Insight, ou "sobre amores de uma noite só"

A clareza de tudo o que precisa ser: tudo e só um pouco

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— Sabe do que eu mais gosto em você?
— Não sei, do quê?
— Dessa tua pinta aqui... – Afirmou levando as pontas dos dedos até o queixo dela, meio sem saber se podia mesmo bancar aquele gesto ainda clandestino, porém feito de gente que se conhece de outros tempos tantos. 

Ele sorriu (em) contentamento. Ela (se) escorreu sem expressão vigente pra declarar qualquer coisa. 

— De você, sabe do que eu gosto? Mergulhou nos olhos castanhos que a secavam.
— O que eu ganho se acertar? Tentou barganhar. 
— Nem que você tentasse ia me acertar, garoto! – Disse ela, fazendo um mistério desimportante. 
— Sempre quero arriscar, mas dessa vez me calo pelo teu suspense. 

Dois goles gelados, um trago quente depois da hora do jantar. Silêncio e olhar, vontade de rir e sair correndo pra deitar de mãos dadas no asfalto vazio dos carros, de gente a passar.

Um pro outro, toda eletricidade, quarto escuro no alto de um prédio com teto pra lua, e o direito de estarem distraídos a observar a transa de luzes vermelhas e amarelas. Enfim ela anunciou: 

— Eu gosto de como você arruma seus óculos, olha só que coisa mais boba!

O moço abriu um riso que foi se afrouxando, surpreso, pensando que a sua "interessância" viesse das tantas coisas que contou pra ela naquela noite fria na porta do bar da vila, desacreditado de encontrar.

Seu rosto se iluminou – uma frase um tanto quanto exageradamente usada em livros, entretanto, coube tão certa pra aquele momento singelo a dois.  

— Mesmo? Questionou aos risos. Por quê?
— Porque eu gosto de pensar que é pra me enxergar melhor. 

Sorriram e, em seguida, perigosamente ficaram sérios. Até que as mãos dele foram flutuando rumo a cintura dela, onde parecia já terem estado antes tamanha sintonia e reconhecimento sobre tecido – de algodão ou humanístico. Já os dedos da bonita da pinta foram brincar na nuca daquele homem de beleza simples, em real reencontro com um improvável bem-estar. 

De todas as viagens, bandas, móveis de madeira ou não, cachorros, gatos, signos, balas de caramelo, tiros na avenida, planos mirabolantes, cervejas geladas no balcão do bar, cigarros compartilhados na muvuca popular, aquele beijo foi o melhor dos momentos. 

Meia luz, Led Zeppelin na vitrola. Era Going to California e uma explosão. 
Viajaram trôpegos os dois, cada um para o seu país particular, delirando todas as vidas possíveis de ter tido e de (ainda) ter, nos planetas que conheciam e nos que nunca, nunca, nunca iriam conhecer. Voaram longe na combinação dos signos. Gêmeos e Sagitário, ar e fogo, ascendentes água e terra, e tudo explodia ao redor.

Quem sabe o que pensavam? Pelos olhos fechados, a pele dela era a erupção de um vulcão e, pelo toque das mãos, ele era o causador daquilo. Ela via os dois indo pra Califórnia, lembrando do dia em que escreveram um poema no muro de uma escola. Ele imaginava o estádio lotado com ela vestindo a camisa do seu time de coração, gritando os gols de domingo.

Café, sofá, bozó, metrô, garoa, chopp, carimbó, dorflex, varal... tudo poderia dar bem certo. Todos os elementos em sintonia, até Caetano e Black Sabbath gostaram. Num minuto perdido ele exclamou: “ela gosta de Black Sabbath!” E foi fogo pra tudo quanto é lado.

De manhã, luz entrando pela janela, meias e vergonhas no chão. 
Se olharam firmes, dizendo tudo aquilo pela telepatia que Rita Lee bem relatou. Não precisavam de mais nada, tinha tudo ali dentro daquele instante perfeito no quarto todo bagunçado. Estavam distraídos, Clarice Lispector decretou. 

— Eu vou. 
— Cê vai, mas fica um pouco mais – lembrou da música do Chico. 
— Eu vou porque é a hora de ir. 
— Cê vai, mas tua pinta ainda é o mais gosto em você. 
— Por quê?
— Porque te torna única, parecida exatamente com ninguém, só contigo pra mim. 

E, num insight, se guardaram dentro de um abraço calado. 

O Uber chegou.


publicado em 30 de Junho de 2017, 00:00
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Camila Cecílio

Jornalista, feminista e observadora de (des)encontros não tão casuais. Geminiana nata com lua em sagitário e realmente não se importa se você não sabe o que isso quer dizer (às vezes nem ela sabe). Está perto dos 30 e sem nenhuma pressa com a vida, só encanto.


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