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Kafka, Amos Oz e as árvores na neve: quando nada é o que parece ser

O discurso de Amos Oz proferido ao receber o Prêmio Kafka, em outubro de 2013, em Praga.

E parece que serve ainda para os dias de hoje.

O escritor Amos Oz é israelense e seu país vive em constante tensão de conflitos, seja contra o povo palestino ou com a inquietação na região do Oriente Médio e seus países árabes. Oz é fundador da organização pacifista Shalom Arshav, "Paz Agora" em traduça livre, que tem entre seus objetivos a possibilidade de uma paz justa e de uma conciliação histórica com o povo palestino.

Dito isto, fica mais fácil dizer que é um cara que vale ser ouvido.

E lido. Façam isso.

O discurso abaixo vem a calhar em épocas de intolerância. A versão escrita foi publicada pelo El País lá em novembro de 2013:

* * *

Existe um conto de Kafka intitulado As Árvores. Nele, o autor diz que somos semelhantes a árvores na neve, que parecem flutuar, como se não tivessem raízes. É pura aparência, escreve Kafka, porque todo mundo sabe que as árvores têm raízes bem enterradas. E diz em seguida: mas isso também é pura aparência.

Há 60 anos, numa noite de inverno, no kibutz Hulda, um garoto de 15 anos leu esse fragmento de Kafka e se sentiu transformado: as árvores, as colinas, os uivos dos chacais na noite invernal, tudo havia deixado de ser simples. Há uma realidade, e há uma realidade interior, e mais. Os fatos podem se transformar no pior inimigo da verdade. Esse conto, As Árvores, não só foi meu primeiro contato com Kafka, como também lê-lo, como ler suas demais obras, contribuiu enormemente com a minha formação. Além disso, Kafka tem certa maneira de colocar a descoberto um pesadelo numa linguagem das mais burocráticas. Seus demônios usam paletó e gravata. Seu inferno é um escritório vulgar e desarrumado.

Há um tempo li que, no final da sua vida, quando já estava muito doente, Kafka flertou com a ideia de seguir os passos de vários judeus que haviam ido à escola com ele em Praga e emigrar para Israel. Inclusive vi um caderno de exercícios com o qual ele tentou aprender hebraico por conta própria. Cheguei inclusive a imaginar uma situação em que Kafka vivia num kibutz de língua alemã em Israel, cuidava da contabilidade da comunidade e escrevia no tempo livre, numa cabana situada à margem do kibutz, que lhe haviam cedido para que lhe servisse de escritório.

Teria tido saudade da Europa, como seus discípulos e como tantos outros que deixaram a Europa e foram para Israel antes de Hitler. Todos eles – entre os quais estavam meus pais e meus avós – foram embora da Europa Oriental ou, melhor dito, foram expulsos da Europa Oriental, nos anos trinta. Amavam a Europa, mas a Europa nunca lhes quis. Hoje, todo mundo é europeu, e quem não é está fazendo fila para ser. Há 80 ou 90 anos, os únicos que eram autênticos europeus na Europa eram os judeus, como meus pais. Todos os demais eram patriotas búlgaros, patriotas irlandeses, patriotas noruegueses... Os judeus eram europeus devotos. Eram poliglotas, adoravam que houvesse histórias diferentes, e os legados literários, e os tesouros artísticos, e sobretudo amavam a música. E amavam as paisagens, os prados e as florestas, as torrentes e os bosques nevados, os estreitos becos das cidades antigas, as universidades e os cafés. Mas a Europa nunca lhes quis. Por serem genuínos europeus, foram tachados de “cosmopolitas”, “parasitas”, “intelectuais sem raízes”. Quando o antissemitismo se tornou violento na Polônia, nos anos trinta, meus pais e meus avós, cheios de tristeza, decidiram ir embora da Europa e emigrar para Jerusalém. Escolheram Jerusalém não porque quisessem desalojar os árabes, mas porque não tinham nenhum outro lugar aonde ir. Nos anos trinta, todos os países do mundo fechavam suas portas aos judeus. O Canadá disse que não acolheria nenhum. A Suíça mostrou ainda mais dureza. As ruas europeias tinham pichações nas quais se lia: “Os judeus para a Palestina” (sessenta anos depois, essas mesmas paredes na Europa tinham pichações contrárias: “Fora da Palestina, judeus”...).

