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The Heart Attack Grill e o poder protetor da ironia

Tomando como mote um restaurante chamado Heart Attack Grill, O Último Psiquiatra diagnostica todo o narcissismo da nossa sociedade.

I.

Você ouviu falar do restaurante americano chamado “Heart Attack Grill”? Algo como "Churrascaria Infarto"?

Pela segunda vez em dois meses um cliente do restaurante Heart Attack Grill, de Las Vegas, passa mal no meio da refeição e é levado para o hospital.

Hummm que delícia! Mais uma:

O Heart Attack Grill, em Las Vegas, Nevada, está sob inspeção minuciosa desde o princípio da semana, depois que um de seus fregueses sofreu um ataque do coração de verdade no restaurante, enquanto comia um Triple Bypass Burguer (Hambúrguer Marcapasso Triplo) .

E outra ainda:

(do canal CBS News) Mais um freguês passa mal durante refeição no Heart Attack Grill, restaurante de temática hospitalar de Las Vegas.

Parece que uma história tão boba dificilmente despertaria o interesse de alguém. Ainda assim estou prestes a colocar uma lupa sobre a questão.

Quem quer encarar o seu próprio lado negro?

Ataque cardíaco em andamento no Heart Attack Grill.
Ataque cardíaco em andamento no Heart Attack Grill.

II.

Você deve estar pensando que essa notícia em si é propaganda para o restaurante. Essa sua abordagem cínica não apenas coloca as duas vítimas de ataque do coração, como também todo o canal de notícias CBS News, a serviço da autopromoção de uma empresa. E você está certo. É só mais uma peça publicitária fingindo-se de notícia.

Mas a gente sabe o que o autor quer que a gente entenda, a questão é o que você quer entender disso: como é que essa história, assim como toda a cultura pop e as notícias pop, representa o preenchimento de um desejo?

Essa história não existe como informação em si. De fato, ela é deliberadamente enganosa — o freguês não teve um ataque do coração. Não há nenhuma informação ali. O caso existe para que você comente sobre ele — para que você tenha algo para falar com os outros, seja através de uma tela de computador ou cara a cara, porque se não fosse por essas histórias sem sentido da mídia, que incluem também todas as abordagens políticas, as pessoas não teriam nada para dizer umas para as outras e a sociedade entraria em colapso total de narcisismo hikikomori.

E é por isso que está correto dizer que a cultura pop não é um sintoma da nossa sociedade moribunda, e sim a sua heroica tentativa de sobreviver.

Então vai, tome aqui seu remedinho: o que você tem a dizer sobre esses babacas que tiveram um ataque cardíaco no Heart Attack Grill?

Primeira observação interessante: a reação instintiva é defender a empresa, no sentido pseudolibertário:

“Ninguém foi forçado comer lá!” e, “As pessoas não se responsabilizam mais pelas coisas que fazem!” e “Ei, seus babacas, como vocês vão comer em um lugar chamado Heart Attack Grill e acham que não vão ter um ataque cardíaco, hein?”

Esta postura não está necessariamente errada, mas o que diz muito sobre nossa época é que nossa reação instintiva não é dizer:

“Como é que deixam essas empresas escrotas venderem esse veneno?! será que eles não se sentem responsáveis?!”

O que leva a uma segunda observação interessante: esse posicionamento é apresentado como se fosse a opinião de uma minoria sábia e sensata contra as massas ignorantes — como se todos os demais responsabilizassem o Grill. Mas uma rápida olhadela nos comentários revela que ninguém responsabiliza o Grill, todos culpam os babacas. A única responsabilização que o Grill recebe é por ter usado a história como marketing.

Se você parar para pensar como estamos prontos para culpar a escória empresarial por tudo, dar-lhes imunidade num caso óbvio como este parece paradoxal.

Então a questão para o indivíduo é: por que é tão importante poder comer no Heart Attack Grill, ainda que admitindo que há uma boa chance de você receber exatamente aquilo pelo que está pagando? Vou me esconder debaixo de cama enquanto espero por sua resposta.

“Liberdade de escolha?”

Dica: esta nunca é a resposta.

Casa de um hikikomori, malucos japoneses que não saem de casa.
Casa de um hikikomori, malucos japoneses que não saem de casa.

III.

Você pode fazer uma lista dos “mecanismos de defesa” e tentar conectar cada um deles a desordens de personalidade específicas e isso vai ajudá-lo a entender o cônjuge que te abandonou ou o cônjuge que você nunca vai conseguir abandonar, mas a questão é que esses mecanismos de defesa não são para te proteger da dor. Eles claramente são péssimos nisso. Olhe em volta.

