Estamos no tempo de abaixar a guarda

Às vezes, se apressar em achar o ponto criticável de algo não é a melhor abordagem

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Na janela ao lado, aqui no meu computador, tenho um editor de texto aberto. Até este momento aquela tela em branco foi preenchida com pouco mais de 1600 palavras. Gastei algo próximo de 16 horas escrevendo, ajustando referências e reescrevendo parágrafos.

Nele, falo sobre respostas prontas e verdades absolutas. Sabe, o enorme amontoado de ideias que assumimos como verdadeiras e que nunca lembramos questioná-las, causando desde discussões e rompimento de amizades, até mortes, guerras e todo tipo de sofrimento?

Ainda sobre o texto - que não é este - se fosse para mensurar em percentual, diria que está 90%, faltando apenas uma conclusão que junte todas as pontas. Mas, infelizmente, não consigo terminar de escrevê-lo neste momento.

Acabei abrindo esta nova página de edição e comecei a escrever meio sem rumo, mas de coração aberto. O texto antigo será muito interessante, juro, com uma visão que acho importante ser compartilhada.

Mas agora estou com vontade de falar outra coisa, sobre o que realmente importa pra mim.

Sendo um pouco menos crítico

Desci do avião perto das 8:30 da manhã, quando todos os meus grupos do Whatsapp comentavam o mesmo assunto: o texto "Desculpe o transtorno", escrito por Gregório Duvivier sobre sua ex-namorada, Clarice Falcão.

A reação entre meus amigos foi unânime, ninguém deu muita bola por soar como marketing para o novo filme do ex-casal.

Mas quando eu li, caiu aquela lágrima escorrida no canto do olho, mesmo sabendo que - provavelmente - era uma peça de publicidade, mesmo imaginando que a maioria daquelas coisas não devem nem ser verdade.

Então comecei a me perguntar: importa se Gregório de fato escreveu o texto com o “coração”?

Por que é tão fácil acreditar nas histórias mais chocantes que os portais de notícia compartilham, mas quando é algo que parece uma ingênua demonstração de amor, daquele amor verdadeiro, que não termina quando acaba, parece ser tão impossível?

Por que nos incomoda tanto quando nos deparamos com demonstrações de afeto, mesmo que sejam obras de ficção? Por que precisamos correr para dizer que, amor de verdade é aquele cheio de brigas, conflitos e discussões?

Sabemos que quando relacionamentos acabam, sentimos falta - é claro - dos recortes positivos, dos momentos que foram bons. Não faria sentido o contrário.

Por que então é tão estranho assim que alguém sinta saudade de uma pessoa que passou tantos anos dividindo o mesmo teto, compartilhando a vida?

É importante que tenhamos senso crítico quando nos deparamos com informações, que saibamos enxergar além das dimensões óbvias. Mas às vezes, só às vezes, existe o momento para ler uma declaração de amor, verdadeira ou não, e sentir que o mundo ainda tem jeito.

Também não quero dizer que as discussões sobre posições machistas que existem no texto não devam ser levantadas. Pelo contrário, é uma chance dos homens verem como algumas ideias que eles sustentam são nocivas.

No entanto, estou usando o contexto do Gregório e da Clarice apenas como gancho para falar de algo que acho muito importante.

Uma pausa para respirar

Estamos afundados numa rotina estressante, sendo tão sufocados por polêmicas, crises e escândalos, que não conseguimos aceitar que algumas pessoas ainda sejam capazes romantizar parte da vida.

Pare um pouco.

Feche os olhos e respire.

Tente desacelerar e pensar com calma: você não sente saudades de nada?

Nem de conversar sem rumo até o bar ficar vazio e você nem se dar conta? De passar o dia com alguém que está apenas conhecendo, fazendo tantas coisas, que parece que se conhecem faz anos? De olhar para alguém que admira e pensar “como é bom estar aqui”.

Estamos cansados demais para nos conectar com as pessoas, para abrir nossas feridas e permitir que a troca aconteça. Estamos ocupados até mesmo para ouvir o que as pessoas têm a dizer. Quando começam a falar, nossa mente é preenchida com tantas respostas que não sabemos o que foi dito.

Meu outro texto, o que mencionei no começo, era muito mais detalhado. Recheado de termos complicados da psicologia, artigos científicos e explicações. Este aqui é o total oposto. É simples, de coração aberto e baseado só nas experiências que vivi. Mas preciso dizer que agora,1:58 da manhã, me parece muito mais importante transmitir esta outra mensagem:

Talvez estejamos num momento onde o importante, o que pode fazer real diferença, é baixar a guarda e recolher as armas. São os pequenos gestos, a troca de olhares, a conversa furada, o abraço sem compromisso.

Quando o dia termina e as luzes se apagam. Na hora que colocamos a cabeça no travesseiro, são dessas coisas que sentimos falta. O resto importa bem menos.


publicado em 20 de Setembro de 2016, 17:48
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Alberto Brandão

É analista de sistemas, estudante de física e escritor colunista do Papo de Homem. Escreve sobre tudo o que acha interessante no Mnenyie, e também produz uma newsletter semanal, a Caos (Con)textual, com textos exclusivos e curadoria de conteúdo. Ficaria honrado em ser seu amigo no Facebook e conversar com você por email.


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