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João do Rio | O escritor e viajante que foi esquecido da literatura de brasileira

Muitos de nós não podem viajar, mas todos podemos nos aventurar pela literatura de viagem enquanto estamos em casa.

Há uma década que minha vida é viajar. Viajo a trabalho — e depois escrevo sobre isso, como já fiz várias vezes aqui pro Papo de Homem e diariamente faço pro 360meridianos. Além disso, também viajo por motivos familiares, várias vezes ao ano. E, claro, às vezes viajo só por lazer, só pra descansar.  

Veio a pandemia, o ‘fique em casa’ e, pela primeira vez desde que passei a pagar minhas próprias contas, abandonei a estrada. Mas isso não significa que parei de viajar. Agora, me aventuro do conforto do sofá. 

Com os livros, já visitei incontáveis lugares neste 2020 cheio de desafios e medos: estive em Portugal, na Itália, no Peru, na Colômbia, no Chile, na Islândia, na Alemanha, em Moçambique…E várias vezes viajei pelo Brasil, muitas delas acompanhado por um escritor incrível, o João do Rio. 

João do Rio ou do mundo inteiro?

Em setembro de 1907, João do Rio foi até a Estação Central do Brasil, onde pegou um trem para Minas Gerais. O movimento era pequeno, mas nas paradas seguintes os vagões ficaram lotados e com gente viajando até no teto.

“Como se arranjavam eles? Agarrados em qualquer lugar, rindo, gritando, faziam daquele trem um inferno de riso, de exclamações, de barulhos”, escreveu mais tarde o jornalista. 

João do Rio era só o pseudônimo mais famoso de João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto — na intimidade ele era só Paulo Barreto.

João do Rio

Nas primeiras duas décadas do século 20, João do Rio foi o mais importante cronista da mais importante cidade da América Latina. Sofreu com o racismo e com a homofobia, tendo frequentemente que responder a ataques que iam parar nas páginas dos jornais.

Ele foi o principal tradutor de Oscar Wilde no Brasil. Em 1895, Wilde foi preso e condenado a dois anos de trabalhos forçados por ser homossexual. Ser o representante de um escritor tratado como maldito pela sociedade e se vestir como um dândi, com roupas berrantes, elegantes e alinhadas, alimentavam ainda mais os ataques homofóbicos sofridos por João do Rio. 

Segundo seus biógrafos, a cor da pele e a homosexualidade o impediram de conseguir um emprego no Itamaraty. Ao ter negada a carreira diplomática, mergulhou de vez nas letras e no jornalismo. João do Rio enfrentou até um atentado: foi espancado dentro de um bar, por cinco militares integrantes de um movimento extremista, com viés nacionalista, racista e xenofóbico. 

Em obras como a Alma Encantadora das Ruas, ele deu voz a grupos normalmente esquecidos e imortalizou as mudanças que envolviam o Rio de Janeiro da época, que tinha um milhão de habitantes. 

“Ora, a rua é mais do que isso, a rua é um fator da vida das cidades, a rua tem alma! Em Benares ou em Amsterdão, em Londres ou Buenos Aires, sob os céus mais diversos, nos mais variados climas, a rua é a agasalhadora da miséria. Os desgraçados não se sentem de todo sem o auxílio dos deuses enquanto diante dos seus olhos uma rua abre para outra rua. A rua é o aplauso dos medíocres, dos infelizes, dos miseráveis da arte.”- João do Rio, A Alma Encantadora das Ruas

Mas o João do Rio foi também do mundo inteiro. Esteve em quatro continentes e deixou pelo menos 20 livros, além de incontáveis contos, crônicas e reportagens publicadas nos mais importantes jornais da época. Muitos deles foram relatos de viagem ou falavam do dia a dia em determinado lugar. 

Mais jovem escritor aceito na Academia Brasileira de Letras, com apenas 29 anos, João do Rio morreu uma década depois, antes de completar 40. Teve um ataque cardíaco dentro de um táxi, quando voltava do trabalho. Morreu ali mesmo, enquanto o motorista, assustado, corria em busca de um copo d’água para o famoso jornalista que agonizava no banco de trás. 

Ele mereceu o segundo maior cortejo que o Brasil já tinha visto, com pelo menos 100 mil pessoas — só o Barão do Rio Branco tinha atraído mais gente. Pessoas se acotovelavam para ver o caixão passar e o enterro foi acompanhado por políticos, como Ruy Barbosa. 

Legenda

O memoricídio na literatura brasileira

Importante, famoso e frequentador dos círculos mais exclusivos do poder no começo da República. Mas e nas décadas seguintes? Nada disso impediu que João do Rio passasse por uma espécie de memoricídio. Ele foi esquecido e algumas de suas obras passaram mais de um século sem reedições. Outras, publicadas só no exterior, demoraram décadas para chegar ao Brasil. 

