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Feliz ano longo

— Já sei! Vamos pra Natal! — berrou a garota lá fora.

Olivo ainda estava no banheiro feminino abanando as mãos para se secar. Durante aquele penúltimo dia do ano todos os papéis higiênicos acabaram abarrotando um pequeno cesto de lixo enfeitado com margaridas. Ele geralmente usava o feminino. O toalete voltado para os dois únicos homens que trabalhavam lá (sim, havia um chefe) parecia o cômodo de um apartamento para alugar: espelho ensebado, nenhum sinal de sabonete e, é claro, sem cesto de lixo, já que nunca houve nada disponível para enchê-lo. Olivo se olhou de relance no espelho. Já não se reconhecia há muito tempo. Com aquele calor, rapidamente destrancou a porta.

— Nada mal, Joca. Mas duvido que vamos conseguir alguma coisa pra hoje.

Todos já haviam ido embora. A maioria tinha cada segundo daquele dia cronometrado para uma programação empolgante recheada de pais, mães, primos, tias, avós e qualquer agregado ciumento nos próximos dias. Horários de ônibus, aviões, táxis, remédios para dormir. Levavam badulaques desprezíveis da cidade para os caipiras ansiosos por qualquer novidade. Isto sempre acontecia para quem ainda tinha famílias unidas e claustrofóbicas. Já era quase oito horas da noite e só havia restado Olivo e Joca naquele pequeno escritório tão impessoal quanto um drive-in.

— É verdade, Oli. Até há vagas, porém estão muito caras. — disse Joca revirando seu longos cabelos castanhos.

— Veja qualquer lugar que tenha uma praia então. Não aguento mais ficar aqui nessa espelunca de merda.

Joca tinha vinte e quatro anos. Dona de uma cabeça enorme com duas bolas esbugalhadas de um marrom insípido, ela era um pouco mais alta do que a maioria das mulheres. Sua boca era mole, sustentada por um maxilar deficiente que projetava grandes dentes de cavalo, o que muitas vezes lhe dava a aparência de débil mental. De fato, ela parecia um garoto idiota voltando de uma pelada na várzea. No entanto, sabia exatamente como obter tudo o que precisava com seu jeito e seu corpo esguio já detalhado pelas mais de vinte voltas ao redor do Sol.

Antes das nove horas encontraram dois lugares baratos para uma ilha no sul do país.

Mochilas. Táxi. Um longo bairro a percorrer. Sem qualquer reserva, Joca e Olivo rodaram algumas quadras e viram diversas geladeiras enferrujadas, caiçaras gordas com vestidos caseiros e paredes umedecidas pela infiltração antes de conseguirem um quarto relativamente barato a dois quilômetros do mar. Banheiro razoavelmente limpo e somente uma cama de casal. Sem chave. Na pequena pousada havia alguns hippies, além de um pequeno grupo de alemães de férias.

Por volta das onze da manhã, outro guarda-sol do bar a beira-mar era ocupado por mais um casal. Enquanto Olivo pedia cervejas para o bronzeado garçom, Joca estendia sua canga fora da sombra, sorrindo levemente para o amigo. Queria protetor solar em suas costas mirradas e sem graça.

— Apesar de murcho, até que você tem um belo rabo, hein, Joca — disse Olivo em tom jocoso, sem mudar sua expressão — Sua sorte é que não me interesso por mulheres que já fizeram amor com homens que não são limpos.

Sem mover o corpo, enquanto o amigo espalhava a pasta branca cheirando a verão em suas costas, Joca voltou sua enorme cabeça de pudim para ele, enquanto levantava os óculos com a mão direita.

— Eu até daria pra você, se você não tivesse sempre esse ar estúpido de velho fracassado.

Com o calor úmido e o clima abafado, o tempo e as garrafas passaram mais rápidos para o jovem casal.

Quando o crepúsculo tornou a praia nostálgica e triste, Olivo foi pagar a conta. Sem ninguém ver, levou um tombo nas escadas que levavam até o caixa do bar, onde também se confundiu com as notas de vinte e de cinquenta. Logo depois Joca e ele estavam de volta à pousada.

— Nossa, tô exausta. Vou dar uma cochilada antes de sairmos para a virada — resmungou ela se dirigindo para a cama.

Olivo não respondeu. Pegou uma garrafa de vodka de sua mochila e uma lata de água tônica do frigobar. Estava tudo ótimo. A noite prometia experiências que ele não imaginava, e era assim que ele se sentia. Enquanto se servia do primeiro drinque, um alemão se sentou ao seu lado querendo puxar papo.

— Vocês já têm programa pra virada? — perguntou o cabeça branca.

— É bem provável que não. Ainda bem — respondeu Olivo olhando para dentro do copo.

Tudo bem, tudo bem. Àquela altura, Olivo até teria condições de comer a Joca. Embora ela fosse um saco de lixo desprezível e ridículo, um pouco de afeto não seria nada mal naquele clima. No entanto, apesar de não ter mais nada a perder, Olivo não encostou um dedo nela. Caiu na cama praticamente dormindo.

— Tô indo embora daqui! — gritou Joca enfiando várias peças de roupa amarrotadas dentro da bolsa.

Olivo abriu os olhos e se levantou de um salto, observando confuso o desespero afetado da amiga. Sentado na cama esfregando os olhos cheios de remelas, estendeu seu braço à Joca.

— O que aconteceu? — desconfiou ternamente.

