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Entrevista com Ricardo Trein

(Continuação do artigo: Fórmula Classic, automobilismo de verdade. Leia antes.)

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Depois de me perder durante 30 minutos tentando encontrar a residência do meu entrevistado, consigo achar a sua rua. Encosto minha Puma GTS na calçada e ligo para Ricardo Trein perguntando o número de sua casa.

Com uma voz calma ele logo responde "já estou vendo a tua puminha, vou abrir o portão". Intrigado, começo a olhar ao redor tentando entender como ele poderia estar me vendo. Não entendi, mas logo em frente vejo um portão se abrindo. Ali começava minha breve viagem de volta no tempo.

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Minha Puma, quem é leitor da PdH já sabe dela...

Sigo com meu carro por uma íngrime subida onde podia ver alguns automóveis lá no alto. O corredor era estreito e eu tomava cuidado para não arranhar meus espelhos. Na metade da rampa percebo uma saída lateral para um andar intermediário da garagem. Sigo para lá. Vejo um belo Passat azul sem uma de suas rodas enquanto um jovem parece reparar algo nos tambores de freio.

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Ao fundo está um grande galpão com dois enormes portões abertos. Podia ver lá dentro ao menos meia dúzia de carros antigos. Aquela seria uma manhã muito interessante!

Converso com o rapaz que descubro ser filho de Ricardo. Seu Passat de motor MD 1.5 recebeu novo kit de pistões, bielas e virabrequim aumentando sua cilindrada para 1600cc. Embora montado com bancos traseiros, estofamento, banco de carona, painel completo, sistema de som e pneus de rua, o banco concha de competição vermelho denunciava

que aquele também era um integrante da Fórmula Classic. Pelo jeito, os filhos de Trein seguirão o mesmo caminho do pai.

Agitado, Ricardo surge descendo as escadas enquanto se desculpa pelo atraso.

Quem deveria se desculpar era eu que precisei de 30 minutos para me achar naquele bairro. O telefone era impiedoso e parecia não querer nos deixar conversar. Ricardo desaparecia por alguns minutos para atender os clientes que ligavam. Eu aproveitada aqueles instantes em que ficava sozinho para passear pela belíssima garagem.

Imediatamente consegui identificar uma Alfa Romeo de competição, um Chevette tubarão desmontado além de alguns outros carros que ainda não havia reconhecido. Lá dentro, fiquei perplexo ao encontrar bombas de gasolina com mais de 50 anos, emblemas de clubes extintos de automóveis, placas antigas, cartazes com chamadas para competições de turismo, subidas da montanha, Rallyes e muito mais.

Aquele lugar parecia um museu quando visto de longe. Entretanto, uma vez lá dentro, é como se eu tivesse voltado no tempo.

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Garagem fantástica

Como uma criança em uma loja de brinquedo, eu ia de um lado para o outro tentando decidir o que olhar primeiro. Eram quadros fantásticos, carros antigos de competição, carros antigos originais, memoráblia variada, troféus, ferramentas, peças para todo o lado. Para qualquer

apaixonado por antigomobilismo, aquilo era um pedaço do paraíso.

Entre idas e vindas dos telefonas Ricardo me encontrava sem palavras admirando algumas daquelas preciosidades. Cada vez que voltava de sua casa me contava algo sobre a história do automobilismo gaúcho que repousa adormecida naquela garagem. O Fusca do falecido Cláudio Mello ainda preserva o selo da vistoria técnica feita pela CBA na última prova em que participou, em 1975.

O FNM JK havia sido restaurado depois de um incidente em uma prova da Classic. O Triumph Harold, raríssimo modelo britânico, está ganhando um banho de loja com peças vindas da Inglaterra. A Puminha GTE verde Kawasaki havia sido restaurada para correr na Classic, mas ficou tão bonita que será poupada para desfilar nas ruas. Estar ali, diante daquele acervo, é uma experiência indescritível.

Logo que comecei a fazer as primeiras fotografias Ricardo preocupou-se com a bagunça.

Reclamava que o chão estava cheio de peças, que o Studebaker e o Jaguar estavam empoeirados. Eu apenas poderia tentar explicar que era exatamente essa a magia da coisa. Eu não estava diante de automóveis antigos de maravilhosas pinturas espelhadas expostos em um evento de antigomobilistas. Aquilo era uma garagem de verdade com obras de arte da indústria automobilística tomando vida novamente. É como se tivéssemos a nossa própria oficina em casa onde podemos cuidar dos nossos antigos todos os dias, repará-los, restaurá-los, envenená-los e preservar a história do automobilismo.

