Eu quero agradecer por você trabalhar no que trabalha

Há pouco mais de um mês, minha casa deixou de ser o lar pacífico do Django, o cão mais maloqueiro do eixo Perdizes-Vila Madalena, para se tornar uma constante fonte de preocupações.

O terror se iniciou quando uma tomada pegou fogo misteriosamente, sem sequer estar em uso. Para resolver o problema, chamamos um eletricista.

Essa foi a primeira vez que ouvi falar no Seu Zé.

Com toda a habilidade que os anos de experiência proporcionaram, ele veio e resolveu o problema. Um fio antigo superaqueceu, uma emenda se rompeu, dois cabos desencapados se encostaram e, como um casal de adolescentes, o fogo se iniciou. Por sorte, tudo deu certo e agora estou aqui para contar a história.

Cerca de uma semana depois, tivemos um novo incidente. Dessa vez, com direito a apagão (menos na parte anteriormente consertada, diga-se de passagem) e lá veio o Seu Zé de novo, agora com um assistente, o também chamado Seu Zé.

E foi assim que a dupla de xarás começou a frequentar minha casa. Agora, duas semanas depois que a rotina de gritos e desentendimentos entre eles se instaurou, é como se um milagre tivesse ocorrido. A nova instalação elétrica da minha querida residência está quase pronta, com as tomadas funcionando, novos pontos de luz e a (espero) certeza de que posso dormir em paz, sem novos sustos.

Assim, hoje tive um estalo.

Esses são o Seu Zé, em cima da escada e o Seu Zé, de costas, trocando a fiação de casa | Foto do Instagram do @felipefr
Esses são o Seu Zé, em cima da escada e o Seu Zé, de costas, trocando a fiação de casa | Foto do Instagram do @felipefr

Eu não sei quem faz a maior parte de tudo o que uso e vejo. E, quando digo isso, é uma confissão que faço com uma certa vergonha. Mais do que isso, eu raramente agradeci, de coração, a quem tem dedicado a vida para que um pedacinho do mundo seguisse funcionando.

Uma parte de mim sabe que há engenheiros construindo prédios, arquitetos se preocupando em fazer com que eu me sinta bem nos mais variados espaços, padeiros fazendo meu pão, cozinheiros fazendo meu almoço.

Mas isso não é algo que passa pela minha cabeça quando, por exemplo, a água sai magicamente pela torneira. Quando esse milagre está operando, lavo as mãos e sigo a vida.

Essa é a tragédia, mas ao mesmo tempo, o maior sinal de que há um trabalho muitíssimo bem feito aí. Eles são capazes de deixar algo operando perfeitamente por tanto tempo que é como se tudo tivesse aí desde a origem do universo.

Nós, que somos uma geração meio acostumada a desejar holofotes, talvez nem pensemos que essas pessoas talvez tenham desejado, tanto quando nós, ser artistas, pintores, escultores, músicos, filósofos, vai saber... e, por qualquer motivo, optaram ou foram forçadas a fazer qualquer outra coisa.

Ou, por outro lado, nós, que-somos-uma-geração-meio-acostumada-a-desejar-holofotes, não concebemos que é possível alguém desejar fazer a exata coisa que está fazendo com uma certa alegria, mesmo que isso não inclua um cafuné de "bom garoto", desses que o Django tanto gosta.

Como hoje, quando os Seus Zés estavam saindo de casa e comemoravam o fato da obra já estar quase finalizada. Assim, gratuitamente.

Ou como esse homem, Todd Sanders, que faz placas de neon em Austin, nos EUA. Ele se considera abençoado por poder ganhar a vida e sustentar os filhos fazendo a arte dele.

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Mas nem sempre tudo dá certo. Às vezes, uma catástrofe iminente se anuncia nos jornais, como a falta de água que agora assombra a cidade de São Paulo. Nesses momentos, elegemos um vilão e aí lembramos quem é que está encarregado da tarefa. Afinal, rola um certo alívio – bastante condenável – quando conseguimos malhar um Judas, mesmo que isso não vá resolver em nada a questão.

Só aqui no PapodeHomem temos a Mônica, a Marilene, o Felipe Ramos, o Rodrigo Cambiaghi, o Gustavo Gitti, o Eduardo Amuri, o Guilherme, o Jader, o Felipe Franco, o Rafael Tiltscher, a Ana Higa, a Luiza, o Ismael e mais um monte de gente que trabalha remotamente. Muitos deles eu mal sei o que fazem, como é a rotina e quais as minúcias de tudo o que produzem, por mais que nos vejamos diariamente. Imagina o resto do mundo.

É como se em algum ponto começássemos a achar que só o dinheiro basta. Como se pagar tirasse a nobreza da tarefa realizada ou qualquer coisa do tipo. Penso que deve ser por isso que agradecemos (quando o fazemos!) assim, só por educação, de maneira fria, sem colocar o coração nas palavras.

Por isso que hoje me deu vontade de agradecer a todo mundo que está fazendo a exata coisa que está fazendo agora. Incluindo você que está lendo.

Afinal, se agora eu consigo redigir esse texto, é graças a essa imensa cadeia de seres que, de uma forma ou de outra, contribuíram para que eu estivesse aqui. Não é uma frase bonitinha. De fato, eu não estaria aqui se não fosse por vocês.

Obrigado.


publicado em 06 de Agosto de 2014, 17:55
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Luciano Ribeiro

Cantor, guitarrista, compositor e editor do PapodeHomem nas horas vagas. Você pode ouvir no Spotify. Também escreve no Medium e em seu blog pessoal. Quer ser seu amigo no Instagram.


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