Você é um alcoólatra, Olivo! Nunca mais quero ver essa tua cara! – retrucou Joca pendurando a bolsa no ombro esquerdo e seguindo para a porta.

— Ei, peraí, porra! Pelo menos me conte o que aconteceu… — prosseguiu ele, sendo interrompido pelo som da porta batida.

Faltava quarenta minutos para a virada do ano. Alguns carros passavam buzinando em frente à pousada, e as ruas estavam abarrotadas por sombras anônimas. Ainda atônito pela cena, Olivo se pôs em pé e saiu do pequeno quarto. Seu fluxo de pensamento começou a torturá-lo antes de decidir o que iria fazer. Logo encontrou o alemão com quem conversara junto a um grupo de pessoas que não havia visto antes. Quando questionado por Olivo sobre Joca, o grupo balançou a cabeça negativamente em sincronia. Uma das garotas apontou a direção que Joca tinha tomado momentos antes.

Como ela não conhecia a cidade, Olivo se sentou lentamente nas escadas da entrada da pousada. Observou a movimentação de pessoas na rua. De repente, deu uma longa gargalhada, surpreendendo o grupo de pessoas que rodeavam o alemão. Ele se lembrara que, como sua bermuda não possuía bolsos, havia deixado sua carteira dentro da bolsa de Joca. Agora sim estava oficialmente fodido, pensou ele.

Juntando seus panos-de-bunda na mochila, em menos de dez minutos já estava caminhando sozinho pelas ruas da cidade. Sem dinheiro e sem cigarros, calculou uma caminhada de vinte quilômetros até o centro da cidade, enquanto cruzava a primeira esquina. Quem o viu entrando no ônibus aquela noite jamais esqueceu sua expressão inerte e seus olhos já sem qualquer resquício de humanidade. Mesmo agradecendo um baixinho de óculos e moletom que se ofereceu para pagar o bilhete, não se sentiu nem um pouco agradecido pelo ato.

Sentou-se em um banco onde havia uma gota escorrida de corrimento feminino ainda fresca, enquanto retirava seu celular do bolso direito. Havia somente um número que, mesmo depois de todo aquele tempo, pairava em sua imaginação alerta. Ao perceber o que estava acontecendo, voltou a sorrir consigo mesmo, entendendo finalmente a gravidade de sua situação.

Segundos depois de discar uma sequencia de números com certa prestreza, aguardou a chamada ser concluída antes de encostar o telefone no ouvido esquerdo.

— Alô? — soou uma voz feminina com sotaque carregado do outro lado da linha.

Olivo hesitou por alguns segundos, gerando impaciência em quem recebia a ligação.

— Oi Luciana — disse Olivo finalmente.

— Quem tá falando? — perguntou a garota se recusando a reconhecer a voz de seu deflorador.

— Sou eu.

— Olivo? É você? – disse em tom comovido – Como você tá?

— Tô na cidade… ahm… cê teria ideia do que aconteceu?

— Como assim? Aconteceu alguma coisa com você? — prosseguiu Luciana já com a voz alterada.

Olivo interrompeu a chamada, guardando o celular no bolso esquerdo. Conferiu as horas em seu relógio de pulso, constatando que estava comemorando a passagem do ano cristão na companhia de diversos trabalhadores caiçaras de semblante vencido dentro de um ônibus velho e imundo. Observou a explosão de alguns fogos de artificio pela janela ensebada. O céu parecia estar gozando em cima das pessoas que se cumprimentavam histericamente a beira-mar.

No décimo quarto minuto do novo ano, Olivo desceu do ônibus e seguiu caminhando pela areia da praia. “Será que eu bati na Joca?”, perguntou-se ele. “Ou será que tentei comer ela a força? Quem sabe tentei enforcar aquela puta incorrigível”. Uma antiga frase de um autor cujo o nome não conseguiu se lembrar aproveitou uma brecha de seu inconsciente. “As mulheres são putas, os homens estupradores”.

Após quatro horas de caminhada, Olivo já estava em uma praia mais isolada, onde via pistas do nascer do sol. O céu ainda estava negro, com apenas poucas farpas vermelhas e alaranjadas cortando o horizonte. Cansado e sujo, encontrou um banco surrado pela maresia ao lado do qual dormia um cão pelado com terríveis feridas de sarna por todo o corpo. Como se não percebesse este detalhe, Olivo acariciou o traseiro doente do animal, enquanto observava a chegada da luz branca e nauseante da manhã.

— Tem fogo aí, meu chapa? — passou um maltrapilho que segurava um cigarro pequeno e muito amassado.

— Não — respondeu Olivo sem olhar para o rapaz.

Ignorando sua inércia, o rapaz sentou-se ao seu lado, logo retirando uma caixa de fósforos de um dos bolsos sujos. Aquilo não era tabaco.

— Feliz ano longo — comentou o maloqueiro com a voz entrecortada pela fumaça, enquanto passava o cigarro a sua breve companhia.

— É… — concordou Olivo prendendo a respiração — parece que sim.

Recostando-se no banco de madeira podre, Olivo sentiu uma suave brisa atingir seu rosto, assistindo pacientemente a mais um episódio de sua escolha.


publicado em 23 de Janeiro de 2011, 05:00
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Danilo Barba

Repórter do Portal AreaH. Há 25 anos na mesma pergunta: o que está acontecendo? Lembra-se diariamente da morte para sair da cama. No Twitter, @criancasqueijo


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