23 pontos para homens e mulheres terem conversas mais sinceras sobre disfunção erétil (vulgo, "quando a brochada vai além do ocasional")

59% dos homens já tiveram ou têm algum problema de ereção durante o ato sexual, segundo a Sociedade Brasileira de Urologia. Que tal conversarmos sobre isso?

A impotência masculina era considerada crime e base legal para o divórcio na França do século 17, segundo a Wikipedia

Ainda no mesmo artigo, é mencionado o cirurgião russo-francês Serge Voronoff, que ganhou notoriedade nas décadas de 1920 e 30 por realizar enxerto com tecidos de testículos de macaco em sacos escrotais de milionários. 

Voronoff foi aplaudido por seus pares no Congresso Internacional de Cirurgiões de 1923, em Londres, pelos méritos de sua técnica no rejuvenescimento de homens velhos. Segundo ele, os benefícios poderiam incluir melhor memória, a capacidade de trabalhar mais horas, a não necessidade de óculos (por conta de melhora nos músculos ao redor dos olhos), o prolongamento da vida e, o mais esperado, mais vigor sexual.

Nas décadas seguintes o trabalho de Voronoff teve suas bases derrubadas pela comunidade científica.

Quase 100 anos depois, assusta observar como crendices, superstições, medo e confusão seguem abundantes quando o assunto é a ereção masculina. Uma googlada rápida nos oferece chás mágicos, pílulas de origem duvidosa, livros de autores inexistentes prometendo métodos para recuperar sua testosterona, clínicas e tratamentos suspeitos aos montes.

Também pudera, junte a notória dificuldade dos homens em se abrir e procurar ajuda com o pavor em se imaginarem brochas e você tem a receita do desastre.

Enquanto uns batem no peito orgulhosos ao bradar "eu nunca brochei!", outros gostam da postura mais madura e desencanada de bater no peito e dizer "eu já brochei sim, todo homem brocha!", sinalizando não pensar grande coisa disso que eu, você e quem mais estiver lendo esse texto vai enfrentar algum dia. 

O tamanho do buraco

O limbo está nos milhões de homens que sofrem algo a mais e morrem de medo de admitir. O milhões não é força de expressão ou palpite. Segundo a pesquisa "De volta ao controle" realizada pela SBU (Sociedade Brasileira de Urologia), 25.000.000 brasileiros lidam hoje com a disfunção erétil

Disfunção erétil é diferente de brochar umavezinha. É lidar repetidamente com ereções mais fracas ou insuficientes para manter uma relação sexual, ocasionando insatisfação no homem e na(o) parceira(o).

Segundo o urologista Sidnei Glina, "a adrenalina é inimiga número um da ereção".

Antes que argumentem em defesa do sexo perigoso ou em público, recheado de adrenalina, explico. O problema surge com o excesso de adrenalina, por vezes disparada pela ansiedade, contraindo assim a musculatura e as artérias do pênis e impedindo o fluxo sanguíneo adequado.

Em uma situação normal, os estímulos sexuais relaxam a musculatura peniana, permitindo que o fluxo sanguíneo preencha os corpos cavernosos e a ereção aconteça.

A chave está no relaxamento.

Ainda de acordo com Glina, 70% dos casos de disfunção erétil são emocionais e "é muito comum homens no começo da vida sexual, que estão extremamente ansiosos, começarem a ter dificuldade de ereção por causa do excesso de adrenalina. Esses indivíduos têm que ser tratados, orientados para terem uma vida sexual melhor mais tarde". 

Segue uma excelente entrevista com ele, no programa do Jô. Vale cada um dos 43 minutos, clique aqui para assistir:

Hoje, “a taxa de prevalência da disfunção erétil cresce anualmente em todo o mundo”, nos explica o urologista Carlos Corradi, presidente da SBU.

Em oposição a esse crescimento, ainda impera o silêncio entre os homens.

Eu já sofri com disfunção erétil e senti isso na pele. Tinha vergonha de abrir com os amigos a gravidade da situação, conversava sondando e buscando cumplicidade, querendo saber se era o único, se alguém tinha alguma solução ou conselho a oferecer. 

Conversando com um psicólogo especializado em sexualidade masculina, com mais de trinta anos de prática, escutei dele que a idade dos seus pacientes é cada vez menor. Quando começou a clinicar, vinham homens de 50, 60. Algum tempo depois, de 40. Hoje diz que a quantidade de homens na faixa dos 20 e 30 cresce cada vez mais.