O objetivo dos mecanismos de defesa é impedi-lo de mudar. Para que depois do trauma da separação ou da perda, você ainda seja você. Mais triste/envergonhado/impotente/enfurecido/deprimido, tudo bem, contanto que você continue a ser aquele mesmo cara.

Isso é que faz o tratamento do narcisismo particularmente difícil: a característica número 1 da patologia é a preservação da identidade.

“Eu quero mudar”.

Não. Você quer ser mais feliz, claro, ter mais sucesso, sentir amor, beber menos, mas você quer continuar a ser você.

Só que não vai funcionar. A identidade que você escolheu é uma merda, pergunte a qualquer um. Mudança só é possível quando você diz:

“Quero parar de fazer os outros chorarem.”

O primeiro passo não é admitir que você tem um problema, mas identificar precisamente como você é um problema para os outros.

Mas vou poupá-lo desse trabalho, você também não vai conseguir, por causa da característica número 2 do narcisismo: a incapacidade de ver as coisas pela perspectiva do outro.

“Babaca, e você ainda tem a cara-de-pau de se dizer psiquiatra?”

E pergunto: domingo é o Dia das Mães, você comprou alguma coisa pra ela? Ah, sim, já entendi. Ela também é uma babaca.

Apetitoso? O quê?
Apetitoso? O quê?

IV.

Se você quer assistir essas defesas invisíveis e inconscientes se desenrolando bem na sua frente, ao vivo, de forma verdadeira, observe um americano adulto aprendendo uma segunda língua.

A não ser que você mude de sexo, nada mais fará com que você mude quem você é tanto quanto falar na língua de um-outro. Que horror! Prefiro vestir a cueca de uma outra pessoa, não, obrigado. Posso até cursar Espanhol I, porque é matéria obrigatória pra me formar da universidade, mas faço questão de não aprender nada.

“Bem, a ciência diz que você perde a habilidade de aprender línguas conforme fica mais velho”.

Mas, ué, babacas em outros países e babacas na CIA aprendem línguas depois de adultos, será que estão usando uma ciência diferente?

Um americano descreve outro americano fluente em francês dizendo:

“Oh meu Deus, ele é tão inteligente, ele fala francês e tudo!”

Mas essa afirmação é facilmente desmascarada como sendo uma defesa, no momento em que você pede para que ele descreva um francês que fale inglês:

“Bem, lá todos falam inglês.”

Ser bilíngue, nesse caso, é roubado do significado de inteligência porque é visto como uma coisa comum,... afinal de contas, é quem eles são.

Os Estados Unidos, enquanto país, é uma identidade de marca: para um americano, se ouvir falar em um sotaque que não é o dele, com um vocabulário que não é o dele, faz com que ele pareça não ser ele. É por isso que um americano tentando falar francês se sente envergonhado. Para o interlocutor francês, pelo contrário, parece que o americano não está nem tentando. Mas o americano está tentando sim... está tentando não virar francês.

“Argh, odeio esse seu papinho psicológico de botequim. Por que não faz como o Malcolm Gladwell e me dá umas dicas práticas de neurociência como 'levante-se antes do amanhecer' ou 'jogue basquete sem parar'?"

Tudo bem, aqui vai um conselho concreto que vai acelerar seu aprendizado de uma segunda língua em seis meses: domine o sotaque primeiro. Mesmo antes de uma palavra sequer de vocabulário. O sotaque vai te ensinar o ritmo das palavras e da gramática – vai fazer com que seja aceitável para você aprender o vocabulário. E você vai pensar diferente.

Essa ideia americana de que os Estados Unidos são um país isolado e excepcional não é arrogância, é um viés cognitivo imposto desde o jardim da infância quando aprendem que existem apenas duas línguas no mundo, o inglês e todas as outras. O que também lhes ensina que um alemão é mais semelhante a um italiano do que um texano e um nova-iorquino. E, se essa afirmação te fez parar e pensar se ela é verdade ou não, eu prevejo com 100% de precisão que você só fala inglês. Mal posso esperar pra ouvir suas ideias sobre política internacional na mesa do bar.

