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Garçom, tem um estetoscópio na minha comida!

No começo deste mês, o Governo do Estado de São Paulo aprovou uma lei que proíbe os profissionais de saúde de “circular fora do ambiente de trabalho vestindo equipamentos de proteção individual com os quais trabalham, tais como jalecos e aventais”.

A medida foi comemorada por toda a comunidade que tem plena noção de que médicos são arrogantes, competitivos, preconceituosos e egoístas. Diz-se também que eles são chatos, feios, bobos e não sabem sambar. Com tudo isso, nada mais justo que cerceá-los, intimidá-los e pressioná-los, certo?

Após a aprovação da lei, mal escrita e mal interpretada, uma enxurrada de declarações dos apedrejadores de médicos-que-pensam-ser-deus apareceram blogs, sites de notícias e redes sociais. Todos comemoraram o "basta" em um grande "Medicina, ô bosta!"virtual.

O médico e o montro: a ficção que, neste caso, não imita a vida

Como parece ser senso comum, me vi na obrigação de trazer o assunto para a grande ágora saco-roxística, esta taberna de família onde os estivadores do nosso Brasil podem ventilar qualquer questão de forma livre de condicionamentos.

Não durmo há mais de 24 horas

Passei a noite em uma das quase vinte Unidades de Terapia Intensiva do Hospital das Clínicas. Não é a considerada "noite ideal" entre os jovens com a saúde mental em dia, mas eu acho um tesão. Ao fim de cada plantão, após passar os casos para o próximo médico, saio do hospital com brilho nos olhos pela noite geradora de méritos, ponderando o possível benefício trazido àquelas pessoas escondidas entre os monitores, bombas de infusão, ventiladores e máquinas de hemodiálise.

Mal vi a luz do Sol e percebi que a rua do HC estava tomada pela imprensa (e eu não lembro de nenhuma celebridade internada na casa, por esses dias). Eram câmeras apontando de forma inquiridora para os médicos, pessoas me olhando torto na rua. "Quem esse moleque pensa que é pra andar por aí de branco, estetoscópio no pescoço e tudo o mais? Será que ele não sabe do crime que está cometendo contra a humanidade ao libertar no coração de São Paulo todas aquelas bactérias em seu jaleco? Alguém prenda esse irresponsável!".

Cenas parecidas vem se repetindo quando saio de casa em direção ao hospital, nos últimos tempos. Nesses casos, o raciocínio deve ser o oposto: eu estaria levando hordas de microorganismos urbanos para o ambiente etéreo e imaculado do hospital.

Custo a acreditar que as pessoas realmente considerem os médicos criaturas tão desprovidas de intelecto que poriam a vida de seus pacientes (e todo o seu trabalho) a perder por preguiça de tirar uma peça de roupa ou por orgulho de andar na rua com ela. Digo o mesmo em relação a expor-se (e a seus familiares) a algum risco, pelos mesmos motivos.

Link YouTube | Pode ter certeza que a medicina no Brasil é mais profissional que isso

Seria esse, o médico, aquele chato que fica incentivando as pessoas a lavarem as mãos (entre outros hábitos que comprovadamente diminuem os riscos de infecções), mas que adoram passear por aí com seus jalecos infectados sem lenço e nem documento? Talvez tenhamos que considerar a hipótese de que, às vezes, esses caras sabem o que estão fazendo.

Dinamitando lendas urbanas da Medicina

1. Não usamos branco por ser mais limpo ou para causar a impressão de limpeza. Essa interpretação foi incorporada e é completamente simbólica. A roupa branca não passa de um uniforme, uma forma de identificação dos profissionais da saúde, assim como a cor também pode denotar “paz” em alguns lugares, e “luto” em outros.

O jaleco que usamos para atendemos pacientes não é mais limpo ou mais sujo que o resto das nossas roupas. Se assim fosse, que justificativa haveria para os profissionais que usam roupas inteiramente brancas, em vez do jaleco (e obviamente não se despem para voltar pra casa)? Sendo assim, o branco é dispensável,  tanto que alguns médicos e outros profissionais têm abandonado essa tradição.

2. O jaleco branco, na maioria dos contextos, não é EPI (Equipamento de Proteção Individual). Ao realizar procedimentos com risco de contaminação ou procedimentos estéreis, os profissionais de saúde usam EPIs de verdade, que são roupas internas do centro cirúrgico e de algumas UTIs, como aventais estéreis (que, pasmem, nunca são brancos), luvas, máscaras, gorros, óculos.

Se o jaleco branco fosse EPI, não faria nenhum sentido, por exemplo, o seu uso pelas psicólogas dos hospitais, que não realizam nenhum procedimento, nem entram em contato com material biológico.

"Que é? Só tô aqui, tomando um Sol entre um paciente infectado e outro" (isso sim você nunca verá acontecendo)

3. Os médicos não gostam de andar com seus uniformes de trabalho para “sentirem-se superiores”. Usam tanto como os policiais, bombeiros, garis, pilotos de avião, seguranças, operários de fábrica, pedreiros e todo  mundo cuja a profissão exija um uniforme.

4. O estetoscópio apoiado no pescoço também não é uma afronta direta às pessoas que não fizeram medicina e, muito menos, um lançador de armas biológicas. Seja pela história da “necessidade de auto-afirmação”, ou por discursos de “controle de infecções”, o estetoscópio é outro mote freqüente de reclamações.

No restaurante do Hospital das Clínicas, mesmo antes da nova lei, os funcionários eram orientados a impedir a entrada de médicos portando estetoscópios no pescoço. Essa visão contaminou, inclusive, muitos dos colegas médicos, que acabaram por ver necessidade de “ficar à paisana” para sair do hospital ou para comer, seja por ter comprado a ideia ou para evitar os olhares de outrem.

Todos aprendemos, no segundo ano da faculdade, que devíamos limpar nossos aparelhos recém-tirados da caixa entre o exame físico de um paciente e o do próximo. Após limparmos nosso estetoscópio com álcool, ele provavelmente carrega menos bactérias que as roupas do gerente do self-service. Obviamente, o gerente do restaurante tem boas intenções, mas talvez a verdadeira arrogância esteja em criar regras sem informação suficiente.

A nova lei proíbe o uso de EPIs fora do hospital. Até aí, sem novidades. Quanto ao meu jaleco e meu fiel estetoscópio, esses continuarão andando comigo por onde me aprouver e a despeito de qualquer olhar de reprovação. Inclusive para comer.


publicado em 29 de Junho de 2011, 13:24
File

Lucas Pedrucci

Gaúcho expatriado, é pianista aposentado, jogador de rugby em fim de carreira, ex-oficial da FAB, paraquedista das categorias de base e meditante wannabe. Seu principal hobby é a Medicina, que estudou na USP e tem praticado no Hospital das Clínicas.


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