E se o gênio te desse um quarto desejo?

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O que você pediria, eu não sei. Falo por mim.

Gênio da lâmpada, esse das mil e uma noites, o problema é o limite previamente estabelecido: três desejos? Só? E se o terceiro desejo for "mais três desejos", ou "mais três mil desejos"? Há certamente alguma cláusula impeditiva nesse contrato; senão, vamos combinar, vira bagunça.

"Não, amo! O mesmo desejo três vezes não pode! Deixa de ser tarado!"
"Não, amo! O mesmo desejo três vezes não pode! Deixa de ser tarado!"

Esgotado o primeiro lote de desejos (dinheiro, poder e substancial alongamento peniano) fatalmente surgem pensamentos associados menos à vitória pessoal e mais à derrota alheia. Pois não é ainda mais prazeroso isso que aquilo?

Política de terra arrasada: aniquilação completa do adversário, salgando-lhe a terra, eliminando descendentes e apagando qualquer menção nos livros de História. Coisa pra um eventual quarto desejo.

É como diz a piada: se meu pior inimigo ganhará meus desejos em dobro, então quero vinte milhões de dólares, oito panicats e perder um rim.

Há de se concordar: Mega-Sena acumulada é o que temos de mais próximo da solução mágica para todos os problemas. Genial sem lâmpada. Deus ex machina em seis números.

Não há nada que uma boa mega-sena não resolva.
Não há nada que uma boa mega-sena não resolva.

Se ganhasse, um amigo me disse que iria propor um negócio aos colegas: cinco mil reais por um chute na bunda. Simples assim: ele calçaria sua bota com biqueira de aço, o outro se posicionaria e levaria tanto o chute quanto a grana.

Faltaria chute pra tanta bunda voluntária. Dinheiro bem gasto?

Pergunto: o que desejar quando nem o céu é o limite? Já tenho tudo, quero mais o quê?

Respondo: quero não ser mais incomodado. Por nada. Por ninguém. Nunca. Me desagradas em algum quesito, direta ou indiretamente? Ocupas demasiado espaço? Limbo pra você, não quero te ver respirando o mesmo ar que eu. Querendo, fique à vontade pra chamar de outrófobo, embora certamente haja algum termo científico que melhor defina essa condição.

Credo, etnia, idade, classe social? Altura, peso, penteado, vestimenta? Sotaque, perfume, tatuagem, cavanhaque? Gosto musical, opção sexual, posicionamento político, preferência futebolística?

Quarto desejo: uniformização. Fim da diferença. Chega de discordância.

Não basta eu me dar bem. Meus desafetos também tem que se foder.
Não basta eu me dar bem. Meus desafetos também tem que se foder.

Defeito físico, retardo mental, acne, celulite? Óculos, aparelho de surdez, dentadura, bengala? Prótese, peruca, pelo no nariz, mau hálito? Barriga à mostra, bunda ao léu, genitália desnuda, peito de fora?

Quarto desejo: pasteurização. Fim da ofensa. Perfeição é o mínimo aceitável.

"Poder absoluto corrompe absolutamente", não é essa a frase? Lâmpada mágica é um risco à existência de qualquer um que não quem a esfregue, Narciso incapaz de aceitar o que não é espelho. Intolerância gera discriminação, que gera bullying, que talvez não gere monstros, mas dá a eles uma desculpa torta para agir como tal.

Ainda bem que meu nome não é Aladim.


publicado em 04 de Junho de 2011, 11:00
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Erico Verissimo

Serial father, sistemeiro desenvolvimentista computacional, pessoa humana nas horas vagas. Ateu praticante, corintiano devoto, sempre com fé na vida. Moço casadoiro, aliança no dedo já há uma década. Antecipando a crise dos 40. Jênio incompreendido, vidraça fantasiada de estilingue. De tudo um pouco e mais um pouco em verossimil.wordpress.com ou em @verossimil.


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