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Homem com depressão pós-parto | Um relato e uma canção

No clipe "Feliz é a estrada" a dupla Apráticos traz relatos sobre as dores masculinas. Em entrevista, Flávio Delli fala sobre a depressão que veio com o nascimento do filho.

Homens, em sua maioria, não sofrem o trabalho de parto, mas também podem ter depressão pós-parto, pós nascimento do filho.

Nas mulheres a depressão pós-parto atinge de 10 a 15% das mães. Como nos escreveu o médico Antônio Modesto, "o que é pouco conhecido é que homens também podem ter depressão pós-parto, embora em proporção menor: cerca de cinco mulheres para cada homem acometido.

O quadro depressivo que se manifesta geralmente de quatro a seis semanas após o parto e alcança um pico dos três a quatro meses de nascimento do filho."

Os motivos de uma depressão pós-parto, podem ser vários. No caso das mulheres, a queda drástica no nível dos hormônios (estrogênio e progesterona) contribui para que o quadro seja mais frequente e mais grave. No caso masculino, as causas tendem estar mais relacionadas ás mudanças do contexto.

Flávio Delli, 35 anos, músico da dupla Apráticos (formada junto de George Costa) viveu esse quadro depressivo na pele e demorou para entender do que se tratava, profissionais de saúde que acompanhavam os sintomas, nem levantaram essa possibilidade.

Desse processo de compressão e cura, nasceu a música Feliz é a estrada.

Como é a depressão pós-parto em homens?

Em conversa com a dupla, pedimos para Flávio contar como foi lidar com essa dor e superá-la:

"Quando minha esposa estava grávida, eu estava muito feliz de ter meu primeiro filho. Ela se preparou fez terapia pré-parto e me disse: minha psicóloga falou pra você fazer também.

Na minha cabeça, pra mulher fazia muito sentido, porque todo mundo fala da depressão pós-parto. Mas, pra mim, não fazia sentido nenhum porque eu estava bem e achava que minha vida não ia mudar nada.

Isso era meu consciente, meu inconsciente deveria estar fervendo: sua vida vai virar de cabeça pra baixo, sua perspectiva vai mudar muito.

Um mês antes do meu filho nascer eu comecei a sentir umas agulhadas pelo corpo inteiro. Era espaçado…

Meu filho nasceu e eu fiquei na maternidade uma semana porque ele teve icterícia. Na maternidade eu não senti nada. Eu estava pronto para aquela guerra e fiquei bem. Quando eu voltei pra casa, voltaram essas agulhadas no corpo inteiro.

Eu fui na neurologista, dermatologista, alergista. E “não era nada”. Me encaminharam para psicólogo e psiquiatra. O negócio estava ficando tão feio que eu acordava de manhã e dormia a noite com agulhadas.

A única coisa diferente na minha vida era que eu tinha meu primeiro filho. Ai eu comecei a suspeitar que pudesse estar relacionado.

E essas agulhadas continuaram que eu comecei a ficar deprimido. Não tinha vontade de acordar, porque eu não aguentava acordar e tomar agulhada. 

Não achava na internet nada a respeito disso. O psicólogo, o psiquiatra, eles não sabiam, nunca tinham tratado isso. 

Então eu comecei a ter um negócio que muita mulher tem na depressão pós-parto: eu sentia “nossa eu não estou conseguindo curtir meu filho. Será que eu não estou amando meu filho? Que coisa horrível!”

Eu estava tão feliz de ter um filho um mês antes de ele nascer, como que do nada eu tenho essa sensação?

Pra você ver, eu lembro que eu tinha uma foto dele no celular e toda vez que eu olhava aquela foto me dava uma angústia porque eu lembrava que eu não estava conseguindo curtir meu filho.

Então eu pesquisei na internet e achei que existia esse fenômeno: depressão pós-parto masculina. Eu nunca tinha ouvido falar na vida, mas descobri que isso era muito mais frequente do que se imagina.

Eu vi algumas reportagens de homens que o filho estava com 5 anos e que tiveram depressão pós parto desde o nascimento e que ela não foi embora. Isso me assustava bastante então eu comecei a tratar. Fui em psicólogo, fiz terapias alternativas... 

Foram oito meses de terapias e também voltei a fazer esporte. As agulhadas foram embora primeiro, em certo momento a depressão também. Um dia eu acordei bem e, a partir de então, a melhor parte do meu dia é estar com ele, com meu filho. 

Trazendo para origem dessa depressão, acho que eu não estava preparado para essa mudança de perspectiva, eu tinha um milhão de questões para tratar da minha vida inteira, que vieram a tona com meu filho nascendo."

Feliz é a estrada

 

George Costa, o outro membro da dupla, foi pai mais ou menos na mesma época. Ele fala sobre como as crises desencadeadas pela mudança de ser pai foi dando forma a canção e ao álbum. 

"Eu me vi em uma série de crises: de como me colocar como pai, de como lidar com as emoções, puerpério, pressões, angústias.

Eu comecei a questionar e me vi não conseguindo colocar pra fora minhas emoções e foi quando eu comecei a olhar pras coisas das masculinidades e a perceber que tem tudo a ver com o que a gente aprende ao longo da nossa vida: do homem que é provedor, que não chora, que é casca grossa, que não pede ajuda, que não fraqueja, que não é vulnerável.

A letra da música nasceu mais ou menos nesse processo,

Eu jogo tarô e decidi usar o tarô pra entender um pouco mais e escrever o arranjo da música. E foi nesse jogo que eu consegui tirar essa conclusão de que a música não se tratava apenas de um caso, de uma situação de depressão ou de um relato do Flávio, ela se tratava de um universo dessa masculinidade tóxica. 

O arranjo musical tem toda uma direção um tanto mais dura que vai ficando mais melodiosa, mais leve. e ai veio a ideia de no clipe da música poder falar mais sobre questões, trazer frases de outras pessoas que também estão nestes estudos para poder trazer mais amplitude pra esse assunto que carece muito de discussão e que é a raiz de uma série de males que a gente vê. "

O clipe ainda levantas outras questões importantes como o abuso sexual cometido contra meninos e pode ser usada como ferramenta, como um gatilho para abrir conversas entre amigos, entre rodas de homens. Para trazer a luz temas que, no escuro, atravessam a vida de tantos homens.


publicado em 26 de Novembro de 2020, 11:29
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