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Eu não vou responder no Whatsapp

Sou um verdadeiro fã da internet e do desenvolvimento tecnológico. Ser capaz de conversar e interagir com nossos conhecidos, mesmo quando tempo e distância acabam se tornando um ponto limitador, é um verdadeiro milagre do desenvolvimento humano.

São inúmeros os exemplos que posso dar para justificar minha admiração. Atualmente, moro distante dos amigos que fiz ao longo da vida, conheci minha namorada pela internet e, talvez o mais incrível de tudo, mantenho contato constante com amigos que fiz em outros países.

Para quem é mais novo, pode soar besteira, mas para os que cresceram numa época onde a internet não era de acesso ao público geral, é praticamente como viver num filme de ficção científica. Mas nem tudo são flores, pontos bem negativos caminham de mãos dadas com essa revolução.

Desenvolvedores de software aprenderam a estimular nossas emoções, nos tornando ansiosos e cada vez mais dependente dos aplicativos criados. Jogos nos premiam com medalhas. A cada nova pequena conquista recebemos um estimulo sonoro e luminoso, ativando nosso senso de recompensa e nos fazendo buscar mais incentivos.

Aplicativos de mensagem possuem notificações vermelhas, chamativas, quase impossíveis de ignorar. Com isso surgem mecanismos cada vez mais traiçoeiros.

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Não bastando os estímulos visuais, o programador agora insere informações que incentivam a cobrança entre os próprios usuários, estimulando uma pressão social baseada em constrangimento, para que os usuários demorem menos em suas respostas e a utilização destes programas seja cada vez mais intensa.

Não é à toa que praticamente todas as ferramentas avisam quando uma mensagem foi visualizada, ou apontam o último horário que você foi visto online. Nesse cenário de informações e cobranças, quem envia a mensagem sente-se menosprezado, e aquele que recebeu, sabendo que estas informações existem, acaba pressionado para responder o quanto antes. Ansiedade e frustração surgem de ambos os lados.

Agora some este senso de urgência ao número de aplicativos cada vez maior. Cada usuário possui pelo menos 4 aplicativos onde recebem algum tipo de mensagem. Seja email, as mais diversas redes sociais, mensagens instantâneas ou interações em algum conteúdo que você gerou em algum lugar.

Chegou um momento social no qual, ou você se posiciona com firmeza e passa a eliminar estes ruídos, ou vai ser dominado por ondas frequentes de aflição, cobrado ou com expectativa frustrada, gastando a maior parte do seu tempo obrigado a interagir com alguma coisa ou alguém.

Recentemente, decidi reduzir drasticamente a quantidade de informações que recebo, parando de seguir absolutamente todas as pessoas do meu Facebook e eliminando 95% das páginas que antes apareciam em minha timeline.

Sobraram apenas aquelas páginas que eu realmente tenho interesse direto e real. Hoje, meus dias são bem mais tranquilos, é como se um grande barulho finalmente fosse silenciado.

Eventualmente, consulto a página de amigos e vejo o que está acontecendo na vida deles, mas agora, sem ser inundado por um tsunami de informações.

O mesmo tenho feito com meus aplicativos de mensagem, não respondendo mensagens a não ser que seja real e espontânea essa vontade.

Reduzir a quantidade de informação diminuiu meu nível de estresse, nervosismo e senso de revolta. Sei que o mundo não está melhor porque não leio as coisas ruins que acontecem o tempo todo, mas não fico me remoendo a cada 5 minutos por ver algo bizarro que aconteceu.

Este fluxo constante de informação, principalmente em períodos de acontecimentos polêmicos e constantes discussões enérgicas nas redes sociais certamente afeta nosso humor ao longo do dia. Pude observar mudanças na pele.

Recentemente o Whatsapp soltou uma atualização que gerou revolta internet a fora. Agora, além de dizer quando a mensagem chega ao servidor (com um sinal) e é entregue ao aparelho (dois sinais), os desenvolvedores incluíram uma notificação de leitura (dois sinais azuis).

As opiniões sobre o assunto se dividem entre os que acham a funcionalidade positiva, apontando a obrigação do outro respondê-lo: “agora quero ver a desculpa por não responder”, e os que, que como eu, acham isso completamente invasivo e desnecessário. Principalmente se existir questionamento pela falta de resposta.

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Não existe, por motivo algum, obrigação na resposta de uma mensagem. Por que não entender a liberdade de escolha das pessoas em responder ou não, sem questionar ou exigir algum tipo de esclarecimento? Nosso autocentramento pode considerar o ato como uma ofensa ao relacionamento que existe entre nós e quem nos ignorou, mas é um sentimento egoísta que apenas aponta óbvio: achamos que somos mais importantes do que realmente somos.

Para alívio de ambas as partes, é prudente assumir que ninguém deve pressionar uma interação. Que, se faltou resposta, o fato não deve soar como agressão, já que o respeito na amizade vai além destas efemeridades, e se sustenta – ou deveria – no prazer da troca legítima.

Observando como nos sentimos nestas situações, podemos notar nossa carência e necessidade de atenção, chorando como crianças que desejam atenção. Quando este sentimentos surgir, é preciso entender e aceitar que naquele momento aquela pessoa não pode ou simplesmente não quer falar conosco.

E tudo bem.


publicado em 10 de Novembro de 2014, 12:15
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Alberto Brandão

É analista de sistemas, estudante de física e escritor colunista do Papo de Homem. Escreve sobre tudo o que acha interessante no Mnenyie, e também produz uma newsletter semanal, a Caos (Con)textual, com textos exclusivos e curadoria de conteúdo. Ficaria honrado em ser seu amigo no Facebook e conversar com você por email.


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