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Homens por trás da História | José Adão, a ditadura e o movimento negro

Fundador do Movimento Negro Unificado, Adão é um nome da história brasileira que precisa ser lembrado.

Por trás dos livros de história, com nomes de governantes e reis, estão as pessoas comuns’, gente que veio do povo, e que nem sempre são lembrados. 

No poema “Perguntas de um Operário Letrado”, o dramaturgo alemão Bertolt Brecht imaginou as perguntas de um operário que ao ler os livros de história notava a ausência dos trabalhadores nessas narrativas. Neste sentido, hoje eu queria lembrar a história de um homem que, apesar de pouco falado, ajudou em importantes conquistas na luta por direitos da população negra no Brasil. 

Não muito diferente do que lê hoje nos jornais, na década de 70, a ditadura militar torturou e assassinou o feirante Robson Silveira da Luz, acusado de roubar frutas depois de sair de um baile black. No mesmo ano, quatro garotos jogadores de vôlei foram discriminados no Clube Regatas do Tietê e o operário Nilton Lourenço foi morto pela Polícia Militar no bairro da Lapa, em São Paulo. 

No dia 07 de julho de 1978, um grupo de pessoas negras ocuparam as escadarias do Teatro Municipal de São Paulo para denunciar os casos e resistir contra o regime imposto. Dali, saiu a ideia de criação do Movimento Negro Unificado, o MNU.

Para divulgar o lançamento do seu álbum "AmarElo, sua mais recente criação, Emicida fez dois shows naquele espaço. Em determinado trecho do show, chamou a atenção para os envolvidos na luta contra o racismo no país. E, assim, pediu que os representantes do MNU se levantassem para serem aplaudidos pela platéia. Entre eles, estava José Adão, hoje um senhor de 64 anos. 

Foto por Lucas Veloso

Em maio deste ano, encontrei com o Adão para fazer algumas fotos e conversar um pouco sobre sua trajetória no movimento negro. No encontro, ali no centro de São Paulo, ele lembrou com detalhes das primeiras movimentações exigindo do estado a responsabilidade por mortes injustas de pessoas negras, reflexo do racismo estrutural do estado. Nomes, datas e lugares pareciam frescos na memória dele.

José Adão é um destes homens que fazem parte da história e que precisam ser lembrados.Nascido em Minas Gerais e criado na periferia da zona leste de São Paulo, ele chegou na região em 64, mesmo ano em que começou a ditadura militar no Brasil. Na época, foi morar na Vila Nhocuné, com 9 anos. Na década de 70, se mudou para o atual bairro, Artur Alvim. Aos 27 anos, casou e foi para o Butantã, zona oeste. Anos depois, retornou a região de origem.

Adão foi um dos fundadores do Movimento Negro Unificado (MNU), iniciativa que pedia urgentemente o fim da violência policial, parte do racismo contra os negros.

Sua trajetória profissional inclui trabalhar nos Correios e fazer pesquisas de mercado. Atualmente ele segue na ativa e hoje trabalha com educação, desenvolvendo jogos pedagógicos. 

Desde jovem começou a atuar em movimentos sociais. Para ele, a criação do MNU aconteceu em um momento tenso para o país, a Ditadura Militar. No período, casos de racismo precisavam ser denunciados e o movimento buscava que o Estado brasileiro assumisse a responsabilidade pelos casos e tomasse providências.

O movimento que ele ajudou a criar atuou em passeatas pela abertura democrática, pela anistia dos perseguidos na ditadura, além disso, ajudou nos atos por garantia de direitos dos operários na região metropolitana de São Paulo.

Enfim, Adão é um desses homens possíveis que vale a pena conhecer. Ele uma figura importante sempre, mas sobretudo em tempos que parlamentares como Eduardo Bolsonaro (PSL) consideram a possibilidade de "um novo AI-5". Isso mesmo. Um deputado eleito falou com naturalidade sobre aquilo que considerado uma das principais medidas de repressão da ditadura. Pra quem só conhece de nome, o AI-5 tem como consequência o fechamento do Congresso Nacional, a retirada de direitos e garantias constitucionais, como a perseguição a jornalistas e a todos os cidadão que eram contrários ao regime.

Adão precisa ser lembrado em tempos em que o nosso ministro da economia, Paulo Guedes também acena a possibilidade, com as seguintes palavras“Não se assustem então se alguém pedir o AI-5. Já não aconteceu uma vez?”, durante uma entrevista em Washington, EUA. 

Escrevi esse texto ouvindo Ismália, uma das faixas do álbum AmarElo. A música tem participação da cantora Larissa Luz e da atriz Fernanda Montenegro. Destaco os versos

“Da cor dos quatro Racionais
Cinco vida interrompida
Moleques de ouro e bronze
Tiros e tiros e tiros
Os menino levou 111 (Ismália)
Quem disparou usava farda (meu crime é minha cor)”. 

Pra mim, nestas linhas, Emicida fala sobre o que Adão luta para não acontecer mais, mas que segue acontecendo. Ao mesmo tempo, estar contra as injustiças parece ser o que faz o sangue continuar pulsando. 


publicado em 09 de Dezembro de 2019, 00:00
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Lucas Veloso

Com formação em Jornalismo, é repórter no portal Alma Preta. Também é co-fundador da Agência Mural, veículo que cobre as periferias da Grande São Paulo.


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