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Há cinco anos eu me detestaria

Eu mal me reconheceria se tivesse acesso a quem sou hoje, com meus tímidos, porém presunçosos vinte e poucos anos. Não vou longe nesta escavação rumo ao passado. Estou tomando como parâmetro aqui, apenas cinco, no máximo sete anos.

É, a verdade é que o moleque daqueles tempos não iria a nenhuma das festas às quais frequento de vez em quando. Ele não estaria ouvindo o bom e velho Tim Maia com a mesma paixão que eu ouço. Ele teria sono ao se deparar com os solos do velho Eric Clapton. Blues dos anos vinte, jazz e ragtime? Não, nem pensar. Vinícius de Moraes, Cartola e Noel Rosa? Só se fosse para dormir.

Ele não olharia aquela menina de óculos como eu olho hoje. Ele não ouviria aquela belezinha de uma cidade remota do sul como eu ouço. Ele sequer consideraria metade das propostas de sossego que me fazem reconsiderar muitos dos meus planos de solteiro para futuros brilhantes. Tenho certeza que não.

Diante de uma destas possibilidades, tenho convicção que ele torceria o seu estranhamente seletivo bico. E olha que ele não era nem de longe alguém na posição de poder escolher. Não mesmo.

Hoje, se ele tivesse a chance de me observar, mesmo que em silêncio, tenho certeza que ficaria enojado ao me ver rezando para ficar em casa aos finais de semana, hibernando até que chegue a segunda-feira. Tenho certeza absoluta que, se um dia ele sonhasse que eu estaria no meio do mato, meditando o dia inteiro em um retiro, ele pediria para ficar paralisado ali mesmo no seu tempo e nunca chegar até onde estou. Quanta chatice!

 

Tenho certeza também que ele jamais sairia da cidade onde cresceu ou viria morar em São Paulo, a antítese de tudo aquilo que ele considerava uma boa vida. Lembro que ele gostava da sua terrinha. Do conforto de onde estava. Da pseudo-certeza da eternidade das amizades que alimentava até então.

Lembro que ele sonhava chegar aos trinta anos tocando Angra ou Iron Maiden com seus amigos, fazendo churrascos. Comendo muita, mas muita carne. Nem de longe ele se imaginaria vegetariano. Nem de longe ele se orgulharia da posição onde estou agora. Certeza.

Tudo bem, garoto. Eu sei que você não tem culpa. O melhor que você tinha para imaginar o seu futuro eram aqueles gostos, aqueles amigos, aqueles sonhos. A gente esquece que qualquer projeção sobre o futuro é apenas uma reflexão sobre o que temos em mãos no presente, uma extensão da comodidade que a gente vive.

Às vezes, a pior coisa que se pode fazer é ser coerente. É ter medo de ser hipócrita. Querer fazer sentido, se manter fiel às origens. Nem sempre o melhor é ter tanta certeza.

E imaginar que daqui a dez anos vou rir de quem hoje eu penso que vou me tornar.

"Eu fui coerente o tempo inteiro dentro do jogo." –Você, perdendo o BBB da sua vida

Porém, meu velho amigo do passado, posso dizer-lhe uma coisa: ser vegetariano em 2013, no bairro de Perdizes, vivendo em São Paulo, não é tão ruim assim quanto lhe parecia naquele comecinho dos anos 2000.

Enquanto você estava aí, achando que ouvir Heavy Metal e variar um pouco os discos com Jet, White Stripes, The Strokes e cantar em uma banda cover de Led Zeppelin eram a coisa mais transgressora do mundo, venho por meio desta carta despretensiosa decepcionar-lhe.

Transgressor mesmo é ser vegetariano e comer no Zé do Hambúrguer. Mesmo sem carne, o melhor hambúrguer de São Paulo.


publicado em 18 de Março de 2013, 09:10
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Luciano Andolini

Cantor, guitarrista, compositor e editor do PapodeHomem nas horas vagas. Você pode ouvir no Spotify. Também escreve no Medium e em seu blog pessoal. Quer ser seu amigo no Facebook e Instagram.


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