Assim que estiver fluente no sotaque, escolha um ator ou atriz estrangeiro que você admire e aprenda o idioma como se você fosse ele. Fale como ele. Esse truque funciona porque você vai estar pensando como uma outra pessoa, agindo como uma outra pessoa, e ainda assim, e ao mesmo tempo, você está se distanciando da ideia de mudança — estou fazendo isso, mas esse não sou eu, só estou fingindo. O bloqueio é removido porque não é “você” quem está fazendo aquilo. Ainda assim; e depois de um tempo, você vai se tornar aquilo — e a sociedade sai ganhando porque você vai odiar aquele cara que você costumava ser. C'est la vie.

O que nos leva de volta ao restaurante Heart Attack Grill . Todas as defesas psicológicas têm uma estrutura comum: a de que duas crenças legítimas, mas contraditórias, são sustentadas simultaneamente, uma de forma consciente e a outra inconsciente, alternando-se diversas vezes. Dessa forma, todas as possibilidades ficam cobertas. A mudança é neutralizada.

V.

“É, babaca, o que você esperava que acontecesse no Heart Attack Grill?”

Por que você esperava que seria assim? Atenção. Não é porque você sabia que a comida não era saudável. Digo isso porque, de fato, você não sabe qual é a comida. Você não tem ideia se um Hambúrguer Marcapasso Triplo é melhor ou pior do que um Big Mac, exceto pelo fato dele ser vendido como pior. Se o nome fosse Hambúrguer Saudável Duplo, você acreditaria também ou o seu cinismo só funciona em uma direção? (Deixa eu conferir o calendário: sim, sempre na mesma direção).

“Bem, tem uma foto gigante no hambúrguer na matéria..."

Pode correr se quiser, seu tolinho, mas eu ainda assim te pego. A verdade é que você acreditou que o hambúrguer era extra-não-saudável assim que leu o título da reportagem, antes mesmo de saber qualquer coisa a respeito. Então porque está fingindo que não?

Pense nesta outra manchete e medite:

“Homem Sofre Ataque do Coração no Hooters”.

Hooters é um restaurante onde todas as garçonetes são peitudas. A comida lá é um veneno, mas a manchete deixa implícito que a culpa é dos peitinhos das garçonetes. Mas o Heart Attack Grill tem garçonetes igualmente sensuais, e ainda por cima fantasiadas de enfermeiras, e ninguém botou a culpa nos peitinhos.

Portanto, a sua expectativa é fruto unicamente dos nomes dos restaurantes e de suas conotações: “peitos”, no caso do Hooters, ou “infarto”, para o Heart Attack Grill. Não é a realidade — e sim as conotações das palavras.

Mas conotação de palavras é a razão de ser do branding. Então, a frase “É, babaca, o que você esperava que acontecesse no Heart Attack Grill?” revela nosso anseio secreto em relação à marca: de que ela seja verdadeira ao ponto de ter poder de influenciar a realidade.

Percebo sua resistência a essa ideia. O simples ato de dar um nome não confere poder, certo? Para isso, o restaurante teria que fazer por onde. Bem, agora ele fez. Você ainda acha que deveria ter o direito de comer lá?

Garçonetes do Hooters.
Garçonetes do Hooters.

VI.

O nome “Heart Attack Grill” é pra ser irônico? Os atendentes se vestem sensualmente, como enfermeiras e médicos, o que é irônico, pois servem comida gordurosa que contraria a indumentária deles. Mas o nome... não é irônico, certo? É literalmente correto, não?

Errado. O nome Heart Attack Grill é irônico porque a expectativa é que você não vai sofrer um ataque do coração lá, e a razão de você saber que não sofrerá um infarto no Heart Attack Grill — e é aqui que você tem que julgar a força da sua alma — é justamente por se chamar Heart Attack Grill. É por isso que comer lá é seguro.

Talvez pareça um pouco confuso porque, de fato, se você tiver um ataque do coração no Heart Attack Grill, inevitavelmente alguém que assiste Zorra Total vai dizer:

"Ô bobão, o que você achava que iria acontecer?"

Bem, não isso... Achei que o nome era irônico.

Deus pode até estar morto, mas ainda não estamos prontos para iluminar o abismo com uma lanterna e ver o quão abissal ele é; então criamos uma distância entre nós e a escura abismidão da realidade, e por “distância” quero dizer literalmente “alguma outra entidade onipotente”. E aí fazemos com que essa entidade exerça seu poder — que prove seu poder — através da linguagem.

