Lugar de aprender é na escola foi a maior mentira que já te contaram

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Lugar de aprender é na escola.

Mentiram descaradamente quando te disseram isso. Seu pai, mãe, professoras, todo mundo. E não foi por mal. Eles realmente acreditavam nisso.

Depois dessa, várias outras mentiras vieram ao longo da sua vida, forjando um programa que roda até hoje dentro da sua cabeça.

Na escola é onde tudo começa. Lá, aprendemos um saco cheio de mentiras. Que precisamos ser obedientes. Que resistir é inútil (podemos espernear à vontade, mas, no outro dia, teremos que voltar). Que aprender é sentar e ouvir, e nada tem a ver com criar ou com liberdade.

Que alguém (o professor) é quem sabe, e sabe muito mais que a gente. Que a teoria ensina muito mais que a prática. Que certos conteúdos são importantes, como matemática, física e português, enquanto outros, como música e artes, não tem muita relevância para a nossa vida adulta. Que a competição faz mais sentido que a cooperação. E que se fizermos tudo direitinho, conforme previsto por outros, seremos recompensados e felizes.

Pronto. Estrago feito. Depois anos de escola, saímos devidamente encaixotados e prontos para reproduzir um sistema. Esse, em que vivemos. Hierárquico, baseado em poder e controle.

No livro , Augusto de Franco desenvolve uma metáfora à Matrix, em um sentido social. Conta que as pessoas reproduzem comportamento semelhantes - esses, que aprendem na escola - que deformam completamente o campo social em que vivem:

"Elas acham que o mundo social só pode ser interpretado por meio de um conjunto de crenças básicas de referência, que tomam por verdades evidentes por si mesmas, axiomas que não carecem de corroboração. Exemplos dessas crenças são as de que:
-- o ser humano é inerentemente (ou por natureza) competitivo.
-- as pessoas sempre fazem escolhas tentando maximizar a satisfação de seus próprios interesses materiais (egotistas).
-- sem líderes destacados não é possível mobilizar e organizar a ação coletiva.
-- nada pode funcionar sem um mínimo de hierarquia."

Desde muito cedo, agimos com base nessas crenças comuns e nada científicas. Reproduzimos uma realidade deformada. Em conjunto, estamos perpetuando cultura patriarcal européia em que estamos inseridos. Humberto Maturana, neurobiólogo chileno, desenvolveu estudo profundo da criação e reprodução dessa cultura no livro Amar e Brincar: Fundamentos esquecidos do humano:

"Em nossa cultura patriarcal, repito, vivemos na desconfiança da autonomia dos outros. Apropriamo-nos o tempo todo do direito de decidir o que é ou não legítimo para eles, no contíuo propósito de controlar suas vidas. Em nossa cultura patriarcal, vivemos na hierarquia, que exige obediência.
Afirmamos que uma coexistência ordenada requer autoridade e subordinação, superioridade e inferioridade, poder e debilidade ou submissão. E estamos sempre prontos para tratar todas as relações, humanas ou não, nesses termos. Assim, justificamos a competição, isto é, o encontro na negação mútua como a maneira de estabelecer a hierarquia dos privilégios, sob a afirmação de que a competição promove o progresso social, ao permitir que o melhor apareça e prospere."

Pois é. Mas nem tudo está perdido.

É fácil de ver que estamos vivendo um período intenso de transição, de uma sociedade hierárquica para uma sociedade em rede. Essa sociedade, que começou a se apresentar, funciona baseada em uma outra lógica de abundância e cooperação onde, nós -- como seres sociais que somos -- nos reconhecemos e ajudamos, em um ciclo de trocas constantes. Custamos a acreditar nela -- porque rodamos, desde pequenos, o programa do patriarcado e da hierarquia.

Com o exemplo das escolas, vislumbramos o malware que opera na nuvem social. E é com o mesmo exemplo que enxergamos o começo de uma revolução.

Muita gente está por aí, questionando o sistema tradicional de ensino e o que entendemos por escola. Pensando em mudanças, alternativas, novos meios de ensinar e aprender. Esses questionamentos mostram uma coisa clara: não só as escolas estão sendo questionadas, mas toda uma estrutura posta.

Ninguém quer mais reproduzir e obedecer. Queremos liberdade. Questionar o que nos dizem, trilhar nossos próprios caminhos, criar novos. Isso se reflete na crise do ensino tradicional, dos antigos modos de trabalho, nas estruturas das grandes corporações. Não estamos falando de coisas separadas.

Para começar a cutucar o assunto, nós, do Cinese -- uma plataforma de aprendizado colaborativo - resolvemos produzir um vídeo de aniversário de 1 ano, com a ajuda da Luiza, videomaker do PdH. Isso foi o que conseguimos:

Link Vimeo

E se aprender fosse sinônimo de inquietude?

A ideia por trás foi a contar um pouco do que descobrimos ao longo desses 12 meses de vida, depois de abandonarmos os empregos seguros e embarcarmos nessa outra lógica: de abundância ao invés de escassez, de colaboração ao invés de competição. De conhecimento livre ao invés daquele encaixotado.

No vídeo, falamos do que é aprender para nós. E que nada tem a ver com escola. Tem a ver com gente. Com encontro, troca e conexão. Aquela fagulha que faz coisa boa e nova vir à tona. Que desperta uma vontade grande de descobrir mais de algo. Conhecer mais e mais gente diferente. Buscar novas referências. Frequentar novos cafés. Começar um outro livro. Escrever um poema.

Agora, além de contar da gente, queremos saber de você. Queremos que você lembre de um momento que te abriu um mundo de possibilidades. Que fez você mudar de óculos e enxergar coisas que não enxergava antes. Que te fez aprender mais do que qualquer aula na escola.

Queremos ver. É só postar no facebook, twitter ou instagram uma foto que represente esse momento para você, com a hashtag #foinessahora. Faremos o mesmo na fanpage do Cinese durante essa semana, assim:

cinese

Cinese

Com todas as fotos que recebermos até o dia 17 de agosto, vamos fazer arte.

Um muro de colagens no centro de São Paulo, com a ajuda de artistas independentes, como o Denis Diosanto. Junto das fotos, vai a seguinte frase, bem grande: “foi nessa hora que descobri".

Com a foto, você pode nos contar o que. Ou não. O que importa mesmo é que aconteceu.


publicado em 09 de Agosto de 2013, 08:46
File

Anna Haddad

Acredita no poder de articulação das pessoas e numa educação livre e desestruturada. Entrou em crise com o mundo dos diplomas e fundou a plataforma de aprendizagem colaborativa Cinese. Tá por aí, nas ruas e nas redes.


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