cursar Veterinária na Universidade da Califórnia, mas não concluiu o curso.

Uma primeira viagem: África

A história de Dian Fossey começa em 1963 quando, aos 31 anos, juntou todas as suas economias e, com a ajuda de um empréstimo bancário, decidiu que era hora de realizar um antigo sonho: viajar para a África sozinha.

Visitou o Quênia, a Tanzânia (que era Tanganyika), o Congo (que era o Zaire), e o Zimbabwe (que era a Rodésia). Com o famoso caçador britânico J.A. Hunter como guia, visitou Tsavo, o maior parque nacional da África; o lago salino de Manyara, famoso por atrair rebanhos gigantes de flamingos; e a Cratera de Ngorongoro, conhecida pela sua abundante vida selvagem.

O momento crucial da visita foi seu encontro com Louis Leakey, famoso pelo estudo da evolução humana a partir de fósseis encontrados na Garganta do Olduvai, região conhecida como O Berço da Humanidade – um dos mais importantes sítios arqueológicos do mundo. Além disso, Leakey também era reconhecido pelo trabalho pioneiro na promoção da pesquisa de campo de primatas em seus habitats naturais, que ele entendia como chave para desvendar os mistérios da evolução humana.

Foi neste encontro que Dian conheceu o trabalho de Jane Goodall com os chimpanzés na Tanzânia, patrocinado por Leakey, que dividiu sua crença na compreensão do comportamento dos primatas para entender as origens dos seres humanos.

Dian Fossey em 1963, em sua primeira visita ao continente africano

Junto do casal de fotógrafos da vida selvagem no Quênia, Joan e Alan Root, que procuravam gorilas nas montanhas de Virunga, Dian pode pela primeira vez observar um animal daqueles durante uma caminhada por uma trilha em Uganda. A imponência ameaçadora do maior dos primatas deu lugar a beleza cativante do convívio familiar praticado por grupos destes animais.

Tamanha foi a emoção que Dian sentiu por estar tão próxima daqueles bichos – um misto de medo e paz, perigo e segurança – que acabou por escrever um livro, Na Montanha dos Gorilas, em 1983.

“Foi neste momento que a semente foi plantada no meu coração. Mesmo que inconscientemente eu sabia que um dia iria voltar para a África para ver de novo os Gorilas-das-Montanhas."

- Na Montanha dos Gorilas

Quando há que ser, acontece

Quando voltou para casa, no Kentucky, ela retomou seu trabalho com a terapia ocupacional – afinal, precisava pagar o empréstimo que havia feito para custear sua viagem – sonhando com o dia que voltaria para a África.

Três anos depois, em 1966, uma turnê de palestras sobre paleontologia e ciência trouxe para o Kentucky ninguém mais, ninguém menos que Louis Leakey – aquele mesmo pesquisador encontrado escavando fósseis na Garganta do Olduvai. Dian, que foi assistir às palestras do doutor, aproveitou para falar dos artigos que havia publicado sobre sua viagem ao continente africano, e foi nesse encontro que Leakey falou sobre seu interesse em financiar um projeto de campo de longo prazo para observar e estudar os Gorilas-das-Montanhas.

Ele precisava de alguém com o perfil de Dian, que já tivera algum contato com aqueles animais e com coragem o suficiente para encarar as Montanhas Virunga. E antes de convidá-la, ela já havia dito “sim”.

Naquele instante Dian passou a ser, junto de Jane Goodall, membro da chamada Trimates, ou Anjos de Leakey, que mais tarde receberia também Birute Galdikas e seu trabalho com os orangotangos na região de Sarawak, na Indonésia.

Jane Goodall, Diane Fossey e Birute Galdikas, o #teamLeakey

A vida junto dos Gorilas

Em 1967, Dian Fossey já tinha um acampamento nas Montanhas Virunga e se preparava para o estudo desses animais. Nesta época, os gorilas eram vistos como uma espécie agressiva e perigosa e foi Fossey quem desmascarou esse mito, provando que eles eram animais pacíficos, que só se mostram raivosos e resistentes quando estão protegendo seus filhotes e seu território.

Era conhecida pelos nativos como “Nyiramachabelli”: a mulher que vive na montanha, e não se limitava a simplesmente sentar e observar. A cada dia chegava mais perto, permitindo-se ser vista pelos gorilas. Passou um longo período mimetizando seus hábitos alimentares, higiene e vocalização dos animais, a fim de ganhar a confiança do grupo. Mastigava aipo e caminhava com os punhos no chão. Foi essa paixão e profunda empatia por esses animais que a tornaram tão eficaz como especialista no comportamento animal.

Dian aprendeu a enxergar os gorilas como pares e identificou personalidades individuais em cada um – razão pela qual nomeava cada gorila que observava, ao invés de simplesmente numerá-los.

Além disso, durante sua pesquisa, Fossey descobriu que os gorilas possuíam uma vasta gama de emoções, tais como nós humanos, e que podiam construir ferramentas como os chimpanzés.

