Entrevista com Kiko Nogueira, diretor de redação da ALFA

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Enquanto o visor pisca indicando a escalada vertical, repasso minha estratégia.

Estou no elevador da editora Abril, velho conhecido. Ao meu lado, Júnior (Dr. Drinks) carrega o equipamento de vídeo. Respiro fundo.

Providencial lembrete do quão pequenos ainda somos

Logo antes de uma entrevista, me sinto feito escriba gladiador rumo ao combate. Vou enfrentar o crivo do entrevistado, o crivo feroz dos leitores PdH e, na sequência, minha própria consciência féladaputa. Não há prospecto de replay, pois amarrar agendas dos nossos escolhidos é sempre um feito xamânico, acontece de acordo com as marés. Quem já me acompanhou nesses momentos conhece meu hábito de manter silêncio militar na caminhada até o ringue.

Entramos na redação. Avisto Kiko de longe, parece estar ocupado despachando instruções em sua sala.

Para todos efeitos, a entrevista já começou.

Daniela, responsável por fazer o papo acontecer, nos conduz até ele. Aperto de mão firme, olha no olho, sério, vestindo uma camiseta simples e calça jeans, não me recordo do calçado. Boa primeira impressão. Em caso de mão frouxa, perderia o respeito no ato.

Muito barulho em volta, procuramos por local mais adequado. Optamos por uma salinha ao final do corredor, com ampla vista para as artérias paulistanas. Ótimo cenário, pulsante. Ainda que o contraluz fosse cobrar seu preço sobre nossa guerreira flip cam na edição.

Júnior prepara as câmeras e trocamos algumas palavras. À minha frente está Kiko Nogueira, diretor de redação da Alfa, ex-diretor da Viagem & Turismo, dos Guias Quatro Rodas e ex-editor da Veja SP. Um bocado de títulos para esclarecer que esse cara é um dos líderes silenciosos do diálogo editorial em curso com o público masculino no Brasil. Não se enganem, comandar uma revista da Abril é posto para poucos.

Sabendo ser ele filho e irmão dos  talentosos jornalistas Emir e Paulo Nogueira, respectivamente, trato de ponderar um último aviso a meu subconsciente:

"Não faça merda, caraleo!"

Nos 38 minutos de conversa seguintes disparei quatorze perguntas. Tratamos de sua história, de homens, mulheres, bom jornalismo, Galvão Bueno, heróis, jabás, universo digital, ética, planos para 2011 e, por fim, futebol. Foi um papo analogicamente hipertextual. Traduzindo, recheado de referências.

Na dúvida, gesticule

Parte 1 | "Se você for se pautar só pelo Twitter, você tá fodido."

Link vídeo

Perguntas

1. Qual sua formação, qual sua trajetória até se tornar diretor de redação da Alfa?

2. O editor da Playboy come todas? O editor de uma Viagem e Turismo (como você foi) roda o mundo?

3. Você também fez parte da mudança editorial no Guia Quatro Rodas?

4. Qual a origem da revista Alfa?

5. Ousada a escolha da primeira capa com o Galvão. Conte como foi o processo.

Aspas e referências

"Queria viajar. Viajei sim, viajei bastante. Pra caralho. Pra onde eu quis."
"Quantos blogueiros hoje não estão comprados?"
"Tinha uma missão: vamos fazer uma revista masculina para o homem maduro, com mais de 35 anos."
"Também há uma falsa questão no Brasil, de que não teríamos heróis, não teríamos ídolos. Acho uma besteira." (sobre o surgimento da ALFA e o desafio de se encontrar homens para as capas)
"Jornalista não pode ter amigo, você sabe dessa, né?"

Cita Antunes Filho, diretor de teatro. E também Carlos Maranhão, jornalista com o qual aprendeu muito.

Capa tripla da Alfa número 1:

"Cala Boca Twitter" –Galvão

Esta é a Rolling Stones com a qual seu irmão Paulo Nogueira o presenteou (capa feita por Annie Leibovitz):

Edição de janeiro/1981

Parte 2 | "A ALFA está com o mérito de fazer as perguntas certas."

Link vídeo

Perguntas

6. Enxergo muitas prisões de olhar dentro do universo masculino hoje. Qual sua visão? O que pode ser dito, que não vem sendo dito?

7. O que vocês fizeram que não deu certo? O que vocês fizeram que deu muito certo?

8. É possível fazer uma revista masculina sem mulher?

9. Qual a relação de vocês com o digital? O que vislumbram para esse meio?

10. Ética faz parte das discussões de pauta na Alfa?

11. O que os homens precisam ouvir sobre sexoe relacionamentos que não ouviram ainda e pode salvar a vida deles?

12. Como você enxerga o consumismo excessivo (gadgets! gadgets! gadgets!) de certos homens atualmente versus o papel de uma revista como a Alfa enquanto influenciadora?

13. Seus planos pra 2011, quais seriam, Kiko?

14. E o Brasileirão 2010, gostou do resultado?

Aspas e referências

"Demoramos pra encontrar nosso tom em moda, nosso tom com mulheres. No ensaio da Carolina Ferraz, por ex, ela está
vestida demais."
"A gente quer mulher com história pra contar. Pode ter 18 anos ou 40."
"Homens efeminados, por exemplo, não vamos falar deles. Caras maníacos pela aparência."
"A ALFA surgiu em um momento no qual o homem estava meio por baixo."
"Há, sim, espaço para uma revista que não trate o homem como uma máquina de consumo ou como uma máquina sexual."

Cita sua amiga Tati Bernardi como a mais habilidosa mulher escrevendo sobre relacionamentos hoje. Difícil discordar.

--

Kiko, puta prazer tê-lo conosco, belo momento de aprendizado por aqui. Grande abraço!


publicado em 04 de Março de 2011, 10:17
File

Guilherme Nascimento Valadares

Editor-chefe do PapodeHomem, co-fundador d'o lugar. Membro do Comitê #ElesporElas, da ONU Mulheres. Professor do programa CEB (Cultivating Emotional Balance). Oferece cursos de equilíbrio emocional e escreve pequenas ficções no Instagram.


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