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Todo jornalista deveria assistir esse documentário

Jornalismo de tese é aquele no qual o repórter estrutura a matéria para confirmar o que ele já pensa, por meio de bons personagens, boas imagens e frases de efeito.

Por exemplo, um jornalista é incumbido por seu editor de escrever a pauta "razões pelas quais Felipão é um técnico ultrapassado". A partir daí busca falar com um psicólogo que explique o apagão do escrete canarinho, relacionando as causas do mesmo com falhas do técnico.

O psicólogo é o personagem e suas falas, se usadas no artigo, serão editadas e transformadas em aspas.

Isso se torna problemático pois o jornalista dialoga com o psicólogo buscando falas específicas – menos interessado em investigar a questão de fato. Ou seja, dá pouca atenção a falas que não se encaixem com a proposta inicial da matéria e busca instigar outras que preencham as lacunas necessárias para seu texto ser feito, de preferência, no menor tempo possível.

Ao invés de descobrir, o jornalista encontra o que já procurava. Sua produção confirma suas visões e a de seus editores e diretores de redação.

"Entrevista"

Link YouTube | Risadas à parte, esse processo de induzir falas e transformar trechos isolados em aspas não é muito distante do que acontece

Manual de reportagem

Link YouTube | Inspirado no original britânico

Acredito piamente não ser maldade ou preguiça na maioria dos casos. A merda é eles estarem inseridos numa estrutura de pressão absurda, na qual devem entregar um volume enorme de textos para que o veículo não perca seus prazos, mantenha grande fluxo de novidades no ar e, com sorte, capture a tal almejada audiência necessária para se vender espaços de publicidade e pagar toda a operação.

Que esse é um modelo em xeque, os profissionais da área já sabem. Jornais estão falindo por todo canto e qualquer veículo de comunicação que se preze está quebrando a cabeça para encontrar sustento futuro. O problema é o volume de conteúdo questionável, com aparência de sério e crível, que esse processo nos enfia goela abaixo todos os dias.

O Abraço Corporativo: aula permanente de jornalismo

Quando o jornalista come uma bola feia (ou age de má fé) e uma informação falsa é publicada como verdadeira, se chama "barriga".

Muitas vezes o leitor nem fica sabendo – o pau come na redação e erratas são rapidamente publicadas. Outras vezes, estoura. Em 2006 o diretor Ricardo Kauffman concebeu o que viria a se tornar uma histórica "barriga" da grande mídia.

Junto do ator Leonardo Camillo, criou um personagem dos sonhos para o jornalismo corporativo, sempre ávido por Taos e queijos de sabedoria: um consultor de RH chamado Ary Itnem Whitaker, representante no Brasil de um inovador método de humanização dos ambientes de trabalho, baseado na Teoria do Abraço (inventada por eles).

A Teoria do Abraço seria a cura para uma doença chamada "inércia do afastamento". Por trás de tudo estava a também fictícia Confraria Britânica do Abraço Corporativo, CBAC, na época com o site www.corporatehug.com no ar – ainda que sem nenhum cliente.

Organizaram e filmaram uma ação pública com abraços sendo distribuídos na Avenida Paulista. O vídeo teve mais de 600.000 acessos na época, chamando bastante atenção. Daí pra ser entrevistado por Gilberto Dimenstein, Heródoto Barbeiro e destaque em várias revistas e jornais foi um pulo.

A história se transformou num documentário em 2010. Esteve na 33ª Mostra Internacional de Cinema, nas telas do Belas Artes em São Paulo e… só. Uma pena algo de tamanha revelevância ter circulado tão pouco, como Gitti disse na época, em texto aqui mesmo no PdH.

Felizmente, o diretor colocou o filme completo no Vimeo ano passado:

Link Vimeo | Cereja do bolo: Ary Itnem é um anagrama para "mentira"

As declarações do diretor Ricardo Kaufmann permanecem atualíssimas:

O filme tem como foco o processo de produção de material jornalístico e mostra como, via de regra, quem está na posição de apurar e publicar notícias não tem tempo ou cuidado para checar a relevância ou profundidade do que é veiculado. (...)
Esse dilema da apuração bem feita apenas piorou com a rapidez, com a revolução tecnológica e com a velocidade com que se produzem notícias hoje em dia. E as pessoas colocadas na posição mais vulnerável são os próprios jornalistas.

Isso não é uma ode à culpabilização da grande mídia pelas mazelas de nosso tempo, pelo contrário. O jornalismo é um pilar social e democrático essencial e cumpre sua função grande parte do tempo. Ser capaz de reconhecer as próprias falhas e vulnerabilidades é amadurecimento natural em qualquer área, entretanto.

Na próxima vez em que estiver lendo uma revista, assistindo algo na TV ou mesmo envolvido com um de nossos artigos, redobre a atenção. Tente descobrir se a tese defendida realmente se sustenta ou se as aspas e exemplos usados estão apenas maquiando a tara por audiência, agendas excusas ou preguiça de fazer algo melhor.


publicado em 12 de Julho de 2014, 20:41
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Guilherme Nascimento Valadares

Editor-chefe do PapodeHomem, co-fundador d'o lugar. Membro do Comitê #ElesporElas, da ONU Mulheres. Professor do programa CEB (Cultivating Emotional Balance). Oferece cursos de equilíbrio emocional e escreve pequenas ficções no Instagram.


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