Os anos de dedicação e observação paciente permitiram os gorilas confiarem nela e lhe concederem o privilégio de estar entre os seus. Dian passou então a caminhar junto dos gorilas e até brincar com os mais jovens. Ajudou esses animais a superarem a sua natureza tímida e o medo natural que tinham dos seres humanos. Encontrou ali a plenitude entre homem e natureza. Desfrutou da magia que é ser aceito e respeitado por um animal e aprendeu a amá-los como irmãos.

Em 1968, a National Geographic Society enviou o fotógrafo Bob Campbell para fotografar seu trabalho, e se inicialmente Dian viu a presença do fotógrafo como uma intrusão ao seu convívio com os animais, ao final, ambos acabariam por se tornarem grandes amigos.

As fotografias de Fossey entre os Gorilas-da-Montanha tornaram-na uma celebridade instantânea, mudando para sempre a imagem dos gorilas como bestas perigosas para seres delicados e gentis, e chamando a atenção para a matança destes animais por grupos de caçadores.

A luta pela preservação dos Gorilas

Algumas guerras, rebeliões e conflitos civis a obrigaram afastar-se dos gorilas por algum tempo, período no qual fundou, em Ruanda, o Centro de Pesquisa Karisoke.

Fossey chegou a passar meses inteiros sozinha nas montanhas lidando ela mesma com caçadores e criadores de gado que cruzavam seu acampamento. Em seu livro, relata um episódio no qual, durante a noite, percebeu um grupo furtivo de caçadores próximos da comunidade de gorilas que ela observava. Foi com uma máscara artesanal que ela conseguiu assustar os intrusos.

Por quase 20 anos, viveu entre os Gorilas-da-Montanha e logo se apegou a um gorila macho que chamou de Digit. Ele passou a ser seu melhor amigo. Conviveu com Digit por sete anos, até que ele foi morto por caçadores, em 1977, que deceparam a sua cabeça e arrancaram as mãos para que fossem transformadas em cinzeiros.

Digit morto

Foi neste período que Fossey criou o Fundo Digit, para arrecadar recursos que deveriam ser utilizados nas pesquisas com os Gorilas-das-montanhas – mais tarde rebatizado de Dian Fossey Gorilla Fund International – e começou sua campanha contra a atividade de caçadores de gorilas, tornando-a inimiga declarada destes grupos, e até de soldados corruptos do exército de Ruanda que favoreciam ilegalmente a captura de filhotes nas montanhas.

Fossey temia que os Gorilas-da-Montanha pudessem estar extintos até o fim do século XX caso nenhuma medida fosse tomada, e acreditava que apenas métodos drásticos poderiam salvar a espécie, considerando inúteis quaisquer metas de preservação de longo prazo. Então, passou a peregrinar pela montanha a fim de destruir armadilhas dentro da floresta.

O próprio portal na internet do Fundo Fossey admite que seus métodos eram “pouco ortodoxos”. Dian chegou a mutilar o gado de criadores locais para se afastarem das montanhas; incendiou acampamentos de caçadores; e até mesmo invadiu e assaltou casas de nativos suspeitos de colaborar com o tráfico de gorilas. Além disso, criticava duramente as autoridades locais pelas falhas na proteção das reservas florestais onde viviam os animais, ganhando a antipatia destes.

Em dezembro de 1985 Dian Fossey foi encontrada morta em seu acampamento, aos 53 anos, atingida duas vezes na cabeça e no rosto com golpes de facão. Muitas foram as teorias sobre o assassinato de Dian Fossey e até hoje ninguém foi responsabilizado.

Seu corpo foi enterrado atrás Centro de Pesquisa Karisoke, ao lado do gorila Digit. O local dos túmulos é um ponto de peregrinação de naturalistas e fãs da ambientalista.

O Legado

As visões a respeito de Dian são controversas. Em 2002, o jornalista Tunku Varadarajan, em um artigo para o jornal The Wall Street Journal, definiu a primatóloga como “uma alcoólatra racista que via os ‘seus’ gorilas como melhores que os africanos que viviam perto deles".

Para Erika Archibald, no entanto, do Fundo Fossey, a pesquisadora americana merece o crédito por "fazer com que gente de todo o mundo se tornasse receptiva às necessidades desses animais".

Quando a luta de Dian Fossey começou, restavam menos de 250 Gorilas-das-Montanhas em Virunga, na fronteira da República Democrática do Congo (então Zaire) com Ruanda e Uganda. Hoje, a população de Gorilas-da-Montanha conta com 880 em todo o mundo, dos quais um quarto vive em Virunga.

Recentemente, o documentário “Virunga”, da Netflix, denunciou as ações da multinacional britânica Soco na exploração de petróleo no território das montanhas Virunga pertencentes ao Congo. Mesmo trinta anos após a morte de Fossey, a espécie ainda luta contra a extinção.

“Aqui é a casa dos Gorilas-das-Montanhas e homem nenhum tem o direito de invadi-la. Deixe-os viverem. Deixe-os viverem em paz.”

- Dian Fossey


publicado em 01 de Junho de 2016, 09:45
Fotoelton

Elton Santana

Gosta de livros, séries e filmes. Teve um Nintendo quando criança e por isso odeia as fases aquáticas do Mario. Gosta de Humanas, mas tem formação em Exatas. Mistura Queen e Wesley Safadão na mesma playlist.


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