João do Galo e a quarta de cinzas

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João do Galo sempre dizia: “eu sou eu e jacaré é bicho d’água”. Ninguém entendia bem o contexto da frase inserida em final de quase toda conversa, mas todos concordavam com olhares atentos. Afinal, era João quem lhes pagava e cobrava também e, quando cobrava, não era nada amigável.

João organizava as rinhas da vila. Armava tudo nos fundos da sua casa, um quarto-e-sala rodeado de mato e cocô de galinha. Ou então, quando o evento era grande, João pagava pra usar o depósito da birosca e fazia negócio com o dono, pra arrecadar um pouco de dinheiro da venda de cachaça. Mas isso era só quando a coisa ficava séria, quando a disputa seria entre galos grandes, conhecidos e, claro, assassinos. O João do Galo era conhecido. Tanto que foi preso “quatro, seis vêis”, como ele gostava de contar. Acelerado, falava mais que carola de igreja com tempo de sobra. Comia feito lima nova, tinha aquela pança que sustentava um resto de corpo forte, um tórax musculoso e peludo, claro, sempre à vista por conta da camisa aberta e sempre adornado por cordões de ouro ou imitação de. O João tinha pouco cabelo, um nariz amassado e largo, uma boca com lábios finos e olhinhos bem pequenos, mas rápidos pra ver qualquer coisa se mexendo.

E foi assim que começou a saga de João do Galo, lenda que começou na sexta que antecedeu o carnaval, logo depois da folga começar. João tinha organizado a “rinha da folia” e ia ter de tudo: galo com roupinha de Carmen Miranda, de arlequim, serpentina por sobre o povo todo, marchinha encomendada por ele, que falava de esporada na mulher pra pular sossegado no salão e fechou até uma rodada grátis de aguardente pra quem apostasse. Tudo pensado e organizado desde antes da folia de reis, quando o próprio João passou de casa em casa pedindo “bom princípio” junto com a criançada, só pra poder deixar a festa do jeitinho exato que ele queria. Nesses dias de ano novo, o João do Galo passou uma manhã na delegacia por vadiagem. Bebeu café quente, comeu um pedaço de pão sovado e se foi pra casa escrever sua marchinha.

Pois bem. Bar do Agenor arrumado, confete caindo no copo de todo mundo, um calor dos infernos, impossível de dissipar com aquele único ventilador amarelado e tossindo bafo quente em cima de todo o povo que tentava decorar a marchinha que cantarolava sem parar “vou levar os meus dois ovo pra outra galinha chocar”. A primeira briga de galos nem tinha começado e baixaram dois “penicos” (era assim que João chamava os guardinhas do município) no bar gritando “cadê o João! Briga de galo é proibido, pessoal! Vai todo mundo pra cadeia hoje!”.

Precisa nem falar não da correria que foi, né? Era nego pisando em cima de branco, branco pulando por cima de preto e até garanto que, se tivesse alguma grávida no recinto, o neném também saía correndo. Um furdunço dos diabos e, como haveria de ser (menos pros “penicos” que entraram fazendo o maior escarcéu), o João se abaixou no meio dos pinguços da birosca, se agarrou na primeira janela que chegou e, feito lagartixa, se escorregou pra fora coladinho na parede, sumindo de quatro no meio do mato. E o João era tão esperto que levou, no meio da confusão, o seu galo vestido de Carmen Miranda (só ficou pelo caminho o chapeuzinho de banana) e ainda o azarão que fora devidamente adornado de arlequim. Não ficou nenhum rastro do João e nem dos galos.

