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Entre o caos e o solzinho da tarde | Cotidiano #2

A gota era de encher copo d'água. Foi uma dessas que acabou de cair em mim, saltitada de alguma goteira na velha telha de plástico que nesse momento me abriga. Ou tenta.

Em casa, as coisas também não vão nada bem. Uma reforma para fazer, o atraso, a poeira, as conversas, a gastança, as desculpas. Xícaras de café se acumulam na pia e, hoje, lavar louça suja é luxo. Pobre de mim. Pior está meu vizinho que foi largado pela mulher. Foi-se embora com o açougueiro que passou também o ponto e agora não dá mais para comprar carne fiado.

Lá se foram mais de três anos de um relacionamento quase perfeito. Era lindo de se ver, eu juro para vocês. Eu chegava e podia pedir qualquer coisa. De músculo a filé mignon. Batia um papo enquanto me cortavam as peças, embrulhavam tudo à vácuo, aquela coisa toda. Ele não cobrava a mais de mim, eu sempre dava o que ele precisava e a convivência era das melhores. Se o ritual não fosse dos mais batidos, acho que até tatuaria o nome dele.

Pobre de nós, do vizinho e de mim.

E deve estar foda para você também, vai, diz pra mim. Trabalho chato da porra, voo atrasado, as reviravoltas das eleições presidenciais que não dão mais sossego e ainda por cima vai ter lei-seca. De novo. Os ateus e os maconheiros e as vagabundas e os pederastas e as sapatões e os travestis do mundo também estão na merda, convocados pelo Gregório e impossibilitados por armários de exercer a mais simples das liberdades que seria a de ser.

Pobres putas tristes, povo desamparado em um dois mil e quatorze que não perdoa. Não deve estar fácil ser da velha guarda nesses últimos tempos. Poetas, escritores, mestres da composição e grandes contribuidores da cultura popular brasileira da segunda metade do último século, aqui não parece mais ser um lugar seguro para vocês. Apresentadores, narradores, dançarinas, profissionais da era de ouro e figurões de outrora. Não está escapando ninguém.

Será que eu estou ficando velho?

Vejamos. Os lugares que eu frequentava já não existem mais, as crianças nascidas nos anos 90 hoje ganham mais que eu e ainda uso um iPhone. Mais retrógrado, só se eu botasse a polícia na rua pra descer o cacete em quem tem novas ideias como usar um Android que não risca ou quem gosta de Tinder e Secret.

Pobre de mim. Caramba, como está fácil reclamar.

O trânsito, as explosões em Gaza e a decapitação no Iraque, o desfile forçado de soldados ucranianos prisioneiros de guerrilheiros pró-russos em Donetsk, a crise energética mexicana, o ebola na África, os prédios que segregam em Londres -- ricos pela requintada entrada da frente e pobres pela portinha do beco nos fundos, a cantareira minguando, o Acre inundando, Gilmar Rinaldi, Xuxa Meneghel. Até quando?

Breaking Bad acabou, a taxa de juros, rebelião no Paraná, ser argentino, o Palmeiras vai cair de novo, condomínio fechado, cracolândia, Datena, Arnaldo Jabor, suicídio.

Está tudo a beira do buraco e o que parecia cocaína era mesmo só tristeza.

Menos pro Miguelzinho.

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Pra ele, tá tudo bem e o dia foi legal.

* * *

Nota do autor: a foto foi tirada pelo pessoal do Movimento Ciclofaixa na Santa Cecília, em São Paulo. Na imagem, o garotinho pedala no Viaduto do Chá, em frente ao Shopping Light e, à direita (no fundo), o Theatro Municipal de São Paulo.

Sim, Miguelzinho é um nome fictício e qualquer semelhança com a vida real é mera coincidência.


publicado em 28 de Agosto de 2014, 21:00
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Jader Pires

É escritor e colunista do Papo de Homem. Escreve, a cada quinze dias, a coluna Do Amor. Tem dois livros publicados, o livro Do Amor e o Ela Prefere as Uvas Verdes, além de escrever histórias de verdade no Cartas de Amor, em que ele escreve um conto exclusivo pra você.


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