Se uma coisa é chamada Heart Attack Grill é porque dificilmente poderia provocar um infarto, porque ninguém jamais permitiria tal coisa, tanto quanto eles jamais permitiriam um bordel chamado “Casa da Sífilis” — a menos que fosse realmente livre de sífilis. O último passo é o mais difícil de entender e o mais fácil de executar — é a lógica atemporal do narcisismo, também conhecido como pensamento mágico: o nomear da coisa previne que torne-se verdade. Dizer que é irônico tem efeito protetor.

É por isso que culpar os babacas é pseudolibertário. Parece que não queremos quaisquer restrições à nossa liberdade, queremos ser livres para fazer coisas mesmo sendo prejudiciais; mas tal liberdade depende sempre da supervisão de “alguma outra entidade onipotente”. Queremos nossa liberdade para consumir comida não-saudável... desde que a carne seja inspecionada pelos órgãos públicos de saúde e classificada como nível A, e preparada não por mexicanos ilegais sem treinamento em lavar as mãos, mas por chefs — desculpe, não está preciso:

“...preparada por mexicanos ilegais contanto que chamados de chefs”.

Queremos que as coisas sejam tão regulamentadas quanto possível, mas com duas condições absolutas:

1. Tem que haver emblemas de alguma entidade onipotente que olhe por nós, como um selo de excelência, uma classificação de qualidade do governo, ou a palavra “chef”;

2. A implementação do poder deve ser invisível para que haja espaço para que discordemos dele. Assim, no último passo desse processo cuidadosamente planejado, ainda podemos nos gabar de nossa pretensa liberdade de escolha.

Em outras palavras, o fato de termos permissão de escolher algo perigoso deve significar que não é realmente perigoso. Ou, em termos mais precisos e um pouco mais confusos: o fato de termos permissão para escolher algo perigoso torna-o seguro. E graças a Deus. “Deus não existe.” Oh, isso explica toda essa voz passiva.

Ironia?
Ironia?

Notas:

Dois exemplos simples desse processo.

1. Para pessoas normais que não cresceram em uma fazenda, beber leite da vaca vai parecer mais asqueroso do que bebê-lo de uma caixinha. O argumento é que não está “pasteurizado e homogenizado”, o que é tanto uma verdade como uma mentira, porque você sabe que depois da pasteurização o leite é despejado de um tonel industrial para a embalagem, mas se você tivesse que escolher entre beber o leite de uma caixinha comprada no supermercado ou do bocal de um tonel industrial, você ainda assim escolheria a caixinha. A caixinha estampa claramente símbolos de regulamentação e controle, ao contrário do bocal do tonel, que é real demais para se beber dele.

2. Mesmo se concordarmos que “os impostos estão muito altos”, a importância psicológica de baixá-los é que as regulamentações que conhecemos continuariam a existir do mesmo jeito, mas estaríamos mais distanciados delas; tanto que uma pessoa que não paga impostos, ou está fora do sistema, pode até sentir que não é mais influenciada por esses controles; mas é claro que tudo o que toca ainda é o resultado dessas forças — seu chapéu de caçador e a sua jaqueta camuflada têm sua flamabilidade regulamentada, algumas tinturas nocivas à saúde não puderam ser usadas, as fábricas foram inspecionadas para maior segurança; a pessoa sabe tudo isso mas bloqueia de sua percepção.

“Sou totalmente autossuficiente.”

Gente autossuficiente.
Gente autossuficiente.

Ok. Então, por um lado, ela sabe (inconscientemente) que desfruta da proteção das regulamentações e, por outro, sabe (conscientemente) que está completamente livre da influência delas. Isso só vai mudar no dia em que, por exemplo, o chapéu pegar fogo.

Não é uma crítica, mas uma explicação: como esse repúdio/pensamento mágico é uma defesa narcisista, podemos prever que essa pessoa tem outros problemas narcisistas, como álcool, raiva, misoginia, etc.

Para ser claro: o que faz disso uma defesa não é que essa pessoa esteja errada, mas que ela está certa, sua reclamação é válida — os impostos podem de fato estar muito altos; o governo, grande demais; as regulamentações, muitas, etc. Se acreditasse em algo patentemente falso, ela estaria se auto-enganando.

A defesa é eficaz apenas se duas verdades incompatíveis são sustentadas simultaneamente, alternando-se de acordo com as necessidades, e neutralizando assim qualquer possibilidade de mudança.

* * *

Traduzido por Bartira Galati e revisado por Alex Castro. Versão original, twitter do autor. Outros textos dele publicados no PapodeHomem:


publicado em 23 de Julho de 2012, 05:48
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O Último Psiquiatra

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