Do 13 ao 15: a política nos tempos do entretenimento

Entre o tédio e a perplexidade, o que precisamos é de uma democracia desapaixonada.

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Passei pela Avenida Paulista nos dias 13 e 15. Digo ‘passei’ porque mantive certa distância do meu objeto de estudo, procurei guardar um olhar quase etnográfico sobre os dois protestos.

Mas, como antropólogo amador, não pude deixar de me afetar pelos fatos. Não vi violência em nenhum dia, mas me senti profundamente incomodado.

Bonito vermos tantas pessoas tirando fotos e se aproximando dos policiais em meios aos protestos, em sua maioria sem violência

Óbvio que aquilo fazia parte do jogo democrático, mas naquele FLA x FLU, me senti engolido pelas torcidas. Senti que todos fomos consumidos pelo entretenimento.

Flusser dizia que “o entretenimento é o acúmulo de sensações a ser eliminado sem ser digerido.” 

A impressão geral que ficou dos dias – com o auxílio-protesto de um lado e o mar de camisas da CBF de outro – é de que devoramos tudo com atitude sensacionalista, incapazes de compreender a dimensão daquilo que estamos prestes a fazer.

O que significaram esses dois dias? O que temos além de um profundo descontentamento pelo estado das coisas manifestado em um dia (15) e contraposto previamente pelo outro (13)?

Não temos nada. Temos um deserto de desentendimento preenchido por uma mar de insatisfações genéricas, vagas e apaixonadas. E como agravante – para dar o tom do entretenimento – as pessoas de todos os lados usando eventos isolados para retratar o todo, na peremptória tentativa de desqualificar e deslegitimar o outro. 

Uns postando a foto do auxílio-alimentação concedido pela CUT aos seus militantes, outros publicando o enforcamento dos bonecos de Dilma e Lula.  

Diante desse mosaico de figuras que ilustram muito sem explicar nada, fiquei eu todo saudoso de alguns papos que tive nas manifestações de junho de 2013, em que a ausência de uma clivagem político-eleitoral permitia debates de fato políticos. 

Recordo-me especificamente de uma conversa em que eu aprendi muito: eu ali falando sobre o Voto Distrital, na mesma Paulista, com um cara que defendia uma reforma tributária e outro que me falava sobre a Auditoria Cidadã da Dívida Pública.

Junho de 2013, puxado – é verdade – pelos atos contra o aumento da tarifa de transporte, era um swarming: múltiplas ideias e pessoas trocando experiências à revelia do interesse de alguns em dar àquilo apenas um sentido. 

Março de 2015 foi diferente, segmentado desde o início. Uns num dia, outros no outro, fortalecendo a velha máxima de uma política binária.

13 de março


15 de março

Ao fim dos episódios desse março, nós - o público - assistiremos a uma série de interpretações que se fará desses dias, bem como aos usos que nossos políticos farão dessas datas. Já estamos vivendo uma guerra de seus significados.

E em meio a essa política de lados, o que farão os nossos representantes nesta terça-feira quando voltarem a legislar? Que pautas foram trazidas para debate?

O clima de FLA x FLU instalado no país nos despolitiza. Torcemos pela queda ou a manutenção de líderes enquanto ficamos prostrados sem saber o que eles poderiam fazer para cumprir nossas demandas.

“O fato de que muitos políticos sejam mentirosos não é exclusivamente um reflexo da classe politica, é também um reflexo do eleitorado. Quando as pessoas querem o impossível, somente mentirosos podem satisfazê-las.”

A frase acima, de Thomas Sowell, contém a essência do entretenimento político. 

As pessoas que são contra a corrupcão, que são a favor da democracia ou que estão em defesa do país, não estão em defesa de nada. Bandeiras genéricas não terão qualquer eficácia e só servem para alimentar a ilusão de que nossa cidadania está em exercício.

Alguns dias antes das manifestações, o PT lançou um post no facebook dizendo “Mais democracia, menos ódio” e a hashtag #MaisDemocraciaMenosAmor.

Acho que o erro do funcionário de mídias sociais do partido - que obviamente se confundiu com os sentimentos porque não seria muito politicamente correto pregar o desamor – foi um acerto. O/a garoto/a que postou isso é um gênio da política.

Entre o tédio e a perplexidade, o que precisamos é de uma democracia desapaixonada. Precisamos de um ativismo concreto em torno de mudanças factíveis. 

A maturidade da nossa democracia depende de manifestações sóbrias que não nos distraiam nem nos divirtam, mas que apontem de forma cirúrgica para as regras do jogo político.

* * *

Para aprofundar:


publicado em 16 de Março de 2015, 10:14
File

Ricardo Borges Martins

Sociólogo e ativista fuçando em coisas públicas em lugares como a Bancada Ativista, e Virada Política. Coordenador de Mobilizações da Minha Sampa. Pode ser encontrado no Facebook.


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