Hurley: uma resenha (ou por que você deve aceitar que pessoas e bandas mudam)

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Todo mundo tem uma banda favorita. Seja você um beatlemaníaco de carteirinha que sabe que a sua opinião é provavelmente tão corrente no mundo como cristianismo, a monogamia e o McDonald's; um fã de Belle e Sebastian que sabe que ninguém no futebol vai saber do que você está falando e que numa loja de discos você sempre vai ter que repetir o nome da banda duas vezes; ou mesmo um apaixonado por Sapatos Bicolores que tem plena consciência de que ninguém por aí sabe de que raios você está falando quando cantarola “não me peça pra ter calma, mulher não tem alma, mulher não tem alma”, todos nós temos aquela banda do coração, aquela que nós gostamos mais do que das outras e cujo novo lançamento gera aquela ansiedade que se aproxima de um primeiro encontro, uma entrevista de emprego ou o delivery da comida do restaurante naquele sábado em que você convidou uma garota pra sua casa e resolveu fingir que cozinhava.

Link YouTube | Se você via MTV em 1994, vai lembrar dessa música e desse clipe.

E com essa banda nós criamos uma relação especial, claro. Algo muito pessoal e quase íntimo, já que aquelas são as músicas que nós gostaríamos de ter escrito, falando sobre as coisas que nós sentimos e que várias vezes dizem o que nós pensamos melhor do que nós poderíamos conseguir.

Eu, como fã do Weezer, por exemplo, posso garantir que nunca conseguiria descrever uma paixão tão bem quanto em “Falling for you”, não teria conseguido explicar o meu final de namoro com a perfeição de “The world has turned and left me here” e que se você algum dia ouvir “Pink Triangle” vai entender mais sobre um certo episódio da minha vida do que metade das pessoas que me conhecem. Mas bem, não vamos falar disso.

Minha banda, meus amigos

A questão é que essa relação, como toda relação íntima, gera um apego, algo que surge dessa amizade entre uma pessoa e uma banda. Afinal, após 15 anos me acompanhando em festas, bebedeiras, horas de estudo, começos e finais de namoro, cochilos no estágio e horas extras nos trabalho, os caras do Weezer são realmente como velhos amigos, com a diferença de que nunca discutimos por causa de dinheiro, nunca brigamos no futebol e eles nunca apareceram bêbados na minha casa de madrugada.

E exatamente como aconteceria com qualquer grande amigo, pode ser complicado pra qualquer um aceitar que depois de uma ausência de, não sei, alguns anos, eles voltaram completamente diferentes. Sim, bem diferentes.

"Tô andando com uma galera diferente, sabe como é?"

E é nessa hora, quando depois de anos e anos a sua banda favorita volta total e completamente diferente de como era antes (o Axl volta todo obeso e esquisito, o Ozzy volta regravando standards, o Weezer volta incluindo o Lil’ Wayne nas faixas, o Luis Caldas volta gravando rock progressivo) que é preciso ter cabeça fria pra entender que as bandas queridas, assim como as pessoas queridas, mudam. É, eu sei, é triste, parte o coração, mas elas mudam.

E assim como fazemos com aquele amigo que viajou como um solteiro inveterado e após seis meses na Bélgica voltou casado e com dois filhos (e eu sei, eu sei, foram só seis meses, mas é falta de tato perguntar qualquer coisa), tudo que nos resta fazer é aceitar e tentar aprender com o crescimento das pessoas – e das bandas.

Porque, afinal, assim como eu não iria ficar sempre no mesmo estágio ou sempre chateado pelo final do mesmo namoro, Rivers Cuomo não poderia ficar sempre escrevendo sobre os problemas da vida de solteiro (ainda mais depois de casado) ou compondo coisas como “Teenage victory song”, mesmo porque isso iria soar meio constrangedor depois dos 30. Ainda que não se possa garantir se isso vai influenciar o som de uma banda pra melhor ou pra pior, as pessoas que fazem parte dela mudam, e a única forma de continuar sendo sinceras com o que fazem (se é que se pode dizer alguma coisa desse tipo) é trazendo essas mudanças pra sua música, quer a gente goste ou não.

"Axl... É mesmo você, cara?"

