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Ditadores "pop" e ditadores do underground

O professor e pesquisador Eric Hobsbawm afirmou:

“A abrangência do passado depende das circunstâncias, porém, terá sempre interstícios, ou seja, matérias que não participam do sistema da história consciente na qual os homens incorporam, de um modo ou de outro, o que consideram importante sobre sua sociedade”.

Em outras palavras, aquilo que é definido enquanto passado é uma seleção particular do que é lembrado ou capaz de ser lembrado.

Nos dias atuais podemos falar mais de uma naturalização dos fenômenos sociais, pois estes surgem e se manifestam sem quaisquer vínculos devidamente estabelecidos com o passado, onde o novo envelhece rapidamente para ser superado ou substituído em uma relação direta com o presente contínuo.

Você conhece esse cara? Ele tem aproximadamente 50.000 mortes nas costas (clique na imagem)

A questão que nos persegue aqui é problematizar a expectativa social e suas “criações de memória”, para compreender de que maneira algumas figuras históricas (Hitler e outros ditadores do século XX) são mais “lembradas” do que outras, ou porque sua relevância é determinada culturalmente, ainda que em números ou acontecimentos alguns sejam mais significantes do que outros.

A questão da Barbárie

O século XX, podemos assim dizer, apresenta números muito peculiares: estima-se que entre 1914 e 1990 tenham sido 187 milhões de mortes. Todas ocorridas a partir da exposição e prática da violência. De alguma forma passamos a nos habituar ao morticínio, o século XX é sem dúvida uma das eras mais assassinas da História. Os problemas começaram porque os agentes de decisão não sabem mais o que fazer quanto a um mundo que escapa ao seu ou ao nosso controle, e porque a transformação explosiva da sociedade e da economia a partir de 1950 produziu um colapso e ruptura sem precedentes nas regras que governam o comportamento em sociedades humanas.

Temos a nossa frente um momento de especial atenção: o século XX é marcado também pela explosão dos meios de comunicação em massa. O rádio, a televisão, a publicidade, a moda, os meios de transporte, as redes de fast food, a internet, as redes sociais e etc.

Parecem assim, que as perspectivas globais de nosso tempo permitiram uma ainda maior popularidade de Hitler e outros ditadores pela exposição extrema de suas condutas, ideologias e seja lá mais o que for necessário. O capitalismo e sua astúcia cativadora acabaram por engolir tais fenômenos em uma complexa rede de interesses. Por exemplo: camisas e camisas com o rosto de Che Guevara, edições ilimitadas d'O Capital de Karl Marx, filmes diversos que abordam a temática do Nazismo na Alemanha a partir de diferentes olhares e estéticas, adesivos, figurinhas, jogos virtuais, fantasias, enfim, há uma infinidade de exemplos para caracterizar a permanência da materialidade de regimes políticos dos últimos cem anos.

Um desses caras governou por quase 40 anos e seu mandato rendeu aproximadamente um milhão de mortos. Você sabe dizer quel ele é? (clique na imagem)

Nomes aos bois

Hitler se tornou, sem sombra de dúvidas, a figura mais emblemática entre os ditadores do último século. Ao passo que o velho Adolf assume esse “ranking do mal”, outros possuem histórias igualmente densas e carregam em seus currículos morte, violência e autoritarismo.

No Chile do ex-ditador Augusto Pinochet, um filme tem gerado uma série de protestos. O ex-general, que morreu em 2006 e governou o país de forma autoritária entre 1973 e 1990, tem seu período enquanto presidente retratado de maneira sutil e generosa, o que despertou a indignação de milhares de civis. O governo Pinochet tem em seu currículo, entre mortos e desaparecidos, algo em torno de 50.000 pessoas, incluindo alguns brasileiros. É o período mais duro da história chilena.

