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Imortalizando o imortal Maracanã

A primeira vez a gente nunca esquece. Numa tarde em 1993, o Brasil disputava com o Uruguai a última vaga para a Copa de 94. Maracanã lotado. 120 mil brasileiros.

Nunca esqueci a sensação, o frio na espinha, o espanto. Quem já foi no Maraca sabe. No momento em que você entra no estádio e caminha pelo anel, os túneis de entrada para as arquibancadas vão passando. E foi lá, num rápido olhar pra dentro do estádio que vi a grama pela primeira vez. Que arrepio! Como era verde!

Link YouTube | Que jogo, minha gente. Que jogo!

O dia estava muito ensolarado, o gigante brilhava, e eu, tão pequenino naquele mundo de gente e concreto. Depois desse dia, nunca mais consegui me manter distante daquele pedaço de terra que fazia me sentir tão vivo. Cansei de entrar em jogos sem encostar os pés no chão, carregado pela multidão.

Numa dessas, estava até de braço quebrado. Era final, não tinha jeito, arrisquei meu braço sem pestanejar.

Não existe pedaço de terra mais importante pro futebol brasileiro, não existe metro quadrado mais relevante para nossa relação com a bola, nenhum canto ou recanto deste país nos sintetiza como o Maracanã, nossa casa, um estádio místico, onde brilharam os maiores craques do gramado e de fora dele.

Mas como toda essa história começou? É isso que queremos desvendar junto com você.

Antes do Maracanã

Quando o Brasil ainda se chamava Pindorama e os tupinambás eram os donos da terra que hoje é um templo do futebol, o Maracanã foi  construído em uma grande região do Rio de Janeiro chamada pelos índios de Tijuca, que em Tupi significa “água podre”.

“Água podre” era, na verdade, um terreno pantanoso onde os tupinambás nunca se aventuraram muito.

Até que, em 1808, a família real se mudou para o Brasil e escolheu a Quinta da Boa Vista para moradia, aí todo mundo quis ser vizinho de D. João VI e o terreno voltou a ser valorizado. No final do século XX, o Derby Clube tomou o espaço e o abandonou pouco tempo depois, transformando-o em um depósito de carros do Exército e em terreno baldio usado pelas crianças como lazer (o velho lobo bateu bola lá).

Mas em poucos anos ele teria outro destino.

A construção do estádio

Ante-projeto de construção do Maracanã, ainda sem o formato real da arquibancada. Imagem do Lancenet (clique para ver maior)
Ante-projeto de construção do Maracanã, ainda sem o formato real da arquibancada. Imagem do Lancenet (clique para ver maior)

No final da década de 30, o presidente da FIFA -- Jules Rimet -- visitou o Rio de Janeiro e ficou tão encantado com a beleza da cidade que o Brasil foi candidato único da realização da 4ª Copa do Mundo, e assim começou a discussão sobre onde seria o novo estádio. Carlos Lacerda, político influente da época, indicou Jacarepaguá como melhor local, mas o prefeito Mendes de Moraes e o verador Ary Barroso sugeriram o terreno do antigo Derby, por ser o centro geométrico da cidade.

Entre os modelos que concorreram para a construção do estádio, até Oscar Niemeyer apresentou o seu, mas o projeto vencedor foi de outra equipe. Em agosto de 1948, foi lançada a pedra fundamental e começou a construção do maior estádio do mundo. A obra levou 2 anos para ser concluída e teve um custo de 250 milhões de cruzeiros, o que equivale hoje a 235 milhões de reais.

Ao contrário do que muita gente pensa, o maracanã não é redondo, é oval!  Antes do fim das obras, Carlos Lacerda espalhou um boato que o estádio iria cair no dia da inauguração. Para para provar o contrário, o prefeito Mendes de Moraes mandou os 3 mil funcionários pularem nas arquibancadas para mostrar que elas eram seguras.

Na verdade a obra só terminou 15 anos depois, em 1965, quando foi batizado oficialmente de Estádio Jornalista Mário Filho. Antes disso, foi chamado de Estádio Municipal do Maracanã e Estádio Mendes de Moraes. E foi nesse dia, na final da Copa de 50, que o estádio sentiu seu primeiro e maior silêncio até hoje. "O maracanazo", como foi chamado o vazio que se ouvia, após a derrota do Brasil para o Uruguai, marcou para sempre a história do futebol brasileiro. Mas isso foi só o começo, a bola tinha apenas começado a rolar no gramado do maior estádio do mundo.

A aura do Maracanã

Grandes mestres da literatura contribuíram muito para a criação dessa mística, mas talvez o maior deles não tenha visto nenhum jogo sequer. Nelson Rodrigues não enxergava um palmo à frente do nariz e, sem exagero, é possível que nunca tenha observado com nitidez o magnífico episódio humano da grande área.

Mas ia ao Maracanã ao menos todos os domingos. Sentava-se nas cadeiras, encolhido, sempre com alguém ao lado. Conversava o tempo todo. Era um truque ficar com amigos nas cadeiras do Maracanã. Começava o jogo e Nelson estava perguntando o que foi, quem é, onde foram, é mesmo?

Ouvia o radinho de pilhas do companheiro ao lado, espichava o ouvido, às vezes abria os braços, inúteis óculos de fundo de garrafa, boca aberta e salivar e esbravejava um palavrão.Nunca viu um jogo de futebol, sempre o ouviu pelos outros.

Mas fez uma literatura maravilhosa e delirante.

O tempo consagrou o Maracanã, sendo o palco onde brilharam os maiores craques do futebol brasileiro. Após a final da Copa de 50, o Maraca voltaria a sediar uma final da Copa, dessa vez de 2014, a tão falada Copa das Copas. É muita lenda pra um único espaço da cidade.

Ajude o projeto "Maracanã | Reconstruindo uma Lenda"

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Somos cariocas apaixonados pelo Rio de Janeiro e, por isso, criamos mini esculturas de madeira para montar em que cada peça narra um fragmento da vida de um de nossos monumentos históricos.

Desta vez, reconstruiremos a lenda do nosso maior Templo do Futebol Brasileiro, quando ainda se chamava Estádio Municipal do Maracanã, o maior estádio do mundo na época.

Em uma criteriosa investigação pela sua planta original, detalhes peculiares do seu projeto original de 1950 se revelaram, misturando-se com elementos que marcaram a passagem de grandes momentos pelos gramados sagrados. São memórias compartilhadas por gerações e milhões de brasileiros, que são incorporadas ao modelo tridimensional criado por nós, que representarão de forma poética o imaginário das nossas lembranças do antigo estádio.

Apoiando a campanha, você ajuda a eternizar as memórias mais marcantes de 10 em cada 10 brasileiros. Acesse a nossa página no Catarse e escolha sua recompensa.

A campanha é tudo-ou-nada e entramos agora na reta final!

Imortalizando o imortal
Imortalizando o imortal

E aí, vem com a gente imortalizar a lenda do gigante de concreto mais charmoso do Brasil?


publicado em 24 de Agosto de 2014, 06:00
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Bernardo Amaral

Carioca e saxofonista, ele é designer de produto e fundador da Terravixta. Também colaborou na fundação da Goma, ecossistema empreendedor na Zona Portuária do Rio de Janeiro.


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