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“Eu não ligo pra roupa” - ou - o complexo de macheza tupiniquim

A moda masculina brasileira engatinha, isso importa alguma coisa pra você?

Ouço muitas pessoas me dizerem “mas eu não ligo pra roupa”, “só quero conforto”, “não acompanho tendências”.

Pois eu desafio aqui qualquer pessoa que seja a me dizer que saiu para um encontro e não se importou com que roupa colocar ou que não se sentiu mais seguro (e porque não dizer confortável) ao receber um elogio sobre como estava aparentando.

"Tá estiloso hoje, hein?"

A idéia aqui não é criar vítimas da moda, mas sim explicar como o domínio dessa ferramenta pode ajudar na sua vida de um jeito que não imaginava. O preconceito sempre será fruto da falta de conhecimento, a aversão sempre foi a resposta dos inseguros.

É sabido e notável que ainda não temos uma identidade marcante quando se trata de moda brasileira e que somos lembrados ao redor do mundo como um rascunho de homem latino caliente que fala espanhol.

Como mudar este cenário?

Algumas marcas vêm desenvolvendo com parcial sucesso um homem brasileiro casual, litorâneo e de bem com a vida, como dizem alguns, "com muita bossa". Não creio que este homem não exista, mas imagino que limitar uma nação a uma cidade é um tanto quanto equivocado.

Alguém ai já ouviu falar das praias do Acre, Mato Grosso do Sul, Roraima, Rondônia, etc?

Seria pretensão dizer que tenho uma visão específica para a moda brasileira, mas se fosse apostar, eu colocaria minhas fichas em uma releitura da sensualidade do corpo do brasileiro, utilizando cores sóbrias na maior parte das peças e pequenas “porções” de cores vivas nos detalhes, acentuando a nossa ossatura robusta e nossa pele mais corada (mesmo a dos brancos).

Somo um paÍs com um povo miscigenado e é um privilégio poder ter tantos caminhos diferentes pra se seguir. Não precisamos ser excessivamente coloridos e festivos, nem extremamente sóbrios e clássicos, a palavra que mais se adequaria no momento seria o equilíbrio.

Para tanto, precisamos levantar uma questão muito importante...... o que é ser Homem hoje?

Quanto à masculinidade em si... homens, se armem!

Brincadeiras a parte, depois de um período gigantesco de hegemonia masculina, estamos sendo "ameaçados" por mulheres independentes, que não só assumem papel de co-liderança como também de liderança dentro das relações afetivas e profissionais.

Essa alteração nos valores fez com que muitas mulheres (e homens) vivessem uma inversão de papéis e durante essa inversão os homens têm ficado perdidos entre saber se devem ser sensíveis e chorar, como podem bem fazer as mulheres, ou se devem se erguer e serem impassíveis, como seria um tradicional macho a moda antiga.

Estados Unidos, década de 20

Digo que nem um nem outro. O momento do homem, assim como na moda, é de equilíbrio. Será permitido, digno e belo um homem chorar por um grande amor perdido, mas será execrável que ele chore em uma "DR" com a namorada. Mais do que nunca o espírito do tempo pede harmonia, principalmente ao Homem.

Que fique claro que esta harmonia e equilíbrio nada têm a ver com a modorrência de se fazer um pouquinho de tudo, um pouquinho durão, um pouquinho sentimental, um pouquinho de pouquinho. Jamais!

Este equilíbrio só ocorre de maneira positiva por contrastes.

Em uma explicação bem conceitual, seria como um corcel negro, um cavalo que por si só já emana masculinidade de seus músculos rijos e suas patas largas, mas que ao mesmo tempo tem em sua crina sedosa e delicada um ótimo contraste, que só serve para ressaltar ainda mais como é compacta sua musculatura e como é sólida sua estrutura, como é tenra e brilhante sua carcaça.

Resumindo muito, chegamos a uma conclusão quase paradoxal: uma porção delicada tem como principal função acentuar seu oposto viril, saber utilizar este conhecimento é uma arma muito poderosa.

Aplicando o Contraste

Como exemplo usarei meu trabalho principal, a criação de camisaria.

Se hoje utilizamos camisas que são usadas da mesma maneira a mais de 50 anos, é porque definitivamente elas são clássicos. Isto seria excelente se nossa geração não fosse a Y, se não fosse o começo da internet, a velocidade de informações, a efemeridade das tendências, tudo agora está mais acentuado do que nunca.

Então como fazer um peça que tenha apelo a nós jovens, mas que ao mesmo tempo resgate a tradição e o “currículo” que as camisas clássicas têm?

