Especial Rio 2016 - Uma candidatura passada a “limpo” - Parte II

Segunda parte da matéria sobre a candidatura do Rio a sede das olimpíadas e todos os problemas herdados do último Pan.

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Seguindo com nosso especial. Pra quem perdeu, aqui está a primeira parte. Se prepare...

O caso da Vila do Pan

A Vila Panamericana, que abrigou os atletas e as delegações, mesmo antes de sua construção, teve os apartamentos colocados à venda pela construtora Agenco, e bateu um recorde mundial: 1487 apartamentos vendidos em apenas 1 hora. A propaganda prometia, como era de se esperar, uma praça de esportes e muitas outras facilidades. A entrega estava prevista para depois dos jogos.

Começava um pesadelo.

Primeiro porque na entrega, por motivos nebulosos, o saldo devedor era MAIOR que o prometido inicialmente. As obras estavam inacabadas, e toda a questão ambiental envolvida no Pan, assim como no caso da Marina da Glória, foi ignorada. Passo diariamente em frente à Vila, e não é difícil observar entulho no entorno.

Por conta disso, muitos apartamentos foram devolvidos, e muitas pessoas simplesmente perderam o valor investido. Atualmente, o condomínio parece um local mal-assombrado. Apenas 200 famílias vivem lá. Processos contra a construtora se multiplicam e só estes motivam a conclusão das obras.

Aparentemente, nada de errado com a Vila
Aparentemente, nada de errado com a Vila

Gastos e Investigação

Motivado por toda essa seqüência de trapalhadas, o Tribunal de Contas da União investiga os gastos do Pan. Porém mesmo esse relatório encontra-se incompleto, por falta de comprometimento. Estima-se que foram gastos 4 bilhões de reais nos jogos, tendo sido apurados 3 bilhões até agora. O orçamento do Pan, em exercício de brilhante tom administrativo, foi estourado em 1000%. Para se ter uma idéia, se o Rio ganhar a indicação para sediar os jogos de 2016, a previsão é de 5,5 bilhões de reais para gastos. Um estouro desses faria os Jogos custarem módicos 55 bilhões de reais, impensável em tempos de crise econômica. Lembrando que só para expor a candidatura, o COB gastou 100 milhões de reais.

Analisando os gastos da gestão do prefeito César Maia, 34% foram em obras para o Pan. Saúde e Educação ficaram com 7% cada.

Cortando gastos...
Cortando gastos...

Os relatórios do TCU, até agora, apontam inúmeras falhas e irregularidades. O Ministério do Esporte, por exemplo, só tinha UMA pessoa para fiscalizar contratos, sendo humanamente impossível abrangência total. Foram detectados graves indícios de superfaturamento de obras e falta de licitação. A investigação sobre os patrocínios do COB e do Co-Rio apresentam evidências dos chamados “patrocínios ocultos”. E se o TCU não estivesse em cima, o rombo seria maior.

Motivados por isso, também um grupo civil sem fins lucrativos fundou uma associação para fiscalizar e investigar as irregularidades, o Comitê Social do Pan, cobrando todas as promessas feitas pelas autoridades. Não obstante, foram apelidados de “Chatos do Pan”.

A desastrosa gestão esportiva brasileira

Voltando ao tópico do desempenho esportivo olímpico do Brasil, é de conhecimento notório que o esporte começa na base, ainda com as crianças, massificando-no, descobrindo os talentos precocemente. Aqui é importante o foco dos profissionais de Educação Física. A mãe de César Cielo, Flávia, profissional de Educação Física, aponta os rumos da profissão como fator importante: “Atualmente, abrem-se cada vez mais faculdades e os alunos atuais só querem saber de ser personal trainer. Isso torna a educação esportiva infantil deficiente”. Há um divórcio histórico entre educação e esporte no Brasil. O conflito MEC x Ministério do Esporte é constante. E a falta de visão ampla para resultados a longo prazo, nem se comenta.

