Dieta da raiva: como não fazer

Ou "ai, minha vesícula"

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Eu não sabia que era raiva. Só começou a doer. Foi logo depois do Natal. Aquela época feliz e cheia de festas.

Nem saber direito o que era a vesícula eu sabia. Ouvi tempos atrás algo sobre, mas nunca dei valor. Sinceramente, até hoje não sei assim, tecnicamente, o que ela faz.

Foi um pastel de queijo serra da canastra, desses que vem no pratinho, de monte, pequeninos e cheio de recheio, que me alavancou a dor. Tenho certeza. Ou foi o croquete, com casquinha crocante e recheio todo desfiadinho e tempero bem acertado. Com certeza não foi a degustação de vários chopes que tinham fresco na casa. Não foi.Tudo isso na verdade engastalhou na raiva. Tudo isso pegou de jeito meu órgão. Tão inútil e tão responsável. Se eu tirar a vesícula, será que a raiva passa direto? Vai parar aonde?

Vou ter que fazer regime de sentimentos. Certeza. Já tô até com saudade de enraivecer no trânsito. Mandar tomar no cu aquele carro que não deu seta. Reclamar sem parar sobre as pessoas que não sabem estacionar direito. Aquele semáforo vermelho que não deveria ser atravessado. Não me corta a frente seu FDP *#!*

Quando acordar atrasada, não vou poder esbravejar que não deu tempo de tomar café. Ficar com raiva já que o pãozinho com manteiga não foi possível, tão delícia, na chapa quentinho. O dia que não estiver muito bem, meio doente, meio cansada, vou ter que ficar quietinha. A ira de não poder beber uma cervejinha vai ter que ficar para nunca.

Tem dias que o trabalho parece não acabar e todos os colegas estão pegando no nosso pé. Não vai ter mais mimimi. Meu chefe me pediu algo diferente, tenho que pensar em não ficar em fúria. Aceitar que tenho limites, sem pilhar a minha autoestima. Meu ego, ah... esse danadinho, vai ter que se acostumar com uma calmaria.

Não dá para comer uma batatinha frita quando se tem raiva dos outros. O corpo não deixa. Aquele hambúrguer gostoso de quinta-feira não pode simplesmente não existir mais. A pizza, tão importante na questão facility, pouca louça, compartilhada com os amigos é importante demais. Comida e sentimentos estão mais conectados do que a gente imagina. No fundo é tudo uma mistura de itens dentro de nós.

Apesar de não concordamos com o que outras pessoas fazem, não cabe a nós sentir emoções que nos destroem por dentro. Quem sabe marcar a cervejinha e conversar com alguém sobre coisas que nos fazem sentir raiva. Aquele café depois do almoço, com uma paradinha para filosofar sobre a vida pode ajudar. O chá da tarde com amigos é uma verdadeira cura. A rotina ao redor da mesa nos ajuda a compartilhar mais do que um momento de vida, mas também podemos usar a nosso favor para ir além de só alimentar o corpo, mas desintoxicar a alma.

Ainda não sei o que vai acontecer com esse pedaço de mim, mas de qualquer forma ele fez com que o pastelzinho me mostrasse que estava levando a vida pesada demais. Não era balança, era expectativa.


publicado em 08 de Fevereiro de 2018, 00:00
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Bia Amorim

Formada em Hotelaria e pós-graduada em Gastronomia, com especialização em Sommelier de Cervejas. Está no Twitter (@biasamorim) e Instagram (@biasommelier), além do Farofa Magazine, projeto que nasceu para para atender a crescente demanda de comensais que gostam de harmonizar, aprender, conversar e filosofar.


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