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Estresse pós-traumático e o medo do que nossa mente cria | ID #10

Se alguém aqui já foi assaltado, sequestrado, agredido, violentado, estuprado, abusado sexualmente, perseguido por alguém maluco, preso num local fechado, perdido no meio do mato, esquecido pelos pais no supermercado, sofrido de alguma doença grave ou ficado refém de alguma situação que não conseguiu escapar vai entender perfeitamente o que vou falar a seguir.

Se você sente medo de qualquer coisa, também vai captar a mensagem.

O transtorno do Estresse pós-traumático vem sendo muito estudado nos últimos anos por ter aumentado em incidência. A violência urbana e o número de acidentes só criou um cenário mais propício. O ID de hoje vem justamente de um episódio ocorrido com alguém bem conhecido.

Link YouTube

Travis Barker desiste de ir com o blink-182 para a Austrália

No ano passado o blink-182 anunciou que iria viajar para a Austrália para tocar em um dos países mais importantes para a popularidade do grupo no começo de sua carreira.
A primeira pergunta que surgiu foi a respeito da participação do baterista Travis Barkerna turnê, já que o cara não viaja de avião desde 2008, quando sofreu um grave acidente que o deixou com queimaduras e matou alguns de seus melhores amigos.
Em um primeiro momento, Travis disse que estava considerando até tratamento com hipnose para encarar a viagem, e que embarcaria junto com sua banda para tocar na Austrália. Além disso, comentou que gostaria de tocar no Brasil.
Ontem, porém, a banda utilizou sua página no Facebook para comunicar que Travis não conseguiu superar seu trauma e não irá viajar.
Em seu lugar quem vai tocar com Mark Hoppus Tom DeLonge será Brooks Wackerman, do Bad Religion.
Veja a declaração oficial logo abaixo:
A viagem para a Austrália foi planejada durante nossa turnê Europeia no Verão passado. A banda sabia das chances de Travis superar seu medo de avião, que foi amplificado depois do trágico acidente de 2008, seriam um desafio, mas nós queríamos tocar para nossos fãs na Austrália ainda assim. Nós três tentamos todas as medidas para fazer com que a banda completa viajasse. Travis tem trabalhado para superar seu medo de avião. Já que agora nós temos que fazer a viagem sem Travis, nosso amigo Brooks Wackerman (Bad Religion, Tenacious D) tocará em seu lugar. Nós amamos nossos fãs na Austrália então cancelar o show não era uma opção, então ainda planejamos irmos até lá e realizar grandes shows. Mark, Tom e Travis.
Tenho mais discos que amigos

Essa mudança abrupta de circunstância pode ser o disparador de uma pré-condição ansiosa que se transforma num transtorno caracterizado por agitação física, isolamento social, e revivência mental do evento traumático.

O avião em que Travis estava. Claro que ninguém quer perder um amigo, se machucar, estar na queda de um aeroplano, mas a coisa toda está na perda e na dor em si do que no acontecimento

Eu não gostaria de me deter nesse transtorno pois sei que, em alguma medida, todos nós passamos por variadas intensidades de estresse no dia-a-dia, inclusive aqueles que são subliminares de tão enraizados que estão na vida urbana.

Medo do retorno

Uma das características mais terríveis que a pessoa traumatizada experimenta é aquele receio, ainda que irracional, de que o evento traumático se repita.

No caso do Aron Ralston, alpinista que  amputou o próprio braço numa pedra retratado no filme 127 Horas, ele conta que a imagem asfixiante de estar preso entre duas pedras ficou em sua mente por algum tempo. A menos que ele volte a se arriscar de forma incauta, como fez no dia do acidente, não faria muito sentido ter medo daquela situação imaginária.

Nossa mente tem um mecanismo curioso diante de certos acontecimentos dolorosos, pois é capaz de recriar inúmeras vezes a mesma cena de forma muito realista. Quase como um membro-fantasma, a memória lança o traumatizado numa correnteza de sensações muito vívidas como o próprio evento desastroso.

A dificuldade em esquecer

A menos que você bata a cabeça, perca a memória ou desenvolva alguma doença cerebral degenerativa, é bem improvável que esqueça algo em sua vida. A memória associada a emoções fortes ganha maior impressão e destaque no sistema de arquivamento mnemônico.

É como um link no Google: quanto mais visualização ele ganha, mais sobe no ranking de importância e mais vezes é visto.

Esquecer, portanto, é impossível, mas ressignifcar a importância de um acontecimento na sua vida é possível e depende de como você lida com as coisas na sua vida de modo geral.

Muita gente vê com tristeza o fim dos Beatles, mas, em vez de pensar em uma banda que acabou, há o ressignificado de que quatro artistas estavam em pleno vapor pra fazer ótimas músicas, muito mais do que fariam como um único grupo

Obsessão pelo passado

Quando falei do paradoxo do tempo, comentei sobre pessoas que possuem uma tendência a superestimar o passado, seja ele bom ou ruim. Essa necessidade de ficar cozinhando acontecimentos antigos gera uma predisposição de ficarem paralisadas depois de um trauma.

