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Falar mais de uma língua nos faz ter mais de uma personalidade?

“Aprender outra língua é ganhar uma alma a mais” —  Provérbio Checo

Quando Jacques tinha doze anos, sua mãe começou a falar com ele apenas em francês, seu pai se dirigia a ele apenas em grego, e ele frequentava uma escola parisiense com aulas apenas em inglês. E, claro, Jacques era o mesmo, seja debatendo física com a mãe em Grego, economia com o pai em francês, ou conversando sobre James Bond ou o último Duro de Matar com os amigos na Escola Americana de Paris. Ainda assim, sua personalidade em certo sentido flutuava ao longo dessa diversidade.

“Eu me sinto provavelmente mais rude ou agressivo em Grego, claro e conciso em Francês, e criativo ou verboso em inglês,” disse ele. “Quando se está falando não se sente bem a diferença, mas ao lembrar depois, sim.”

Embora o debate sobre se cultivamos ou não novas personalidades ao aprender outras línguas continue, para quem é bilíngue ou multilíngue, muitas vezes parece mesmo que ao falar outra língua isso nos faz ser uma pessoa diferente.

Para aqueles com capacidades linguísticas assimétricas, uma das línguas pode ser particularmente cansativa. Falar nesta língua o força a pensar por mais tempo e com mais intensidade, e pode parecer como que se se estivesse jogando uma longa partida de tênis após simplesmente conversar. Ainda assim, isso o ajuda a evitar “armadilhas cognitivas”, ou atalhos linguísticos que podem causar erros, por exemplo responder perguntas que soam óbvias, perante as quais, ao prestarmos atenção e pensarmos por mais um tempo sobre a resposta, conseguimos corretamente determinar aquilo que está na ponta da língua como equivocado.

Benjamin Lee Whorf entrou para o departamento de linguística de Yale sob a supervisão de Edward Sapir. Um ano mais tarde, em 1931, ele formulou informalmente a hipótese que é chamada de “Whorfianismo” ou “Hipótese de Sapir-Whorf,” que afirma que a língua não só formata nossos pensamentos, mas também nossa experiência do mundo físico. Tendo comparado o inglês com o shawnee, uma língua central algonquiana falada por apenas cerca de 200 pessoas, Whorf concluiu que a língua que falamos determina fundamentalmente nossa compreensão do mundo.

Por exemplo, para  dizer, “Eu limpo a arma com sua vareta” em shawnee a pessoa precisa se referir ao espaço seco na vareta (“Pekw”), o interior da arma (“Alak”) e o movimento que se faz quando limpa (“H”), o que resulta numa única palavra para explicar a ação como um todo “Nipekwalakha.” Falar shawnee portanto exige que alguém que tenha o português como língua nativa pense sobre o mundo de uma forma fundamentalmente diferente.

E é claro que essas mudanças fundamentais sobre como as línguas são construídas vão bem além dos dialetos ameaçados de extinção.

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Em grego o verbo vem em primeiro na sentença e (como no português) sua conjugação geralmente revela o tom e o sentido do resto da sentença, supostamente assim permitindo uma fala mais agressiva. Athanasia Chalari disse ao The Economist que, “Os gregos quando falam começam suas sentenças com os verbos, e a forma do verbo inclui muita informação, então já se sabe sobre o que o interlocutor está falando logo que a primeira palavra sai da boca, e assim se pode interromper já por ali.”

No francês o sujeito e o predicado precisam estar relativamente próximos um ao outro na sentença, de outra forma se torna confuso: portanto a concisão se torna crucial, e, com um vocabulário particularmente vasto, o francês permite que se encontre palavras extremamente precisas com conotações muito específicas. Já em inglês as palavras tendem a ser mais maleáveis ( “I Tweeted you” em vez de “I sent a Tweet”, por exemplo), mais fáceis de rimar (o que é útil para música ou poesia), e o par sujeito-predicado pode ficar bastante separado sem sacrificar a coerência. Além da audiência ser maior, há bons motivos para Phoenix ou Daft Punk (grupos cujos músicos são franceses) cantarem em inglês.

Ainda assim, é difícil diferenciar entre construção através da língua e cultura. É a própria língua que nos fornece uma nova personalidade, ou essa personalidade advém de nos deixarmos levar pelos hábitos associados àquela língua? Serão os escandinavos menos barulhentos porque sua língua tem menos sons duros (do que o alemão), ou será por que eles normalmente evitam falar com estranhos a não ser que estritamente necessário?

O mesmo vale para quem fala o espanhol como língua nativa. Um estudo feito por  David Luna e seus colegas no Baruch College revelou que mulheres de espanhol nativo e bilíngues, ao assistir o mesmo comercial onde uma mulher limpava a casa, a descreviam como “autossuficiente” e “forte” quando o assistiam em espanhol, mas quando o assistiam em inglês, relatavam que a mulher parecia “tradicional” e “confiável”. Isso significa que o espanhol é uma língua mais “forte” e mais “autossuficiente”, que afeta como a falante percebe seu mundo, ou que aquelas mulheres talvez estivessem apenas culturalmente predispostas a se sentirem mais agressivas com relação a mulheres engajadas em tarefas meniais?

E que tal uma mudança total na categorização linguística? Como descrito no Psychology Today, um falante russo aprendendo inglês associaria “glass” (copo) e “cup” [N. do T. em português, copo, caneca, taça ou xícara: vai ficar claro que o português está num terceiro caso, diferente do russo e do inglês] com as traduções em russo “stakan” e “chashka.” Ainda assim, em inglês chamamos todo tipo de coisa de “cup”: copos descartáveis com tampa de café-para-viagem, recipientes de isopor, plástico e papel, etc., enquanto que em Russo a ênfase está no formato, e não no material, e portanto todos estes “cups” seriam apenas “pequenos copos” ou “stakanchiki.” Assim, de forma que um falante do russo venha a falar corretamente o inglês (ou vice-versa), ele precisa prestar atenção não apenas a traduções diretas, mas a categorias (formato e não material, nesse caso).

Dessa forma é necessário não apenas reestruturar como pensamos sobre a cultura, mas como pensamos sobre os objetos, palavras e o mundo a nosso redor. Talvez seja Orweliano demais, 1984 demais, pensar que mudar a língua possa alterar a configuração de nossas mentes (por exemplo, será que um oprimido pode compreender, ou mesmo desejar, a “democracia”, caso a palavra não existisse mais?), ainda assim uma análise comparativa entre as línguas e uma variedade de estudos mostra que isto não é o caso.

E então há aqueles como Stephen Pinker de Harvard, que rebatem o Whorfianismo, afirmando essencialmente que os pensamentos levam à língua, e que enquanto pudermos pensar sobre algo, daremos um jeito de formular a expressão daquilo. Ainda assim, isso no melhor dos casos é duvidoso. Como Jacques coloca, um tanto travesso, “Discutir economia em francês é bem diferente do que discutir economia em grego.”

* * *

Nota: A família de Jacques pediu que seu nome fosse alterado para garantir sua privacidade.

Nota da tradução: Este texto foi publicado originalmente no Medium do autor e traduzido sob autorização.


publicado em 01 de Novembro de 2014, 11:59
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Cody C. Delistraty

Cody C. Delistraty é um escritor e pesquisador americano. Sua especialidade está na interseção entre economia, história, mídia e criatividade. Pode ser encontrado pelo <a href="http://twitter.com/delistraty"Twitter.


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