Pois bem, a solução é o que chamo de "Novo Clássico", peças que têm sua essência no tradicional e estruturado, mas que vieram para atender uma necessidade da atualidade, ou seja, que de alguma maneira não causem estranheza aos olhos dos mais tradicionais, mas que ao mesmo tempo despertem um consumidor de camisas adormecido, o Jovem.

Ou você acha que ele tem cara de tiozão só porque tá usando camisa?

Adormecido no sentido de opção, pois esses jovens, entre 20 e 35 anos (sim, hoje somos jovens até tarde, indo no sentido contrário do da informação, nós ficamos mais lentos para nos tornarmos senhores de si), usam camisas pois seu trabalho assim pede, ou deles assim se espera. Mas muito dificilmente vemos jovens usando camisas por vontade própria ou como maneira de transpor seus sentimentos e individualidades como aconteceria com uma camiseta.

E é essa a ideia principal, utilizar a camisa, uma das peças mais clássicas e seguras do vestuário masculino, para mostrar quem são e o que pensam os jovens de hoje, que com certeza assim como o Novo Clássico, se baseiam em preceitos antigos, mas tem sua essência particular bem fincada nos dias de hoje.

Não se trata de uma questão de ser mais casual ou social, pois tanto num caso como no outro ainda estaremos falando do mesmo indivíduo. Se trata sim de retratar quem ele realmente é, não importa em que momento esteja.

Acredito que a veste de ocasião (formatura, trabalho, festa, reunião, happy hour) tende a deixar de existir da maneira clara que vemos hoje.

Você vai continuar a se vestir muito melhor para ir a um casamento do que para ir comer um lanche, mas isso não vai querer dizer que para um você usa camisa e para o outro camiseta. A associação de uma peça especifica a uma determinada ocasião, é um pensamento antiquado e sem sentido e imagino que deverá ser substituído por um Senso de Importância.

Exemplifico: um cara com estilo hippie. Na padaria, ele vai com seu jeans surrado, seu chinelo de dedo e sua camiseta com gola cavada, as pessoas conseguem ler o que ele quer que elas leiam. Já em um casamento, esse mesmo "hippie" vai com alguma coisa que realmente demonstre sua personalidade de maneira tão acentuada?

Não, e isso é bem estúpido.

Crescemos, principalmente nós homens, seguindo normas de vestuário estipuladas há tantos anos e por um povo de clima tão distante do nosso que não sabemos nem mais a quem questionar quando queremos alguma ruptura.

A proposta que discuto é exatamente proporcionar esta ruptura a esse novo homem que surge. No caso do vestuário masculino, em que nenhum homem deseja chamar mais atenção por sua roupa do que por si só, está ruptura é sensível e se mostra (pelo menos neste começo de Era) nos pormenores, através de uma cor, combinação ou detalhe inusitado.

Resignificando o clássico pra chamar uma nova atenção

Na verdade não estamos criando uma nova fórmula, mas sim adaptando uma já existente, mas pouco explorada, nosso bom e velho amigo, o contraste.

E essa parte é bem simples, mas crucial para o sucesso da empreitada, se trata de olharmos a mesma figura, mas vermos algo diferente, isso é possívelapenas recombinando informações de maneira inusitada, subvertendo elementos estéticos pré estabelecidos.

O que você vê quando olha um homem com 30 anos, com sapatos marrons, sem meias, calça social azul, camisa branca e cabelo penteado?

Nada.

Essa imagem você já viu e por isso nem enxerga o que esta na sua frente, apenas adéqua a categoria a que ele pertence: Rapaz Comum, mais comum impossível.

Agora olhe o mesmo rapaz. Acrescente uma barba, mantenha o cabelo penteado, adicione uma fina corrente de ouro, um relógio robusto e uma tatuagem no antebraço, o que você vê?


  • Audácia;

  • Personalidade;

  • Uma figura claramente viril.

Adequando antigos signos e adicionando pequenas novas infos podemos alterar completamente como somos vistos e percebidos, sem que esta alteração nos seja gritante ou incomoda, é este o caminho que acredito que devemos seguir quando se trata de moda.

Equilíbrio. Contraste.

Acredite, ainda temos muito o que explorar.


publicado em 20 de Dezembro de 2012, 08:00
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Bruno Passos

Pintor e dono da Conto Figueira. Ama livros, filmes, sol e bacon. Planeja virar um grande artista assim que tiver um quintal. Dá para fuçar no Instagram dele para mais informações.


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