Então provavelmente faz sentido que antes de dizer que um grupo se vendeu, se perdeu, está negando suas origens ou fez um pacto com o demônio em troca de um contrato com a Sony e um show com o Black Eyed Peas, lembrar que bandas, assim como pessoas, mudam. Fora que, com toda a sinceridade, acho que a maioria de nós já está crescida demais pra ficar xingando muito no Twitter, na boa.

A resenha em si

Apesar de ter sido recebido de forma hostil por alguns fãs (essa é a minha forma de dizer que depois do lançamento dele a banda recebeu uma proposta de 10 milhões de um fã pra parar de gravar), Hurley está bem longe de ser um disco ruim.

“Ah, mas não é um Pinkerton ou um Green Album”, pode dizer algum fã mais exaltado, mas esse é o tipo da crítica que esbarra sempre num problema: o Weezer nunca mais vai lançar um Pinkerton, porque apenas o Pinkerton era o Pinkerton (a frase é idiota, mas vocês entenderam). Da mesma forma que o Metallica nunca mais vai lançar um Black Album, os Stones não vão lançar outro Beggars Banquet e os Beatles muito possivelmente vão ter dificuldades pra soltar algo tão bom quanto Revolver, ainda que no caso deles as razões sejam mais óbvias.

Hurley (que mais do que um nome é uma imagem que vai ter uma aparência bem perturbadora na sua estante depois de um certo tempo, acredite em mim), ainda que diferente dos discos anteriores, não deixa de ser, ao menos tematicamente, um disco “padrão” do Weezer. Está lá o powerpop (ou light rock, ou emocore, ou seja lá como estejam chamando o som do Weezer essa semana) bem-humorado, um tanto quanto romântico e várias vezes adolescente que caracterizou a banda, assim como as pirações típicas do Rivers Cuomo e uma certa nostalgia que já vem nos trabalhos deles desde o Red Album, e que permite que o álbum reúna, como eu disse, todas as facetas clássicas da banda.

"Não é tão estranho quanto pode parecer..."

Se o pop-rock típico do Weezer está escancarado em faixas como "Ruling me" (a minha favorita do disco), “Smart Girls” e “Represent”, a melancolia típica da banda surge em “Unspoken” e “I want to be something”, e a metodologia Rivers Cuomo para falar de relacionamentos está em “Trainwrecks”, “Run away” e “Hang on”.

“Time Flies” e “Memories” já entram na mesma linha que, por exemplo, “Everybody’s got dangerous”, do Red Album, mostrando um Rivers mais nostálgico e preocupado, enquanto que músicas como “Where's My Sex?” e “All my friends are insects” deixam claro que isso não impede que ele faça trocadilhos envolvendo “sex” and “sox” ou grave no disco da banda uma música que eles tocaram vestidos de abelhinhas num programa infantil.

Ah, e tem também uma cover de “Viva la vida”, do Coldplay, no que eu só posso qualificar como um objeto musical não identificado, do tipo que só está no disco porque a banda acha a música divertida ou coisa assim.

Em suma. Hurley é um disco honesto. Não brilhante, não épico, não um disco que vai separar a sua vida em A.J.G. e D.J.G. (antes de Jorge Garcia e depois de Jorge Garcia), mas representa o Weezer fazendo o que sabe e sempre soube fazer: um rock pop e divertido, que em alguns momentos é sentimental, mas em outros é pura, total e completa curtição usando cabeças de inseto e dizendo coisas que você não poderia cantarolar num metrô sem parecer meio maluco.

E quem pode pedir muito mais do que isso de um bando de caras que você conhece desde a adolescência?

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publicado em 03 de Novembro de 2010, 08:39
Selfie casa antiga

João Baldi Jr.

João Baldi Jr. é jornalista, roteirista iniciante e o cara que separa as brigas da turma do deixa disso. Gosta de pão de queijo, futebol, comédia romântica. Não gosta de falsidade, gente que fica parada na porta do metrô, quando molha a barra da calça na poça d'água. Escreve no (www.justwrapped.me/) e discute diariamente os grandes temas - pagode, flamengo, geopolítica contemporânea e modernidade líquida. No Twitter, é o (@joaoluisjr)


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