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Você não vê essa garagem em outros blogs da web...

Eu pretendia seguir um roteiro para entrevistar Ricardo Trein mas me senti tão a vontade em sua casa que quando percebi já estávamos tendo um agradável e informal bate-papo entre dois amigos. Não pude deixar de começar perguntando de onde veio a paixão por automóveis antigos. Ricardo é simples e não usa de pompa ou metáforas para explicar sua história tal como muitos outros colecionadores de automóveis fazem.

Explicou que aqueles são alguns do carros que fizeram parte de sua longa trajetória no automobilismo. Ele conta que pilota há mais de 30 anos e, como organizador da Fórmula Classic, podemos assumir que sua paixão continua a mesma.

Entre um causo e outro das corridas gaúchas que ouço com atenção, também falamos sobre outro evento que Ricardo organiza, a Subida do Morro da Borrússia em Osório-RS. Inicialmente concebida nos moldes de competições de Subida da Montanha para clássicos, a prova chamou tanta atenção que até mesmo carros modernos participaram. Para adicionar um tempero ainda mais picante a essa receita de sucesso, a próxima edição será uma subida noturna!

Esse que vos escreve estará lá em cima no morro, prestigiando o evento e derretendo os pneus da Puma GTS 78 em nome do PdH.

Reunir relíquias como essas, prepará-los para competir, organizar um evento sério no automobilismo, levar público para as arquibancadas e articular-se com audódromos e federações não é tarefa fácil. Pergunto sobre as dificuldades encontradas para tornar esse sonho uma realidade mas Ricardo não parece se importar com o próprio esforço. Pilotar é

prazer. O trabalho desenvolvido desde 1999 para encher o grid de antigos em diferentes autódromos gaúchos é mero coadjuvante.

A Fórmula Classic praticamente não possui patrocínio.

Os pilotos desembolsam quantias baixas em comparação com outras categorias do automobilismo, mas expõem seus próprios automóveis à danos materiais. Mesmo assim, a Fórmula Classic praticamente não possui registros de incidentes maiores.

Recentemente, a categoria organizou uma etapa com a presença de carros da Super Classic paulista. Com grid cheio, o dia foi de festa no Autódromo Internacional de Tarumã. Os clássicos de competição chamam a atenção do público com sua simpatia ímpar. Com a presença da imprensa e ampla divulgação a Fórmula Classic ganhou notoriedade de gente grande no cenário do automobilismo gaúcho.

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Fórmula Classic em ação

Dividindo a pista com categorias que recebem altíssimo investimento de seus patrocinadores a Classic não têm feito feio em média de público nem em número de carros alinhados no grid. Não posso deixar de pensar no retorno que tão simpática categoria poderia garantir a patrocinadores que decidam investir nessa iniciativa em crescimento.

Quando disse a Ricardo que eu mesmo pretendo montar uma Puma para disputar curvas com o pessoal da Classic, aproveitei para perguntar sobre futuro da categoria.

O que acontecerá quando a geração de pilotos, que hoje correm essas provas tão peculiares, abandonarem as pistas?

Ricardo Trein não esboça preocupação alguma e deixa claro que sempre haverá um jovem antigomobilista para manter a chama da Classic acesa.

Fico feliz em ouvir isso pois não pude deixar de refletir na importância da Fórmula Classic para o automobilismo. Embora seja uma categoria ainda sem grandes patrocinadores, é formada por pilotos que querem antes de tudo se divertirem. É ótimo ver automobilismo por paixão e prazer. Aquele automobilismo sério que cria regras, burocracias e dificuldades, jamais possuirá espaço na Fórmula Classic.

Nessa categoria a lei é pisar fundo, andar rápido sem preocupações e nos mostrar que antigos também foram feitos para queimar borracha no asfalto.


publicado em 24 de Outubro de 2008, 19:14
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Rodrigo Almeida

Engenheiro, apaixonado pela vida e por qualquer coisa com um motor potente, nostálgico entusiasta de muitas daquelas boas coisas que já não mais se fazem como antigamente.


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