Seja como for, minha família se estabeleceu em Jerusalém em 1934, e graças a isso sobreviveu ao genocídio nazista alemão. Mas sempre sentiram falta da Europa. Estavam furiosos com a Europa, mas ao mesmo tempo saudosos, sentimentos que podem ser descritos como de amor decepcionado, amor não correspondido. Quando eu era pequeno, meus pais me diziam sempre: “Um dia, não na nossa vida, mas talvez sim na sua, Jerusalém crescerá e se transformará em uma cidade de verdade”. Não entendia o que eles queriam dizer: para mim, Jerusalém era a única cidade do mundo. Mas agora sei que, quando meus pais diziam que Jerusalém se transformaria em uma cidade de verdade, se referiam a uma cidade com um rio no meio, com pontes sobre esse rio, com bosques frondosos ao redor. Quer dizer: uma cidade europeia.

Sou filho de refugiados judeus expulsos da Europa com violência. Por sorte para eles: se eles não tivessem sido expulsos da Europa nos anos trinta, teriam sido assassinados na Europa dos anos quarenta.

Ainda guardo comigo a ambivalência dos meus pais a respeito da Europa: saudade e raiva, fascinação e frustração.

Em toda a minha obra literária, vocês encontrarão esses europeus desarraigados, que lutam para criar um minúsculo enclave europeu, com livrarias e salas de concerto, no calor e na poeira do deserto, em Jerusalém ou no kibutz. Personagens que querem reformar o mundo, e não sabem nem amarrar os sapatos. Idealistas que debatem e discutem infinitamente entre si. Refugiados e sobreviventes que se esforçam para construir uma pátria para si, apesar de todas as adversidades.

Israel é um campo de refugiados. A Palestina é um campo de refugiados. O conflito entre israelenses e palestinos é um choque trágico entre dois direitos, entre duas antigas vítimas da Europa. Os árabes foram vítimas do imperialismo europeu, do colonialismo, da opressão e da humilhação. Os judeus foram vítimas da perseguição europeia, da discriminação, dos pogroms e, ao final, de uma matança de dimensões nunca vistas. É uma tragédia que essas duas antigas vítimas da Europa tendam a ver, cada uma na outra, a imagem da sua opressão passada.

O conflito palestino-israelense é um choque trágico entre dois direitos. Os judeus israelenses não têm nenhum outro lugar aonde ir, e os árabes palestinos tampouco têm nenhum outro lugar aonde ir. Não podem se unir em uma grande família feliz, porque não o são, nem são felizes nem são uma família: são duas famílias desgraçadas. Creio firmemente em um compromisso histórico entre Israel e a Palestina, uma solução de dois Estados. Não uma lua de mel, e sim um divórcio justo, que coloque Israel ao lado da Palestina, como Jerusalém Ocidental como capital de Israel, e Jerusalém Oriental como capital da Palestina. Algo similar ao divórcio pacífico entre checos e eslovacos.

Muitos dos meus contos e romances estão situados em Israel, mas tratam de coisas grandes e simples: amor, perda, solidão, saudade, morte, desejo, desolação. Sou uma testemunha cética da minha época, e um observador irônico e caridoso da comédia humana. Na minha opinião, Kafka foi o maior profeta do século XX, capaz de prever a desumanização e as tiranias, a crueldade do poder e a impotência do ser humano. Ele me ensinou que as árvores, e todas as demais coisas, nunca são o que parecem.

Amos Oz no programa Roda Viva

No começo de 2012 o escritor veio ao Brasil e foi sabatinado no Roda Viva, em época de preocupações com o um Irã nuclear. 

Abaixo, segue o papo de uma hora e meia:

Link YouTube


publicado em 20 de Outubro de 2015, 00:00
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Jader Pires

É escritor e colunista do Papo de Homem. Escreve, a cada quinze dias, a coluna Do Amor. Tem dois livros publicados, o livro Do Amor e o Ela Prefere as Uvas Verdes, além de escrever histórias de verdade no Cartas de Amor, em que ele escreve um conto exclusivo pra você.


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