E daí pra frente, Tudo sobre o João era história. Uns viram o malandro batucando em três ou quatro blocos de rua, fosse na caixa, fosse no tamborim. Teve gente que falando que ele estava era batendo calcanhares no baile do clube de campo, vestido de pirata e cerrando cerveja e cachaça de qualquer distraído. João era mesmo uns quatro Joãos, se alguém fosse parar a vida pra bater as histórias. Se algum mais esperto (ou mais desprendido de tempo e afazeres) fosse contabilizar, os feitos do João no carnaval dariam pra pular quarenta e tantas folias. Era mesmo coisa de louco. João era o rockstar de uma vila que nem devia saber o que era o tal de “roque”. Era João fazendo bacanal com três mocinhas avançadas que estudavam na capital, era João cantando sua marchinha no quintal do prefeito. Tinha João correndo ladeira abaixo, João tropicando morro acima. “O João tava comigo agorinha, aqui memo!”

Foi um carnaval e tanto. Era João pra tudo que era lado e, no reporte dos “penicos”, constava que deu pra ver o tido “João do Galo” no Bloco da Mula Santa, nome dado em homenagem à burrinha que deu de mamar pra Tonho e Márcinho, os irmãos que fundaram a vila. No meio da brincadeira, do “balacobaco”, do “telecoteco”, do verdadeiro “ziriguidum”, os homens de farda e penico na cabeça avistaram o João sem dançar, parado em pé e apoiado em uma barraquinha de mé. Conforme contado no documento policial, João estava tranquilo e sorrindo de canto de boca, com um copinho na mão.

Quando o “meliante” avistou os guardas, com aqueles olhinhos pequeninos afundados em uma cara de pele toda riscada, o procurado bateu com a mão em um ombro e se foi para atrás da barraquinha. Quando os homens da lei foram em sua direção, esbarraram em um homem alto e forte, um dos filhos de João. Para quem não sabe, João do Galo teve oito filhos conhecidos, todos iguais. Não tô dizendo da semelhança de traços do pai em todos eles. João teve oito filhos que eram idênticos, no máximo se diferenciam por alguns centímetros no tamanho, devido à diferença de idade. Mas, todos os oito eram perturbadoramente iguais e era a coisa mais comum na vila confundir seus nomes, todos bem parecidos também. Todos começavam com joão e tinham um nome composto: João Hernandes, João Renato, João Marcelo, João Abílio, João do Sonho, João Antônio, João do Mangue, João Cavaco.

Voltando ao fato, quando o guardinha municipal trombou com um dos filhos do João, o do Galo, pediu licença com autoridade e ambos ficaram num imbróglio danado porque foram chegando mais “Joãos” e todos dizendo “eu não sou esse João, sou outro” e os dois policiais foram se perdendo num mar de Joãos e soltando nomes em cima de nomes e todos afundavam pois “era o João errado” até que, para sair da muralha formada, foi necessário sacar o cassetete e ameaçar dar umas pauladas. Os irmãos, filhos do João do Galo, abriram a roda e liberaram os “peniquinhos”, não por medo, mas por acharem graça dois mirrados tentarem usar de força bruta contra uma massa compacta de Joãos. Ademais, já tinha dado tempo de sobra pra fuga do pai João.

Depois de quatro dias de sangue, suor e histórias em toneladas, encontraram o João do Galo, logo no comecinho da manhã de quarta-feira de cinzas, sentado em frente a sua casa, suado e sujo, com um copinho de cangibrina na mão e fedendo a titica de galinha e bocetas. “Quase redundância, hein”, disse o delegado ao receber o capturado. João não esboçou resistência alguma. Colocou o copinho no banco, de forma pacífica, se levantou sem pressa e foi levado pelos “penicos” tranquilamente e ficou quatro vezes mais o número de dias foragido na cadeia. Não passou sem um dia sem cantar a sua marchinha que dizia algo sobre comer o frango assado da vizinha.


publicado em 21 de Fevereiro de 2012, 22:32
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Jader Pires

É escritor e colunista do Papo de Homem. Escreve, a cada quinze dias, a coluna Do Amor. Tem dois livros publicados, o livro Do Amor e o Ela Prefere as Uvas Verdes, além de escrever histórias de verdade no Cartas de Amor, em que ele escreve um conto exclusivo pra você.


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