"Eu odeio almoçar com o pessoal da firma"

Quem nunca? Ter um tempo só pra você e poder caminhar entre gente morta?

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Eu odeio almoçar com o pessoal da firma. Nada contra as pessoas da firma. Não gosto de almoçar com ninguém durante a semana, na verdade. É meu break de convívio social. Eu preciso do meu espacinho. Do meu momento sem julgar nada do que as pessoas estão falando, sem ficar reparando a cada dois minutos que a cabeleireira manchou a testa da minha colega de trabalho quando foi retocar a tintura.

O ponto é que hoje eu encontrei o tipo ideal de gente para passar meu horário de almoço: gente morta. Tem um cemitério aqui ao lado do meu trabalho. Eu nunca tinha entrado em um cemitério sozinha e sem meus pais falando “tem que ir, filha. O tio fulano gostava muito de você”. Foi a primeira vez que eu fui feliz para um cemitério. Mais feliz que isso, só quando eu estiver morta, mesmo.

Estava um sol desgraçado e eu amo sol desgraçado tanto quanto eu amo gente morta. Caminhei por alguns túmulos e fiquei pensando no tanto de dinheiro que as pessoas gastam. Estátuas gigantes. Anjos. Flores novas. Eu queria saber quem leva flor viva para gente morta. A última coisa que eu ganhei foi um livro do meu vizinho psicopata (que, inclusive, pediu para eu pagar – caso eu gostasse do que ele escreve).

Depois de visitar uma cacetada de túmulos, me deitei ao sol para ler meu livro. Até que chegou uma corretora de cemitério vendendo o lugar para um casal como quem vende uma cobertura no Jardins. Ela contou quem o construiu, comparou-o com o cemitério da Consoloção, falou dos benefícios do condomínio. O pior foi a cara de felicidade do casal quando ela disse que tinha velório EEEE capela. É a mesma cara que eu faço quando o corretor diz que tem academia EEEE piscina no prédio.

Pensei que aquele era o melhor diálogo já presenciado por mim. Dois minutos depois, mudei de ideia. Não vi mais graça nenhuma naquela porra de conversa e caminhei mais pra frente. Foi aí que eu desenvolvi uma nova obsessão: encontrar plaquinhas de mortos que tenham nascido e morrido no mesmo dia. Não encontrei nenhuma mas fiquei feliz quando encontrei pessoas que morreram no seu mês de aniversário. Fiquei imaginando a família comentando no velório “ele estava tão feliz na sua festa de aniversário”.

Tem túmulos com todas as plaquinhas preenchidas. Invejei porque eu sou meio competitiva. Talvez bastante. Que família unida. Conquistaram o War dos mortos. Mas é... Existe condomínio de cemitério? Se a família toda já morreu, quem é que paga as contas? Não quero passar minha morte inteira em um cemitério. Muito menos no mesmo lugar que minha família. Eu amo eles, mas convivência demais nunca é bom.

Além disso, não quero que minha plaquinha vire um joguinho para alguma imbecil que não goste de almoçar com as pessoas da firma. Sem contar que minhas tatuagens foram caras e minha arcada dentária é das boas. Nunca tive cárie. Eu quero ser jogada em qualquer lugar como uma indigente. Eu quero estudantes de medicina fazendo piada que eu sou uma morta gatinha. Quero meus órgãos salvando a vida de alguém. Quero ser usada para um dez por algum interno. Só porque eu sou um pouco competitiva.


publicado em 01 de Agosto de 2017, 00:00
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Maria Clara

É sul-matogrossense e responsabiliza o consumo excessivo de tereré por suas habilidades com o léxico e sua alma destemida. Atualmente, mora em São Paulo e sonha em ter um golden retrivier. Ela tá no Instagram e no Facebook.


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