Pessoas que costumam viver no presente e transitam numa visão futura tem menos propensão para mágoa, ressentimento, saudosismo e nostalgia. Se algo as impede de seguir em frente, elas encaram tudo o que for necessário para superar. Já aquelas que só estavam esperando uma desculpa socialmente aceita para alegar infelicidade se apoiam em qualquer resfriado para desistir de tudo.

Sofrimento é efeito colateral

"A dor é a quebra do invólucro que contém o seu entendimento."
— Khalil Gibran

O sofrimento, diferente do que muitos pensam, não é intrínseco a um evento doloroso, mas é o rastro perpetuado voluntariamente pela pessoa que resiste às mudanças inevitáveis, ainda que imprevisíveis, da vida.

É como um efeito colateral da tentativa de conservar um estado psicológico e existencial imutável ou um denunciador da dificuldade em ceder ao evento novo.

Não é o resultado de amadurecimento, mas sinal de rigidez emocional (por que tudo muda para mim?), apego (não admito que isso aconteça), inflexibilidade (enquanto eu não entender o que aconteceu, não posso seguir em frente) e narcisismo (por que comigo?).

Em resumo, o sofrimento perpetuado é uma forma de birra existencial.

A superação

Lembro de uma pesquisa americana de um estudo longitudinal de 20 anos que analisou o estado emocional de crianças logo após ficarem presas (e se libertarem) numa gruta nos EUA e depois de adultas.

No reencontro, compararam quais delas ainda guardavam, mesmo adultas, efeitos colaterais daquele trauma.

O evento ruim se vai, a vida passa, o agora fica (clique na imagem pra entender melhor a inserção dessa imagem)

Algo curioso foi notado: aquelas crianças que tiveram uma reação ativa enquanto estavam presas (cavaram, ajudaram as outras, buscaram soluções) se desenvolveram com um senso de autoestima e tiveram melhor desempenho ao longo da vida do que aquelas que ficaram passivas, paralisadas ou chorando.

Isso me levou a pensar que a intensidade do trauma não é o determinante - afinal, todas as crianças estavam no mesmo lugar -, mas como a pessoa o elabora sem criar defesas psicológicas infantis como negação, repressão, formação reativa ou vitimismo.

A generosidade das crianças que agiram diante do mesmo problema registrou um efeito positivo somando uma reputação positiva sobre si mesmas. Já aquelas que ficaram centradas na sua própria exasperação, provavelmente intensificando o problema e sem agir, perpetuaram o mal-estar.

O medo constante

Pessoas que sentem medo costumam ter uma mente povoada por fantasmas de diferentes portes e normalmente se sentem pequenas diante de um mundo exterior ameaçador.

Para as mentes assustadas, um lugar escuro vira um trem-fantasma, uma cara fechada se torna raivosa, um silêncio se torna um desassossego, ou seja, toda vez que a realidade se mostra ambígua ou indefinida, ela preenche os espaços vazios com agressividade.

Em seu aparente temor frágil, a própria pessoa não percebe que é ela quem personifica um espaço vazio ou imóvel com fantasias macabras de violência contra si mesma.

Não é a realidade que efetivamente a ameaça, mas sua própria mente ao colorir os eventos neutros com uma boa dose de violência reprimida. É o autobullying presente na culpa, mas dessa vez afastando a si mesmo de fantasmas que não existem.

O presente desconfortável

Esse apego ao passado ou futuro terrível é uma bela trapaça da mente para não se ocupar do único momento em que as coisas podem ser realizadas: agora.

Não

Na hora de se justificar diante da própria consciência ou dos outros, haverá uma razão muito convincente que dirá:

"Você sabe, aquilo que atravessei foi muito doloroso e criou um impacto negativo em mim até hoje, por isso sou desse jeito."

Quando uma pessoa tem um repertório de acontecimentos desastrosos aliados a uma personalidade resistente a se abrir, o resultado é uma passividade que se realimenta interminavelmente do script:

"Sou fracassado porque fracassei e fracassarei porque sou fracassado."

No presente, essa pessoa que se apoia no passado sempre recuará alegando insuficiência se esquecendo que só no "aqui e agora" é que existe uma chance de construir novas oportunidades. Assumir que a cada minuto ela pode dar um passo na direção da mudança é muito desconfortante para muitos.

Enjaulados numa prisão perpetuada pela rememorização insistente, muitos caminham pela vida ancorados no seu passado como a única fonte de sentido (desastroso), ali onde só a memória pode alcançar dormem no torpor da autoria de suas vidas.

Nota do editor:  O trabalho da coluna ID é auxiliar em nossas jornadas de amadurecimento e desenvolvimento pessoal.

Empenhado e preparado

Para isso, vale utilizar esse espaço também para debater outros âmbitos da vida que estão além de amor e relacionamento, como família, angústias da solidão, da própria convivência consigo mesmo. 

Continuem mandando suas dúvidas, vamos cavar mais fundo e explorar mais sobre nós mesmos: id@papodehomem.com.br


publicado em 04 de Março de 2013, 21:00
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Frederico Mattos

Sonhador, psicólogo provocador, autor dos livros "Relacionamento para Leigos" e "Como se libertar do ex". Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas cultiva a felicidade, lava pratos, oferece treinamentos online em A Mente Humana e escreve no blog Sobre a vida.


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