Dor de amor

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estou tendo dores desde que ela me deixou. não sabe como é isso?

imagine seu coração, não naquele formato científico horroroso cheio de gordura e assimetria. pense em um vistoso coração romântico, com duas saliências macias e iguais uma de cada lado. pois bem, agora continue imaginando que, a cada respirada, uma nova bola vai nascendo.

respira, uma bola, respira, outra bola. vai pensando daí, um torrão de carne nascendo, bolhas gigantes toda vez que se inspira e que o ar sai para fora dos pulmões.

não. não há coração que aguente.

daí é que vem minhas dores. do coração.

pareço criar uma novela, não tome como enganação. se a medicina não está do meu lado, há de estar todo aquele que algum dia deixou de ser amado por alguém. e que dor que dá e que burrice que é, pois, sempre que possível, a coisa toda se repete. se ama, se engana e o coração volta a doer.

o amor é uma insalubre peste que se pega no ar, que causa febre e perda de memória e taquicardias. a visão fica comprometida e o ânimo cai pela metade e sobe mais que o dobro e os cinco sentidos ficam sensíveis e o sono não aparece nessas épocas. uma boa quarentena não seria o suficiente. já cansei de ouvir histórias de pessoas que passam a vida todinha amando uma outra pessoa, sem nunca cessar um instante. nunca soube dizer se fico feliz ou entristecido quando ouço esses racontos.

teve uma vez que uma menina ficou doente por mim, digo, se apaixonou pelo meu eu mais jovem. era doidice atrás de doidice e ela aparecia na minha janela a tarde e me mandava bilhetinhos na escola. bolhas e mais bolhas naquele coraçãozinho dela. eu tive que dizer pra ela não continuar enferma naquele tanto, daquele jeito. eu não era doente por ela, sequer lembrava o nome da pobrezinha.

na escola, ela veio me dizer oi dentro da minha sala. cercado pelos amigos e pelas meninas que eu tinha real vontade, eu achincalhei a tadinha de um jeito que não se faz. maldisse de suas roupas, dos cabelos dela, contei vantagens e diminui ela e sua família e suas intenções. foi violento e descabido e desnecessário. a pequena chorou ali mesmo na sala, na frente de todo mundo. eu quase conseguia ouvir o barulho de seus ossinhos batendo, joelho contra joelho debaixo da saia longa. ela ficou ali pois não conseguia correr. chorava um choro de cachos de uva, uma coisa pesada e densa que caía aos montes, que poderia, caso passasse a tarde toda parada, encher toda a sala, quiça toda a escola.

quanto mais ela chorava, menos eu entendia porque havia tratado a pequena daquela maneira. talvez seria para justificar o que passo hoje, com essas dores no coração que não vão embora. quando desembrulho minhas lembranças, tento formar o mapa para perceber onde foi que descarrilou o que eu tinha com a Helena.

sabe raio? foi um desses que levei quando a vi. aquele sorriso de cientista maluca, aquela flor na cabeça, as unhas vermelhas nos pés, todos aqueles homens em volta dela e ela olhou para mim e parou de dançar, como se a mesma corrente elétrica que passara por mim atingisse o solo e corresse direto para transpassar o corpo dela também. namoramos naquele mesmo dia e nove meses depois estávamos casados, passeando a europa de mãos dadas, Helena e eu.

a gente ria um do outro e comprávamos livros um para o outro e acumulávamos discos que ouvíamos juntos na vitrola que ganhamos de casamento da melhor amiga dela, a mesma mulher que apresentou à Helena o homem com quem ela vive hoje.

quando ela me disse, pensei ter tomado um soco ou um tiro e depois foi como se o clarão de luz que vibrava em nossos corpos de repente sumisse e se enfiasse para todo o sempre debaixo da terra, uma faísca de amor aterrada. eu fiquei mole, como se me levassem toda a energia vital, como se eu fosse um espectador de nós dois a presenciar minha maior humilhação. a Helena conhecera o homem na piscina do clube, um jovem assaz gostoso, forte mesmo, que guardava todo o vigor para si. a Helena instantaneamente molhou e naquela mesma tarde eles transariam seis vezes. mais uma semana e ela sairia de casa, mas não sem me contar os pormenores da paixão por ele que fez encerrar o amor que ela tinha por mim. o que ela me disse não ouso repetir e, desde então, cada vez que eu inspiro me sobe uma bola no coração e, cada vez que eu expiro, outra lombada me salta no peito.

e dói, amigo.

dói.


publicado em 24 de Janeiro de 2014, 07:15
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Jader Pires

É escritor e colunista do Papo de Homem. Escreve, a cada quinze dias, a coluna Do Amor. Tem dois livros publicados, o livro Do Amor e o Ela Prefere as Uvas Verdes, além de escrever histórias de verdade no Cartas de Amor, em que ele escreve um conto exclusivo pra você.


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