Dos teatros da vida, segunda parte

Cena 1 - A projeção de nós mesmos

— Eu perco muito tempo da minha vida sem você.

— Eu estou contigo todo o tempo.

— Não o tempo todo.

— Você inventa qualquer compromisso e me leva junto. Só pra não estar comigo.

— Você não me acompanha. Está ao meu lado e não se interessa.

— Eu ouço tudo o que você diz.

— Eu sei.

— É isso que te preocupa?

— Você não tem o meu gosto. Não olha como olho.

— Tenho os meus olhos para ver. Não os teus para julgar.

— Queria que você fosse diferente.

— Você esperava que eu fosse você.

Cena 2 - A projeção da nossa culpa

— Você quer.

— Não posso.

—Mas quer.

— Quero. Mas não vou.

— É tudo o que você quer nesse momento.

— Mas também é tudo o que eu não quero pra depois.

— É tão ruim assim?

— Preciso ser melhor que isso.

— Você é o que você é.

— Mas não o que quero ser.

— Desejas ser outra coisa?

— Alguma coisa bem melhor do que sou hoje.

— Mas você disse que queria.

— Quero. Mas preciso querer algo melhor.

— Ser alguém melhor?

— Alguém que acerta mais.

— Isso tá errado.

— Por isso. Quero ser alguém que não erra nunca.

Cena 3 - A projeção da nossa maldade

— Você me machuca.

— Eu sei. Não consigo fazer de outra maneira.

— Tudo o que você sabe é fazer pra me afastar.

— É aí que te equivocas. Faço tudo pra saber o quanto gosto de você.

— Onde está o carinho?

— Guardo todo pra mim.

— Quando eu vou embora?

— Quando você volta.

— É muito egoísmo.

— Todo amor é uma forma orgulhosa de maldade.

— Então me machuca do jeito certo.

— Não seja egoísta, mulher. Pensa um pouco em mim.

— Eu te odeio.

— É por isso que você sempre volta pra mim.

Cobranças.


publicado em 09 de Janeiro de 2013, 08:00
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Jader Pires

É escritor e colunista do Papo de Homem. Escreve, a cada quinze dias, a coluna Do Amor. Tem dois livros publicados, o livro Do Amor e o Ela Prefere as Uvas Verdes, além de escrever histórias de verdade no Cartas de Amor, em que ele escreve um conto exclusivo pra você.


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