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Entre parcerias e reatividade: conexão e violência em relações românticas

Sem um canal de comunicação direto e honesto com o outro, sobram apenas criancices e jogos. O que podemos fazer pra ir além disso?

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Procurando material sobre comunicação e conexão, quase tudo que encontro é sobre negociação e resolução de conflitos.

Acredito que isso pode indicar duas coisas: julgamos que já sabemos conversar e criar conexão e, ao mesmo tempo, entramos em atrito continuamente.

O que faz termos tantos problemas com seres que voluntariamente escolhemos estar próximos e compartilhar boa parte do nosso tempo?

Emancipação Emocional e Reatividade

Talvez, um problema central da nossa vida e não apenas dos relacionamentos românticos, é que não sabemos ficar bem sozinhos. Nunca aprendemos a sustentar nossos estados emocionais de dentro para fora, sem precisar de mil objetos externos para nos auxiliar.

Isso fica visível em qualquer relação mais próxima, especialmente naquelas em que inadvertidamente criamos co-dependencia emocional. Ou seja, relações em que seu estado emocional é facilmente e constantemente modificado pelas ações ou inações do parceiro.

Se dependemos de uma ação específica do outro, por vezes desconhecida até por nós, para sustentar estados emocionais positivos, vamos necessariamente ficar reativos. Perdemos o espaço de possibilidades e a liberdade e, ao invés de sermos dois seres livres decidindo o que construir, transformamos a relação em um jogo causal de atritos.

Ele manda uma mensagem fofa e você vai dormir com um calor no peito. Ele se esquece de uma data importante e você chora na cama. Ele irritado critica algo que você fez de errado, e surpresa com a agressão ao invés de compreensão, você devolve mais forte.

Ela elogia algo que você nunca considerou atraente, e você se sente a pessoa mais amada do mundo. Ela subitamente muda de ideia sobre ir para um evento e você não consegue pensar em mais nada pelo resto do dia. Ela de mau-humor se fecha, e você frustrado não consegue evitar de fazer o clima ficar pior ainda.

Nas amizades, quando alguém surta muito por coisas pequenas, por mensagens não respondidas na hora e pequenos atrasos, vemos o amigo como mentalmente e emocionalmente instável e procuramos ajuda-lo ou nos afastamos. Por que em namoros e casamentos isso é tão mais aceitável?

Se estamos bem e temos confiança que conseguimos nos sustentar emocionalmente, o outro pode ter um movimento inesperado, desmoronar e precisar de ajuda, se afastar, e vamos ter a lucidez para não surtar por conta disso, ou de ser arrastado pela perturbação que acomete o outro.

Conexão e Conversa

Reatividade tem uma relação direta com o tipo de conversa que temos ou deixamos de ter durante a relação. Sabemos que certos tópicos vão elicitar imediatamente no parceiro emoções negativas e, com o corpo físico e emocional agora todo torto, não haverá conversa produtiva. No começo da relação é comum que se tente, mas logo se nota que certos assuntos geram embates e não conversas.

Sem espaço e curiosidade não há conversa nem conexão e a reatividade é uma forma ainda mais vil de falta de espaço. Sem a habilidade, o espaço, a cultura de conversas profundas contínuas numa relação, ela tende a ficar frágil. Qualquer questão mais difícil de ser debatida é escondida e ignorada ou vira uma enorme discussão combativa e improdutiva.

Pior que isso talvez seja o fato de que para muitos casais, as discussões combativas vem majoritariamente de questões pequenas e irrelevantes, que caso não tivessem sido mencionadas, jamais teriam sido um problema. A discussão em si torna-se o problema real, não o que foi discutido.

Quantas vezes uma discussão não foi iniciada como forma indireta de dizer "me veja! estou frustrado, se importe!". Sem um canal de comunicação direto e honesto com o outro, sobram apenas criancices e jogos.

Um parêntese: violência

O que vejo usualmente chamado de "irritação" geralmente é um eufemismo para a violência. Um triste exemplo é um casal que frequentemente se bica por pequenas coisas "porra não acredito que você comprou esse tipo de maionese, você sabe que eu odeio!".

‎Isso gera uma comunicação muito poderosa: não estou em controle das minhas emoções e quando elas se perturbarem, vão resvalar em você, ou pior, vou intencionalmente despejá-las em você. Não é coincidência que o Brasil tem uma das maiores taxas de violência doméstica do mundo. Temos relações românticas em que um dos pilares é a violência.

Fomos criados numa cultura em que se lida com atritos e quebra de expectativas com controle e violência. Nosso modus-operandi é esse. "Eu sei bem que falar mais alto te dói, mas você merece isso, você me fez mal, o correto é castigar-lhe".

Imagine, estar em um relacionamento em que pensar e agir com o pressuposto "vou lhe infligir dor, esse é o correto a fazer!" é considerado o normal!

Qual a nossa base? Papéis vs. Parceria

Dentre as pessoas que conheço os relacionamentos de perto, sinto que a maioria, de forma sutil e inexplorada, não tem como prioridade ser feliz e criar parcerias. Geralmente se quer "resolver" o relacionamento e "fazer funcionar" de fora para dentro.

Quase todo mundo tem um modelo mental do que um relacionamento deveria ser e o que elas sentem estar no direito de receber. Há duas dificuldades que podem surgir daí. Uma é que esses modelos raramente são claros para quem os detém. A segunda é que fica fácil iniciar uma relação numa base muito restrita e mesquinha.

É como se disséssemos: "oi, não sei o que se passa no seu íntimo mas acho que você pode ocupar essa vaga que tenho na história da minha vida, assim, não sei bem o que é necessário para cumprir com todas os requerimentos dessa vaga, e vou punir você ou me machucar quando você não cumprir seu papel, vamos sair?".

Ao invés de: "oi, de alguma forma você me move, não sei bem por que, você sente isso também? Quem é você? Não sei bem que tipo de relação seria melhor para mim nem muito menos o que seria frutífero para você, mas já que nos juntamos nessa dança, que tal explorarmos uma relação e ver se é benéfico para nós dois?".

O primeiro cenário espera o cumprimento de um papel. O segundo convida um ser para um experimento, uma dança, uma parceria existencial. A diferença maior é o espaço de possibilidades e o contato que cada um disponibiliza.

Se você vê sua parceira não só como namorada, mas também como advogada, não surge rancor por ter seu filme em casal interrompido por uma ligação importante. Se você tem uma visão ampla do ser e se alegra por todas as suas manifestações criativas e não apenas receia ser privado do que vem do seu papel de "namorada", uma conexão muito profunda está estabelecida.

A grande questão é essa: com quem você quer se relacionar? Com uma faceta específica e construída ou com o ser inteiro? O ser inteiro não só namora. Um ser é algo imenso.


publicado em 24 de Janeiro de 2019, 00:05
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Bernardo Vailati

Designer de experiências digitais que em 2018 tirou um ano sabático para aprender a escrever e ponderar a vida um pouco mais profundamente. Também explora a fotografia e tem um diário visual de pequenas poéticas no Instagram.


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