Não dá pra esse assunto seguir guardado numa caixa preta. É urgente.

Com a aspiração de estimular homens e mulheres, hetero ou homossexuais, solteiros ou se relacionando, jovens ou velhos, a terem melhores conversas sobre o tema e romperem o silêncio, compartilho a lista abaixo.

São achados da interessante pesquisa "De volta ao controle", da Sociedade Brasileira de Urologistas. Vou tomar a liberdade de comentar e questionar alguns deles, entretanto. 

23 pontos para conversarmos

1. 40% dos homens já falharam na cama

2. 72% da população não sabe que existem três graus de disfunção erétil 

3. os três graus são:

- DE leve, quando a capacidade de manter ereção está pouco diminuída, ou ocorre apenas esporadicamente

- DE moderada, quando a capacidade de manter a ereção está moderadamente afetada, sendo frequente a insatisfação sexual

- DE completa, quando o paciente não consegue atingir a ereção em nenhuma ocasião, com grande prejuízo para o desempenho sexual

4. O desconhecimento mais prevalente está entre a população na faixa de 40 a 49 anos (78%). Os que detêm mais informação têm idade entre 60 e 69 anos (41%).

5. 34% dos entrevistados diz não conhecer nenhum tipo de tratamento contra a doença.

6. O maior nível de desconhecimento está na região Sul, onde 42% dos entrevistados dizem desconhecer todas as formas de tratamento.

7. Entre as opções atualmente disponíveis para a disfunção erétil, as mais conhecidas pelo público são os medicamentos orais (61%), seguidos pelo implante de prótese maleável (38%), implante de prótese inflável (21%) e injeção (21%).

8. Mais de 52% dos homens assumem que já tiveram ou têm alguma falha de ereção durante o ato sexual.

9. 56% das parceiras e parceiros (a pesquisa também foi realizada com pessoas homossexuais) dizem que já passaram pela experiência do companheiro falhar na cama.

10. Disfunção erétil afeta 25 milhões de brasileiros e, desses, cerca da metade sofre com a forma grave que impede por completo o homem de ter relações

11. Perguntados se desistiriam do relacionamento caso tivessem disfunção erétil, 78% dos homens dizem que não, seguidos por 77% dos parceiros(as). 

12. Apenas 2% de ambos os lados assumiram que desistiriam do relacionamento por conta da disfunção erétil. 

Meu comentário sobre os pontos 11 e 12: hmm, truco. Assim como qualquer outro conflito enfrentado pelo casal, creio que a disfunção erétil pode transbordar para outras esferas do relacionamento. Ambos podem ficar mais intolerantes, irritados, com brigas idiotas acontecendo a todo momento. O homem pode assumir uma posição submissa e com posturas sem vigor, se sentindo mal e fazendo com que a própria parceira tenha seu interesse diminuído. A mulher pode sentir que a culpa é sua, por não se achar atraente ou boa o suficiente. Punições silenciosas podem surgir, à medida em que mágoa, ressentimento e dúvida povoam a relação. 

13. Os companheiros mais persistentes estão na faixa dos 60 a 69 anos. Para 84% deles, a disfunção erétil não é motivo para separação.

14. Para 71% dos entrevistados pela pesquisa, a principal causa da disfunção erétil é o estresse, seguido por problemas de saúde como diabetes e hipertensão (54%), consumo de álcool (52%) e drogas ou anabolizantes (45%)

15. Entre as doenças associadas, para 62% dos entrevistados a depressão aparece em primeiro lugar, seguida do câncer de próstata (48%), diabetes (46%), sobrepeso ou obesidade (42%), problemas vasculares (39%) e doenças cardiovasculares (30%)

16. Ao detectar o problema, a maioria dos homens entrevistados tomaria como primeira providência procurar um médico. Para 76% dos entrevistados, o urologista é o especialista a ser consultado. Em segundo plano, 39% deles conversariam com a parceira ou o parceiro. Para 38%, a alternativa seria procurar um clínico geral e 18% iriam a um psicólogo.

Meu comentário sobre esse ponto: uma tristeza o psicólogo ser a última opção, já que na esmagadora maioria dos casos a raiz é psicológica. 

