Expedição Saídas e Bandeiras: viajando pela América Latina de moto | Na estrada #35

No fim da estrada e da poeira.

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Devo admitir que quando a ideia de fazer uma grande viagem de moto surgiu na minha mente, parecia algo quase inatingível. Duvidava da minha própria capacidade, não sabia por onde começar, a lista de equipamentos era infindável, de alto custo e a minha moto, uma Yamaha Ténéré 600cc 1993, La Tenebrosa, praticamente da minha idade e já cansada do tempo, vivia me trazendo problemas (mas não pensei por momento algum escolher outra).

La Tenebrosa.

Sempre andei de moto. Logo que fiz 18 anos, antes de ter carro e com o primeiro dinheiro que me sobrou, comprei uma Yamaha R5-350 1971, conhecida como viúva negra no Brasil. É uma moto raríssima...e raríssima as vezes que ela não me deixava na mão também. Cumpriu seu papel! Hoje estou com 24 anos e a venda dela, poucos meses atrás, foi o último esforço para viabilizar uma viagem de 11.000km da qual acabo de retornar.

Meu objetivo não só era cumprir a quilometragem. Eu possuía minhas próprias aspirações, e a letra da música Saídas e Bandeiras de Milton Nascimento, que batiza a viagem, é a síntese de tudo. Queria também gerar um material fotográfico genuíno e, de algum modo, registrar o dia-a-dia da expedição. A preparação durou cerca de 2 meses.

Primeiras impressões

Nunca me interessei por kits prontos. No decorrer da viagem, sentando na moto, cruzando outros viajantes, tive a certeza de algo que havia percebido quando entrei no universo big trail e de viagens de moto. Todos, eu digo todos, pareciam exatamente a mesma pessoa. As motos eram iguais, as roupas, capacetes, todos iguais. Não quero desmerecer a viagem de ninguém, alguns com certeza eram viajantes experientes, em rotas mais difíceis e longas que a minha, mas um senso de falta de identidade e personalidade era o que me marcava. Verdadeiros power rangers do asfalto, montados em megazords de 100 mil reais, muitas vezes me faziam não querer nem conversar com eles, parecendo até afastar e gerar um sentimento de frieza em alguns nativos de regiões mais isoladas.

Mas é claro, uma viagem como essa não é sobre equipamentos e escolhas técnicas. Foi um mês sabático para mim, que marca o fim de uma longa fase e início de outra, e isso deixei registrado em um diário de bordo extenso.

A viagem

17/10/2016 | San Antonio de Los Cobres (Cordilheira dos Andes, Argentina)

“O fato de termos que acampar por ali mesmo logo foi assimilado por todos. Era tarde e não tinha como prosseguir. A próxima cidade estava a 150km. Comecei a caçada por algum mecânico que tivesse uma máquina de solda. Nesse meio tempo, alguém teve a ideia de pedir ajuda e abrigo na base do exército."

"Fomos até lá, recebidos de modo muito cordial e educado. Descobrimos que havia um mecânico no quartel e que nos ajudaria com grande prazer. Em alguns minutos, muitos soldados se reuniram em volta da moto e da Defender. Fomos surpreendidos por um astral amigável e ficamos por ali quase 2 horas, conversando sobre tudo com os amigos militares. Enquanto isso, a moto era soldada e tudo estava resolvido. Por hora.”

22/10/2016 | El Loa - Chile

"Iquique logo se revelou um erro. A falta de ondas e de lugar pra acampar nos afugentou novamente para a estrada, rumo a El Loa, uma praia totalmente deserta, onde acampar dependia só da nossa vontade (e habilidade). A expectativa por ondas só aumentava."

"Nos carregamos de suprimentos, partimos e 150km depois chegamos à praia. Realmente não encontramos muita coisa além de areia, milhares, eu digo, milhares de pássaros e algumas focas."

"Uma praia extensa ao pé da montanha só nossa por 2 noites e 3 dias. Bons momentos, mesmo sem ondas. Armamos nossa estrutura completa e passamos bem! Comida, vinhos, banho de mar, muitas aves, fins de tardes pacificas, belas fotos e partida!"

28/10/2016 - 03/11/2016 | Pichilemu - Chile

"Pichilemu é um capitulo à parte em nossa jornada. Talvez o lugar que mais alterou as fundações da expedição: foram 4 dias acampados no quintal da Lu, que nos recepcionou de forma especial, sem nunca ao menos reclamar da bagunça feita por 5 viajantes.Vimos Punta de Lobos quebrar com 4 metros num por do sol clássico."

