Hollywood way

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Então, um dia te disseram que era interessante essa tal de vida real. Ledo engano. Questão é: você fuma Hollywood?

Tenho pra mim, como referência de ideal de vida, os comerciais do Hollywood. Não de Hollywood, o lugar (ou "estado de espírito"). Do Hollywood, o cigarro. Não, nunca fumei. Ainda vendem esse troço, aliás? Bom, sem os tais comerciais isso não tem a menor importância.

Anos 80, século passado: cor, textura e odor característicos. TVs valvuladas, imagem puxando para os tons de verde. Criança assistia novela das oito, e com isso também os comerciais – até outro dia, reclames.

Vibe correção política distante ainda uma década, tinha glamour o ato de fumar. Proibido proibir? Só como exceção, devidamente musicada. E lhes apresento o fumante hollywoodiano, bastão branco entre os dedos: numa ponta brasa e fumaça, noutra alguém senhor do próprio destino.

Link YouTube | Joe Lynn Turner no vocal (ex-Deep Purple).  Dave Coverdale participou em outro.

"Go for the Hollywood way" era uma das trilhas. Convite irrecusável.

Faz lembrar, hoje, a piada em que duas meninas pedem presentes de Natal: uma quer uma Barbie, a outra um OB. "Pra que serve um OB?", a primeira pergunta. A segunda responde: "Nem imagino, mas na televisão dizem que com OB a gente pode ir à praia, andar de bicicleta, andar a cavalo, dançar, ir à piscina, correr, fazer um montão de coisas legais…"

Menstruação à parte, sempre foi como me senti, ainda entre a puberdade e a eterna adolescência, vendo aqueles comerciais. Um dia chegaria lá, no bolso um maço de Hollywood.

Pena, minha mãe fumava Galaxy. Às vezes Continental. Sim, já passei por terapia.

No limits
mezzo
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Pilotar um Fórmula 1 no deserto, na neve (com direito a pit-stop), num porta-aviões? É como se as engrenagens do mundo estivessem a serviço exclusivo do prazer do fumante alfa. Concessão feita aos níveis de nicotina, alcatrão e monóxido de carbono, momentaneamente exibidos e solenemente ignorados, o mote é "". Uma coisa Álvaro Garnero, Rico Mansur, se dispensassem a coxinhice e no café da manhã decidissem encarnar o Tony Hawk por um dia.

Brodagem, gente bonita, balões, asa-delta? Hollywood era vento na cara. Enfisema pulmonar é para os fracos. Esportes radicais, todos os conhecidos mais meia dúzia provavelmente inventada pelo povo do marketing especificamente para fins propagandísticos.

Ao som de Journey, Whitesnake, Heart, Van Halen ou outro arena-rock-farofa comriffs calculados à perfeição. Melhor ainda, ao som de "Eye Of The Tiger" ou "Burning Heart", pérolas do Survivor. Atrás dessas canções só não levanta a bunda do sofá quem já morreu. Claro, fazer o Rocky dando jabs no ar é opcional.

Link YouTube | 9 comerciais clássicos de Hollywood (aqui todos desde 1970). Veja a lista de músicas usadas.

Isto era Hollywood.

"O sucesso", complementará tossindo o nostálgico leitor, talvez lamentando menos a perda da inocência e mais a perda de referência. Um pouco mais cinza o mundo, passado virou fumaça e não há onde jogar a bituca.


publicado em 14 de Maio de 2011, 11:00
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Erico Verissimo

Serial father, sistemeiro desenvolvimentista computacional, pessoa humana nas horas vagas. Ateu praticante, corintiano devoto, sempre com fé na vida. Moço casadoiro, aliança no dedo já há uma década. Antecipando a crise dos 40. Jênio incompreendido, vidraça fantasiada de estilingue. De tudo um pouco e mais um pouco em verossimil.wordpress.com ou em @verossimil.


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