Pensou-se que a Lei Agnelo-Piva poderia reverter um quadro de falta de investimento no esporte. A captação de recursos foi de 225 milhões. Porém, a realidade é outra. A gestão dos recursos é ruim, pois eles não chegam na base. Empresas privadas demonstram insegurança para investir, pois não sabem se terão resultados. Como resultado, a tendência é que primeiro o atleta tem que se consagrar, para depois ocorrer o investimento.

Outro problema da Lei é a falta de critério do Ministério dos Esportes para gerir os patrocínios e aprovar projetos (que geram isenção fiscal a quem investe). Observou-se que grandes clubes e estrelam tinham facilidade para obter recursos. Ao invés de funcionar como um organizador, direcionando para os setores necessitados, a praticamente abstenção do Ministério deixava o poder de escolha na mão das empresas. E obviamente, estas preteriam as pequenas entidades, que, além de não conseguir patrocínios, têm medo de denunciar.

Sonho ou pesadelo?
Sonho ou pesadelo?

Chegamos então à entidade que deveria organizar de forma adequada o esporte olímpico brasileiro, o COB. Como já de praxe em diversas entidades esportivas brasileiras, parece que o negócio é bom, tanto que os presidentes querem mais é se perpetuar no poder, e o único prejudicado é o esporte em si. Quem não lembra de quanto o judô padeceu nas mãos da família Mamede (Aurélio Miguel que o diga), a CBF sob o comando de Ricardo Teixeira há milênios, e a decadência do basquete brasileiro com Grego na CBB? E no COB, Carlos Arthur Nuzman não quer largar o osso de jeito nenhum, há 13 anos. Numa estratégia totalmente antidemocrática, uma eleição foi convocada às pressas no COB, e três dias depois da convocação, Nuzman foi reeleito por aclamação (oras, quem não aclama, vai acabar sofrendo represália, não acham?). A notícia só chegou à imprensa justamente no dia da eleição. Manobra para evitar a articulação de uma oposição?

Apenas dois presidentes de confederações votaram contra. Ambas não recebiam mesmo repasse de verbas do COB, então, nada a perder. Uma informação a saber, é que Nuzman é membro do COI, pois há cota reservada para o COB. Se ele sair da presidência, perde tal vaga.

CPI do COB?

Com os resultados ruins do esporte brasileiro em Pequim, e devido ao vultuoso investimento realizado, foram formadas comissões no Senado e na Câmara dos Deputados para investigar e discutir os rumos do esporte no Brasil. O próprio documentário da ESPN foi apresentado. Inúmeros dirigentes foram chamados.

Um dirigente do COB, considerado ovelha negra, apresentou um número curioso. Um relatório de finanças da entidade, que entre outros números, apresentava o seguinte: Gastos internos, 23 milhões; Gastos com atletas: ZERO.

O presidente do COB, Nuzman, causou um saia justa na 2ª audiência. Após deixar seu depoimento, no momento que seria argüído pelos parlamentares, alegou compromissos inadiáveis e retirou-se. Tal saída estratégica somente aumentou o desejo de investigação dos parlamentares, que pretendem apresentar projetos de lei para limitar a reeleição nas Confederações, e possivelmente uma CPI. Há relatos de conchavos políticos através do COB para impedir tal investigação.

A situação do atleta hoje no país
 A situação do atleta hoje no país

Epílogo

Por tudo que foi apresentado no brilhante documentário, a Candidatura Rio 2016 nada tem a ver com a realidade do esporte no Brasil. Como concluiu um dos entrevistados, antes de nos mostrarmos para o mundo, precisamos nos mostrar para nós mesmos.

O documentário se encerra com uma boa e uma má notícia. A boa é a formação do CONFAO, um conselho para formação de atletas olímpicos, que exigirá 30% dos recursos advindos da Lei Agnelo-Piva. A má, é que com a crise mundial, o governo federal cortou 94,5% do orçamento do Ministério do Esporte.

Vale mesmo a pena fazer uma Olimpíada aqui?


publicado em 10 de Março de 2009, 11:10
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Mauricio Garcia

Flamenguista ortodoxo, toca bateria e ama cerveja e mulher (nessa ordem). Nas horas vagas, é médico e o nosso grande Dr. Health.


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