Não mencionarei neste texto, pelo menos não de maneira largamente expositiva, o caso do Brasil e a ditadura militar (1964-1985) por tratar-se aqui de nosso próprio país e questões já bastante conhecidas. Mas dentro do assunto, algo chama a atenção: para as gerações que experimentarem o regime há uma memória imortalizada, não há dúvida, mas arrisco a dizer que a figura de Hitler é mais facilmente reconhecida pelas gerações atuais que a de qualquer um dos militares presidentes brasileiros (Castello Branco, Costa e Silva, Médici, Geisel e Figueiredo). Alguém aí, rapidamente, em um exercício de memória, lembra-se qual entre eles usava bigode? Pois é, caros leitores, logo se imagina um aluno em sala de aula: “Mas bigode quem usava era o Hitler, professora!”.

Nas tristes regiões da Europa Central e do leste, outros conflitos colocaram à frente líderes extremos. Slobodan Milosévic governou a Sérvia de 1989 a 1997 e a República Federal da Iugoslávia de 1997 a 2000. Foi nesse período que ocorreram as guerras na Croácia, Bósnia e Kosovo. Morto em 2006 em Haia, na Holanda, Milosévic estava em julgamento no Tribunal Penal Internacional para a Antiga Iugoslávia, onde algumas acusações lhe couberam, entre elas, genocídio, assassinatos, extermínio, prisão, tortura, deportação, perseguições por motivos políticos, raciais ou religiosos entre outras tantas acusações.

Você conhece esse senhor? Ele foi responsável por um genocídio que exterminou um quarto da população de seu país (clique na imagem)

Ainda na antiga Iugoslávia, Josip Broz Tito (1892-1980) foi outro ditador que comandou o país que anexava diversas regiões. Certamente em qualquer escola asiática ou americana seus nomes e principalmente fisionomias não tem nenhuma referência de memória em crianças e adolescentes.

Outras ditaduras fortemente impulsionadas ocorreram na Àsia e África: a teocracia islâmica no Irã após a revolução de 1979, Indonésia, Filipinas, Camboja, Angola, Sudão, Líbia, Argélia. Mencionarei aqui a questão do Iraque e seu líder Saddam Hussein como um caso diferenciado. Saddam representa uma figura popular no Ocidente e sobretudo nos Estados Unidos principalmente a partir do final dos anos 80 e início dos anos 90. Motivo? A demonstração de força do exército americano e seus aliados na Guerra do Golfo (1990-1991), que por si só apresenta um fator peculiar, pela primeira vez a cobertura jornalística se colocou ao vivo nas linhas de frente de um confronto armado.

Hitler: o mais popular entre todos os odiados

Como um reality show que contasse com todos os ditadores atrozes do século XX terminaria? Quem, entre eles, seria condenado pelo público como o mais popular entre todos os odiados inimigos da humanidade? Tudo nos leva a crer que Adolf Hitler venceria o programa, na China ou em qualquer lugar do planeta.

Trata-se aqui de uma mera opinião baseada em alguns argumentos sugestivamente relevantes, mas ainda assim, aqueles que resolverem comentar o artigo poderiam eleger os ditadores que julgam mais populares, sobretudo os do século XX, visto que não trabalhei devidamente com outros representantes de tempos mais distantes da História.

São caminhos intrigantes e interessantes que determinam uma cultura, um povo ou uma sociedade. Não há arte certa ou errada, religião certa ou errada, o que há somente são formas distintas de trilhar, de obedecer a estas ou aquelas regras de conduta ou comportamento, o jogo das relações faz do certo o incerto, do esperado ridicularizado, da certeza dúvida, do bem mal, do mais forte destruição, de Hitler o vencedor no jogo da maldade.

Esse cara você conhece bem

publicado em 05 de Setembro de 2012, 06:29
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Valdir Pimenta

Historiador, tem especialização em História Social e Ensino de História. Mestre em História Social com ênfase em Religiosidades, Judaísmo e Intolerância. Professor no Ensino Superior e na Rede Pública de Educação. Interesse nas Artes, literatura, poesia e \r\ncinema. Ainda escreverá um romance.


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