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Eu, você, dois filhos e um comentarista de portal que escreve tudo em caixa alta | Terceiro Olhar #7

Porque a caixa de comentários é muito mais do que aparenta ser

Já virou uma espécie de lugar-comum dizer que a área de comentários é o pior lugar da internet. Algumas pessoas comparam com um futuro distópico onde opiniões caóticas se digladiam numa espécie de cúpula do trovão cognitiva, perdidas entre comentários ofensivos, pessoas que leram só o título e um perfil fake do André Marques divulgando uma dieta milagrosa.

Outros consideram uma espécie de “The Purge” que dura o ano todo, um ambiente sem regras, sem leis, em que vale tudo, e as únicas certezas envolvem gente soletrando palavrão pra escapar do moderador – “fulano é um B O S T A” – e o fato de que alguém vai comentar algo sobre o PT, mesmo se a matéria for sobre a descoberta de matéria orgânica num satélite na órbita de Júpiter. E claro, algumas pessoas apenas notam como a esperança e o otimismo do brasileiro tão refletidos no cara que comenta “você é linda, meu telefone é esse, me liga”, numa matéria sobre a viagem de férias da atriz que faz a mocinha da novela das oito.

Mas ainda que hoje todo mundo adore falar mal da área de comentários, ela nasceu com a melhor das intenções – como quase todas as coisas que vão parar em direções desagradáveis, na verdade. A função dela era estreitar as relações entre meio e leitor, servindo não apenas para que a pessoa que lesse o conteúdo manifestasse a sua opinião mas também para que quem produziu o material pudesse ter acesso ao que essas pessoas pensaram. Ainda que não da maneira mais eficiente possível, a caixa de comentários nasceu pra ser um passo adiante da sessão de “cartas dos leitores”, permitindo que o processo de feedback entre emissor e receptor da mensagem se tornasse mais fácil e mais rápido, dando uma certa amostragem da opinião do homem comum sobre aqueles textos e aquelas situações.

E por mais que todo mundo goste de dizer que ler os comentários é a pior ideia do mundo, eles seguem sendo importantes exatamente por isso: porque são uma amostragem do que uma grande parcela das pessoas pensa. Eu sei, eu sei, você não gosta de pensar que uma parte significativa do país pensa as coisas que você lê nos comentários daquela notícia do G1, você quer sair do planeta quando imagina que várias pessoas acreditam nas mesmas coisas que aquele cara daquela postagem na Folha e a simples existência de uma pessoa que pensa como aquele comentarista do UOL te faz sentir que está morrendo um pouco por dentro. Mas são comentários reais, feitos por pessoas reais e que pensam exatamente da maneira que estão colocando ali.

Por isso, de uma certa maneira, a área de comentários serve como um termômetro social. É um local onde as pessoas se sentem livres pra ser elas mesmas – o que muitas vezes resulta, é claro, em ser a pior versão possível delas – e talvez dizer de maneira clara o que elas pensam e sentem.

Muitas vezes vão parecer lunáticos, outras vezes vão parecer assustadores, algumas vezes você apenas não vai entender? Bem, é possível. Mas por trás daquele lunático pode existir um vizinho, por trás do cara assustador pode existir um conhecido, por trás das palavras sem sentido pode sim existir seu pai que achava que tava fazendo uma busca do Google. A área de comentários de um grande portal não é assustadora por ser um ambiente bizarro e dissociado da realidade onde pessoas assustadoras dizem coisas terríveis. Ela é assustadora por ser num certo nível uma reprodução do mundo em que vivemos, só que sem filtros, sem amarras sociais e, sim, com bem mais fakes do André Marques fazendo propaganda de dieta milagrosa.

Espero que a dieta ao menos funcione. Não sei.


publicado em 23 de Junho de 2016, 00:00
Selfie casa antiga

João Baldi Jr.

João Baldi Jr. é jornalista, roteirista iniciante e o cara que separa as brigas da turma do deixa disso. Gosta de pão de queijo, futebol, comédia romântica. Não gosta de falsidade, gente que fica parada na porta do metrô, quando molha a barra da calça na poça d'água. Escreve no (www.justwrapped.me/) e discute diariamente os grandes temas - pagode, flamengo, geopolítica contemporânea e modernidade líquida. No Twitter, é o (@joaoluisjr)


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