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"É bom ser viado, né cara!" | Cotidiano #20

A fúria nas ruas e como tramamos a nós mesmos e os outros

Estava muito gostoso! Fui almoçar sozinho essa semana e, chegando no quilo em frente à PUC, vazio. Peguei a comida, escolhi o lugar. Uma beleza. Cinco minutos de refeição e o estabelecimento estava bombando, com filas e mesas lotadas.

Consegui comer rapidinho e tinha a tarde toda pela frente. Resolvi, em vez de voltar direto para o trabalho, dar uma volta, curtir o ar gelado do outono arborizado aqui de Perdizes. Caminhei pelo quarteirão da Universidade, vi gente bonita e escutei conversas juvenis, sempre bom pra despertar uns sorrisos meus, entrar em outro ritmo. Senti o passo ficar mais lento, mais cadenciado, mais leve. Observava a movimentação de pessoas e o balançar das árvores e o vento assoviando tranquilo lá no alto por entre os prédios. 

Que gostosa a caminhada sem pressa em um ambiente delicioso assim. Cumprimentei o porteiro de um predinho antigo que tem lá perto, dei risadas com as crianças saindo da escolinha da esquina, inocentes, me lembrei quando peguei uma delas dando feliz páscoa para o amiguinho na segunda-feira posterior ao feriado sacro. Lindinhos.

Continuei minha andança botando um pouco mais de fé na humanidade, no mundo em si, restaurando um pouco mais de gosto pelas coisas da vida. Parado no cruzamento, eu era puro êxtase e contentamento. Vi um carro que iria atravessar e parou para que o outro pudesse fazê-lo. Aproveitei a deixa e atravessei também, quase flutuando. Eu era um cara de sorte que trombava o tempo todo com ótimas pessoas. Claro que o carro passou primeiro que eu e o outro, o que esperou, que tinha um senhor careca com dois tufos de algodão em cima das orelhas avançou, mas com velocidade super controlada para que eu pudesse finalizar minha travessia. 

Cruzamos olhares quando eu cheguei no meio da rua e o cumprimentei com um aceno de cabeça, sorridente. Ao atravessar, ele finalmente acelerou e passou por mim. Ao fazê-lo, botou a cabeça branca para fora e gritou: "É bom ser viado, né cara!".

Eu levantei o braço e dei tchau pra ele, pensando "é! deve ser bem gostoso sim!".

Mas acho que não era disso que ele estava falando.


publicado em 22 de Maio de 2015, 00:00
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Jader Pires

É escritor e colunista do Papo de Homem. Escreve, a cada quinze dias, a coluna Do Amor. Tem dois livros publicados, o livro Do Amor e o Ela Prefere as Uvas Verdes, além de escrever histórias de verdade no Cartas de Amor, em que ele escreve um conto exclusivo pra você.


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