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"É melhor ser gentil do que ter razão"

Você prefere ter amigos ou vencer uma discussão? Nem sempre as duas coisas são possíveis

Semana passada publicamos um artigo do Eduardo Estelitta e em determinado momento da prosa nos comentários, ele contou a história de quando o CEO da Amazon, Jeff Bezos, citou seu avô dizendo: "it's better to be kind than clever".

A tal frase estava sendo aplicada num contexto familiar, mas o tal conto disparou uma série de outras sinapses em mim e resultaram neste texto onde, com alguma sorte, vou te conduzir por meia dúzia delas.

 

Nossa insensatez

Sempre que penso nessa afirmação, uma outra semelhante e muito mais corriqueira me vem à mente: "perco o amigo, mas não perco a piada". Inocentemente, essa última vem sendo utilizada há anos como muleta para zoar aquele colega que cometeu um erro bobo ou fez uma tremenda burrada.

De certa forma, essas duas frases são versões distintas do mesmo problema. De olho no capital social que ser o amigo sabichão ou o amigo engraçadão do grupo nos dá, saímos por aí espalhando insensatez, sem nos importarmos com o sentimento alheio.

Não existe nada de errado em fazer piada dos amigos com os amigos e nem existe regra geral para casos onde podemos ou não brincar com isso. Mas a julgar pela quantidade de gente introspectiva ou tímida que temos por aí, ser assertivo justamente na hora que alguém está expondo suas vulnerabilidades com o grupo não contribui muito para o fim do que chamamos de solidão masculina.

A essa altura você pode estar pensando que vim apontar um monte de dedos na cara. Mas isso se trata justamente do contrário: é um tremendo exercício de autoavaliação pra mim.

Nosso equívoco

Durante os últimos anos, a frente de alguns projetos na faculdade, fui um cara desses. Adotei a postura de dono da razão e passei anos colecionando inimizades e ferindo pessoas. Só depois de finalizá-los me dei conta de que o resultado alcançado com essa atitude é justamente o contrário do esperado: você não conquista a admiração de ninguém estando sempre certo, o que você ganha é a antipatia deles por ser um verdadeiro pé no saco.

Apesar da teoria da evolução mostrar o contrário, eu admito que deva existir por aí pessoas que não se importam de não ter amigos. Os tais 'lobos solitários' vivem afirmando que não precisam de mais ninguém para serem felizes. Mas se eles existem ou não pouco importa, o que sei é que eu não sou um deles, ainda que tenha tentado ser durante certo tempo.

Me lembro de no começo desse mesmo projeto afirmar que não estava ali para fazer amigos, mas para fazer um bom trabalho. Não passava pela minha cabeça que uma coisa pudesse depender da outra.

Nossa ingenuidade

Num outro episódio da mesma fase ácida, uma amiga que compartilhou comigo boa parte desse período reforçou o que hoje sou capaz de enxergar. Numa das nossas discussões, ela me disse: "eu sei que não sou tão inteligente como você, mas eu tento compensar sendo mais esforçada."

Aquilo caiu como uma bomba entre nós. A explosão dela me fez perceber que tinha algo de muito errado acontecendo. Algo que eu simplesmente não estava sendo capaz de enxergar.

Não por acaso, essa amiga é uma pessoa muito querida pelas pessoas do nosso círculo social. Sempre que alguém tem algum problema, ela é a primeira a ser chamada para dar conselhos. Sempre que alguém precisa de ajuda, ela é a primeira a ser chamada pra socorrer.

Durante certo tempo, ficamos falando pra ela não ser tão ingênua, que as pessoas acabariam abusando de sua boa vontade – o que de fato aconteceu. Mas só depois me dei conta da sabedoria implícita que havia ali. Naíma preferia ser gentil do que ter razão.

Assim ela rapidamente se tornou o eixo central das nossas amizades e ainda conseguiu ser muito mais efetiva ocupando o mesmo cargo que eu. Ela tinha o dom de aproximar as pessoas, enquanto eu as afastava de mim. Ingênuo era eu por não saber disso.

Olhando em retrospecto, fico me perguntando: quantas vezes não distratei alguém apontando seus erros e quantas vezes apontei os acertos? Quantas vezes afastei um bom amigo por criticá-lo e quantas vezes elogiei? Quantas vezes falei mal de alguém e quantas vezes falaram de mim?

Nossa conta

O preço por ser o dono da razão é não ter abertura sincera com as pessoas para compartilhar seus próprios problemas. É um preço alto a ser pago pela tentativa de sustentar uma imagem infalível. Uma hora, será necessário reconhecer os próprios erros e aí, meu amigo, a máscara cai. Ninguém consegue manter a fama de mau até o final.

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publicado em 09 de Setembro de 2016, 15:38
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Breno França

Editor do PapodeHomem, é formado em jornalismo pela ECA-USP onde administrou a Jornalismo Júnior, organizou campeonatos da ECAtlética e presidiu o JUCA. Siga ele no Facebook e comente Brenão.


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