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É ok ser chucro

Nos últimos meses tenho me aprofundado mais do que nunca em estudos sobre os homens. 

Li sobre a alarmante taxa de suicídios, o inferno penitenciário, a maior quantidade de mortes no trabalho e em conflitos armados, a dificuldade crônica em lidar com emoções, a crescente taxa de disfunções sexuais, a relação problemática com raiva e agressividade, o machismo estrutural que também os ferra. E minha lista de leituras ligada ao masculino não para de crescer, descobri o intrigante relato de uma lésbica feminista que fingiu ser homem durante um ano (parece que ela se chocou com o experimento) e estou agora chegando na metade do "Is there anything good about men?" (no caso, é um livro em defesa dos homens).

A cada quinze dias escrevo essa coluna e em todos os outros questiono mitos e estereótipos masculinos. Fazendo jus às raízes desconfiadas de um bom mineiro, sigo polindo dia a dia a habilidade de desconstruir e desconfiar para então acolher, escutar, nutrir, enriquecer e sugerir melhores conversas, hábitos, práticas, ações, pensamentos, posturas e visões para homens.

Ao fazer isso me sinto embuído de propósito, inteligente, capaz, orgulhoso, útil, fazendo bom uso dos meus neurônios, da formação que meus pais me deram, do espaço que ocupo nesse mundo, do oxigênio que consumo para seguir vivo. 

Tudo muito bonito, muito legal.

Mas como diz minha querida tia Gezica, quem vê as pingas que eu tomo não sabe dos tombos que eu levo.

Chega uma hora em que canso. Não sobra espaço pra uma vírgula de fala acolhedora ou sacadinha virtuosa. 

Nesses momentos tenho vontade de fazer coisas retas e simples como me recolher e sentar em silêncio ou martelar e levar meu corpo à exaustão para concluir um percurso ou atividade qualquer. 

Bem numa dessas me cai no colo o vídeo abaixo, dirigido pelo Jason Momoa (urrun, o Khal Drogo de Game of Thrones) para a marca Carhartt. 

Antes de seguir, dê o play.

Intenções comerciais à parte, são homens comuns trabalhando e construindo coisas, só. Há uma certa poesia nisso.

Ao contrário de brincar de machinho, quando a virilidade precisa ser exibida e o mancebo canta de galo e ladra alto a todo momento em uma constante expiação em busca de reconhecimento por seus pares, essa ogrice madura é digna. 

Segura de si, não carece de ressalvas e asteriscos, é relaxada, não abusa e não violenta outros (aliás, trejeitos de machinho esses dois), faz o que realmente deve ser feito sem pedir holofotes. 

É o homem que resolve. Ninguém é um desses 100% do tempo, mas todos têm um dentro de si e sabem reconhecer essa força. É o pai buscando o moleque na escola e fazendo uma janta especial pra família em casa, depois de mais um dia moedor no trabalho. E é também o homem que descansa e brinca, que reserva a si o sagrado direito de não fazer nada ou de apenas, em dado momento, fazer o que quer e ponto.

Não precisa nem de muitas linhas pra explicar.

Que, em meio a tantas críticas e reflexões e pedidos por mudança e por homens mais conscientes, haja um cadinho de espaço pra celebrar: é super ok ser chucro. 


Homens possíveis é uma coluna quinzenal, sai sempre aos domingos.


publicado em 13 de Abril de 2015, 03:46
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Guilherme Nascimento Valadares

Editor-chefe do PapodeHomem, co-fundador d'o lugar. Membro do Comitê #ElesporElas, da ONU Mulheres. Professor do programa CEB (Cultivating Emotional Balance). Oferece cursos de equilíbrio emocional e escreve pequenas ficções no Instagram.


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