Vimos também nossa formação sendo alterada drasticamente: daqui seguimos seguimos viagem em apenas 3. Como toda expedição ou viagem entre amigos, rachaduras e prioridades distintas podem ocasionalmente surgir. Entre eu, Tana e Danilo, ficou decidido que nada nos tiraria o foco de chegar à Patagonia Argentina, mais precisamente San Martin de Los Andes. Seguimos viagem, enquanto Murilo e Fagner rumaram pra Santiago com outros planos. Hora de pegar a estrada de novo, Temuco!

05/11/2016 | San Martin de Los Andes - Argentina

"Logo estávamos com o fogo aceso, acampamento pronto, jantar no fogo, beberricando um vinho. Alegria plena, que noite! Fomos dormir de barriga cheia e levemente embriagados para só acordamos com o sol entrando através do tecido fino da barraca. Lá fora uma visão aberta e clara do Vulcão Lanin, que estava literalmente ao nosso lado! Tivemos uma manhã de contemplação muito bem aproveitada, tomamos café em um estabelecimento próximo e no fim do dia cruzamos a fronteira em direção à Patagônia Argentina, passando por Junin de Los Andes, para então buscar abrigo em San Martin de Los Andes, onde após descobrirmos que todos os campings estavam fechados, invadimos o único que não continha um cadeado no portão."

 "Buscamos alguém dentro da enorme propriedade - sem sucesso - escolhemos um lugar e montamos acampamento mesmo assim. Nessa noite conhecemos o que se tornaria a receita preferida da viagem: bife de Chorizo, pão, cebola caramelizada no vinho branco e um tempero liquido Americano que o Tana comprou sei lá aonde. Não poderia ser melhor, queria estar comendo isso nesse exato momento!

No outro dia fomos logo recebidos pelo filho do proprietário do camping, que se aproximou amigavelmente para comunicar que o camping Amigos de La Naturaleza ficava aberto o ano todo. Não cometemos crime! Após uma boa conversa pagamos nossa dívida e partimos em direção à cidade para almoçar e seguir rumo a uma outra área de camping que havíamos mapeado. Uma área isolada e livre de taxas. Bem, não deu certo, mas acabamos em um belo lugar, que nos proporcionou banho de lago ao pôr do sol, muita lenha seca e mais uma noite memorável."

Os apoios

Viajei apoiado por La Defensora, uma Land Rover Defender 110, e dentro dela alguns amigos que me deram suporte em todos os momentos, mesmo quando era eu a causa de certos atrasos. Como previsto, a moto enfrentou diversos problemas estruturais e mecânicos. Com ela andei 7.5 mil quilômetros em cerca de 25 dias, e um problema no freio (que demoraria 4 dias para ser arrumado, tempo que não tínhamos mais) me obrigou a desmontá-la parcialmente. Sua nova casa foi no topo da Defender, praticamente só para o trecho de volta ao Brasil. Isso me fez entender que também não é tão simples sair do padrão e ter sucesso.  Se minha moto fosse mais nova talvez teria aguentado, mas com isso não me importo muito; aprendi bastante e foi só a primeira!

Tive apoio também da marca Cutterman e talvez tenha sido o primeiro a testar seus produtos em uma viagem tão exigente e longa. Sua mala, mochila e motobags não me deixaram na mão e até me surpreenderam pela robustez. Minha jaqueta era uma Belstaff inglesa re-issue do piloto Sammy Miller, de 1955, de algodão encerado, um dos primeiros materiais impermeáveis criado pelo homem - não tão impermeável e quente assim, já que me fazia usar mais camadas embaixo que o normal, mas carregada de história.

A bota, de longe, foi o equipamento que melhor desempenhou seu papel: uma Irish Setter (Marca mais técnica da Red Wings) totalmente impermeável, insulada, bico e sola rígidos de material que não conduz eletricidade. Não é tão segura quanto uma bota de motocross, mas eu estava totalmente sem vontade de viajar com uma. Um saco impermeável da Surfari garantiu vida ao meu macbook e a Leica M9 mesmo debaixo das piores tormentas. De resto, calça, luvas, bolsa de tanque, capacete, optei pelo custo benefício e discrição.

Revendo as fotos da Expedição, vejo que ali está impresso quem eu sou. A moto, os equipamentos, registros e experiências que vivi durante o trajeto refletem as coisas nas quais acredito, meu estilo e minha personalidade. Sou eu ali, hora sofrendo com as minhas escolhas, hora feliz por tê-las feito.

***

Nota do autor: Os registros completos da Expedição Saídas e Bandeiras podem ser encontrados no Journal da Cutterman.


publicado em 21 de Dezembro de 2016, 00:05
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Marcos Ribas

Diretor de Fotografia e fotógrafo, sócio da Bulletree Filmes, 24 anos. www.marcosribasdop.com


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