Esse esquecimento foi geral. Eu, por exemplo, já tinha ouvido falar do João do Rio nas aulas de faculdade, afinal ele é um nome que não pode ser ignorado no jornalismo brasileiro do começo do século 20. Mas só fui ler a obra máxima dele, A Alma Encantadora das Ruas, em 2019. E outros livros vieram em sequência, como as coletâneas Os Dias Passam… e Vidas Vertiginosas. 

João do Rio é só um dos muitos nomes incríveis esquecidos da literatura brasileira. Este ano, também tive a oportunidade de ler as obras de duas escritoras maravilhosas, mas que a sociedade deu um jeito de ignorar: Nísia Floresta e Júlia Lopes de Almeida. 

Retrato de Nísia Floresta.

Nísia foi uma pioneira da educação, do jornalismo e da literatura. Viajou pelo mundo, escreveu e publicou ao longo de todo o século 19, época em que nada disso era tarefa simples. E, no geral, atividades inacessíveis para mulheres. 

Elogiada por Machado de Assis, Nísia publicou vários de seus livros em outros idiomas, somente na Europa. Hoje, a cidade em que a escritora nasceu, no Rio Grande do Norte, leva o nome dela. Mas poucos conhecem seu trabalho. 

Retrato de Júlia Lopes de Almeida.

Júlia Lopes de Almeida, por sua vez, ajudou a fundar a Academia Brasileira de Letras, mas foi, olhe só, impedida de entrar na instituição que, na hora do vamos ver, resolveu não aceitar mulheres. No lugar dela entrou Filinto de Almeida, marido de Júlia e tido por especialistas como um escritor menos capacitado. Estivessem as cadeiras da ABL ao alcance das mulheres, a cadeira deveria ser de Júlia.

Em tempo: a primeira mulher aceita na instituição foi Rachel de Queiroz, em 1977. Oitenta anos depois da recusa de Júlia. 

O brasileiro lê pouco — em média, menos de três livros por ano. Isso é menos que nossos vizinhos de continente. E mesmo quem lê por aqui muitas vezes negligencia as escritoras e os escritores brasileiros, preferindo as obras de outros países.

Acho que foi na escola que começou minha birra infantil com a literatura brasileira. Completamente despreparado para a tarefa, enfrentei, como tantos alunos, Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, José de Alencar, Raul Pompeia. Só fui fazer as pazes com nossa literatura já na vida adulta.

Grandes Viajantes: Um projeto de resgate da literatura de viagem 

E foi justo a literatura que veio correndo pra modificar o modelo de negócio de uma pequena empresa que ajudei a fundar há nove anos, junto com as jornalistas Luiza Antunes e Natália Becattini. Criado em 2011, o 360meridianos é nosso ganha-pão há quase uma década. No site, ajudamos gente de todo o Brasil a planejar suas viagens. E a sonhar com a estrada. 

Mas o que fazer num ano em que viajar não é possível e que nem escrever de viagem tem muito sentido? Foi assim que surgiu o Grandes Viajantes, um clube de assinaturas focado em literatura de viagem. É um financiamento coletivo recorrente, hoje a única fonte de renda do 360. Um dinheiro que tem sido fundamental para pelo menos manter o projeto no ar. 

Mas, além da ajuda financeira, o Grandes Viajantes é um mergulho na literatura. É que nosso foco é resgatar contos, crônicas e outras produções literárias raras, quase esquecidas. 

Lançado em julho, o clube já resgatou e digitalizou livros que ficaram décadas sem reedições: as obras o Gigante Brasilião, de Júlia Lopes de Almeida; Viagem a Sorrento, de Nísia Floresta, e Dias de Milagre, de João do Rio.  

A crônica Dias de Milagre, do João do Rio, foi escrita em 1907, para o jornal a Gazeta de Notícias. E publicada em livro numa antologia do autor em 1912, mas só em Portugal, pela livraria Lello e Irmão. E assim ficou até 2015, quando a Biblioteca Nacional começou esforços para acabar com o memoricídio a que o autor foi submetido. 

A edição do Grandes Viajantes, a única já feita só de Dias de Milagre, tem 113 páginas. 

Todo mês, nossos apoiadores receberão um conto novo, no mesmo estilo. Quem entrar em setembro ainda recebe o livro do João do Rio. E já adianto que livro resgatado de outubro vai ser ainda mais raro que os anteriores. 

Quer apoiar? Dá uma olhadinha na página do site, no Catarse. O apoio é de só R$ 9 por mês. E garante outras recompensas além do e-book.

Para quem quiser conhecer o trabalho, disponibilizamos, de graça, o livro Depois da Batalha, de Júlia Lopes de Almeida, em que ela narra as aventuras de um menino órfão durante um conflito da Guerra do Paraguai. 

Você pode baixar em PDF, MOBI ou EPUB.


publicado em 17 de Setembro de 2020, 06:00
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Rafael Sette Câmara

Virou mochileiro ao mesmo tempo em que se tornou jornalista. Desde então, se acostumou a largar tudo para trás - inclusive empregos - e cair na estrada. Ele escreve sobre viagens no 360meridianos, mas pode ser encontrado também no Facebook e no Instagram.


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