17. 72% dos homens não deixariam de ter relações sexuais por medo de falhar, segundo a pesquisa. 

18. 17% dos homens cogitariam a possibilidade de desistir de uma transa por conta da disfunção erétil, enquanto 29% dos parceiros(as) compartilham da mesma opinião. 

Meu comentário sobre os pontos 17 e 18: truco. Talvez esse percentual seja o que os homens acham que fariam. A percepção muda bastante quando está no meio de uma situação, acredito que tudo ganha contornos bem mais pesados e você se sente disposto a fazer qualquer coisa para não passar pela terrível sensação de falha. 

É comum o homem entrar num ciclo negativo que se autoreforça, como o descrito abaixo:

Fonte: Centro Masculin | masculin.com.br

19. 65% dos parceiros afirmam que compreendem o problema e não ficam chateados. 28% dos parceiros(as) assumem que compreenderiam a situação, mas ficariam chateados.

20. 62% dos homens afirmam que compreenderiam o problema, mas não ficariam chateados.

21. 9% dos homens acham que seriam indiferentes, caso tivessem algum problema de ereção.

Meu comentário sobre os pontos 19, 20 e 21: truco. Creio que tanto os homens quanto as(os) parceiras(os), em sua maioria, tendem a ficar bem mais do que "chateados". É incrível como sexualidade pode nos tocar fundo e nos expõe e faz surgir pensamentos terríveis sobre nós mesmos e sobre a pessoa ao nosso lado. Acho que reconhecer isso ajuda a lidar melhor com o problema, inclusive.

22. Falar sobre disfunção erétil parece não ser problema para 78% dos entrevistados, que afirmam não ter dificuldade em discutir o assunto. Por outro lado, 18% assumem que sentiriam algum constrangimento e 4% não conversariam sobre o tema. 

Meu comentário sobre esse ponto: também truco. Basta olhar em volta, em qualquer mesa de bar ou reunião entre amigos pra ver como o assunto ainda é tabu. Uma coisa é dizer que já brochou aqui e ali, outra é se abrir em relação à disfunção erétil. Creio que esse ponto específico da pesquisa foi estruturado de um modo – talvez com questionários de múltipla escolha – que não conseguiu extrair o que a realidade já nos mostra. Justamente por isso, gostaria muito de ver mais homens e mulheres se apoiando em relações de parceria profunda como andei falando aqui

O vigésimo terceiro ponto

Esse merece uma seção à parte – e não veio da pesquisa da SBU.

Estima-se que 70% dos casos de disfunção erétil não são contabilizados pois os homens simplesmente não os reportam.

Segundo a Wikipedia e vários outros artigos que você encontra pelo Google, há 150 milhões de homens no mundo sofrendo com essa condição. Mas o estudo que chega nesse número é de 1995

Um dado colhido há 20 anos seguir válido e não contestado me parece sintoma do gigantesco estigma que ainda ronda o tema. 

O que fazer então?

Quebrar o silêncio.

Falar, se abrir, procurar ajuda de especialistas. Se escutar o relato de um amigo ou amiga que enfrente problemas com isso, oferecer apoio e uma conversa franca e interessada, com empatia e sem piadinhas.

Brochar é ok. Se acontecer, respire, brinquem, se permitam reconhecer que o corpo humano não é uma máquina com botãozinho liga/desliga.

Quanto mais conseguimos de fato relaxar com nós mesmos e com essa noção, mais vamos nos aproximar de uma sexualidade mais livre para todos.

Sugiro alguns artigos do próprio PdH para ajudar nesse caminho:

Sugiro ainda o livro "Como pensar mais sobre sexo", de Alain de Botton.

Por fim, gostaria de escutar tanto os homens, como os parceiros e parceiras. Há vários tratamentos e práticas confiáveis atualmente. Mas nada funciona se você segue isolado e fechado para as possibilidades.

Alguém mais enfrentou ou enfrenta problemas com isso? Como lidou ou lida? 


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publicado em 11 de Abril de 2015, 19:41
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Guilherme Nascimento Valadares

Editor-chefe do PapodeHomem, co-fundador d'o lugar. Membro do Comitê #ElesporElas, da ONU Mulheres. Professor do programa CEB (Cultivating Emotional Balance). Oferece cursos de equilíbrio emocional e escreve pequenas ficções no Instagram.


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