Cobra Kai vs Karate Kid: Todo mundo é o herói das próprias narrativas

O que a mudança de protagonismo no spin-off de Karate Kid tem a ensinar sobre nós?

Todo mundo lembra do Karatê Kid, né?

Não, não aquele de 2010, com o Jack Chan. Me refiro ao Karate Kid de verdade, de 1984, com o Ralph Macchio e o William Zabka. Com o Pat Morita como Mestre Miyagi. E o mais importante: com dublagem da Sessão da Tarde.

Bem, talvez eu esteja velho demais e você não lembre por que não é da época que a gente assistia tudo que passava na Sessão da Tarde durante as férias. Aliás, bem provável que não lembre, dada a faixa etária que está na internet e tem tempo pra ler textos como esse. 

Mas, parando um pouco de lamentar a idade e voltando ao assunto, Karate Kid foi esse filme velho que fez a cabeça de toda uma geração. Garoto meio nerd e magrelo, se muda com a mãe pra outra cidade contra a vontade, toma uma pisa de uns moleques ricos e bonitões da vizinhança, conhece um professor de artes marciais que o ensina os segredos pra controlar as próprias emoções e, de quebra, também encher de porrada os fortões em um torneio. Uma bela volta por cima.

Quem nunca se emocionou com a montagem de treinamento do Daniel San, equilibrando-se num toco na praia, enquanto o sol se põe e a trilha sonora de Bill Conti come solta? Coisa linda.

A história do filme é sensível, comovente. Mas de uns anos pra cá, uma controvérsia começou a surgir.

A primeira vez que me atentei a isso foi graças a um episódio de How I Met Your Mother, no qual o Barney Stinson cita que é fã do Karate Kid. Todo mundo pensa que ele está falando do Daniel San, personagem de Ralph Macchio. Mas não, quem ele diz que é o verdadeiro Karate Kid é o William Zabka, que interpretou Johnny Lawrence, o aluno da escola Cobra Kai e antagonista de Daniel San.

Segundo o Barney, Daniel San era desonesto e venceu o torneio com um movimento ilegal (aparentemente é um golpe de Kung Fu, não de Karate, mas eu não sou nenhum especialista). Por isso, ele era fã do herói injustiçado Johnny Lawrence, o cara que realmente treinou e se preparou para o torneio, sendo vencido apenas por uma trapaça.

Achei a teoria bem interessante e nunca tinha me atentado ao fato. 

Não sei se por acaso ou por fruto dos algoritmos que tudo sabem e tudo manipulam, esbarrei alguns meses atrás com um vídeo sensacional, o qual mandei também pra vários amigos, só pra ter assunto na mesa de bar.

O tal vídeo era um ensaio que defendia Johnny Lawrence e mostrava como o verdadeiro bully era, na verdade, Daniel San.

Vou embedar aqui o vídeo, mas como está em inglês e estou sem tempo pra efetivamente legendá-lo, vou fazer um resumo pra gente seguir a conversa.

Link Youtube

O que ele diz é que Daniel San é um sociopata, claramente desequilibrado, que se muda pra cidade, começa a atormentar Johnny Lawrence e seus amigos, dá em cima da sua ex-namorada, puxa briga constantemente, na frente de todo mundo, além de provocar e induzir em diferentes situações a intervenção de Johnny Lawrence por meio da força física. 

Ele pinta Johnny Lawrence como um ex-garoto problemático que agora está tentando mudar e seguir em uma direção mais positiva.

Genial!

A partir daí, temos a intervenção do Sr. Miyagi, o torneio, o tal golpe ilegal e uma redenção por parte de Johnny Lawrence que humildemente e, no maior espírito esportivo, faz questão de entregar o troféu nas mãos do adversário, enquanto Daniel San regozija em pura maldade manipuladora.

O vídeo "Daniel é o verdadeiro bully" é de J. Matthew Turner, que faz ensaios sobre filmes em um tom irônico, levemente sarcástico e, provavelmente, não era pra ser levado à sério. Mas não é assim que a internet funciona.

Ele até chegou a fazer um outro vídeo respondendo os comentários, já que a coisa saiu um pouco de controle. Porém, como ele usa ainda mais ironia, isso dificulta um pouco o entendimento do que ele realmente queria dizer. Mas, na verdade, a essa altura já não importa muito. 

As pessoas já compraram essa versão dos fatos e ressignificaram toda a história.

Agora, dois anos depois, o Youtube (talvez motivado pelo sucesso do tal vídeo, que já tem quase 8 milhões de views), decidiu aproveitar a subversão do roteiro do filme pra criar uma série spin-off baseada em Karate Kid, dando fruição a essa visão.

Cobra Kai conta a história de Johnny Lawrence depois de todos esses anos, tentando se reerguer, abrindo de volta sua velha academia de Karate, enquanto mostra Daniel como um cara meio cuzão e ainda obcecado.

Link Youtube | Esse trailer é demais!

Você já deve ter percebido que eu fiquei fascinado por tudo isso. Então, decidi reassistir o filme para sair da guerra de narrativas e ver a situação toda com os meus próprios olhos.

Lá vai meu veredito.

Bem, honestamente, me pareceu forçar muito a barra olhar pro filme com essa narrativa. É preciso omitir muita coisa pra transformar Johnny Lawrence em um herói. A verdade é que ele comete atos bem condenáveis e até perigosos que poderiam ter dado muito errado, se não fosse um filme pra crianças. ;)

Mas se é pra lançar um olhar mais adulto, Daniel San de fato é bem desequilibrado emocionalmente, como o adolescente meio inconformado com a própria situação financeira e familiar que ele é. Há algumas situações no filme nas quais ele, no mínimo, é inconsequente e coloca a si mesmo e aos outros em risco desnecessário. Além disso, em diversos pontos ele dá vazão à própria raiva agredindo, quebrando coisas, mentindo e até expressa uma certa invejinha e o seu desejo de vingança de maneira clara.

Porém, se seguirmos esse mesmo processo e projetarmos a fala de Johnny Lawrence, no começo da história, quando ele explicitamente declara suas intenções, afirmando que quer consertar as coisas, podemos até presumir que muito de suas ações foram por puro medo e territorialismo, para não perder o respeito e admiração do grupo e, principalmente, da ex-namorada.

Nem o Sr. Miyagi escaparia ileso dos julgamentos, já que abusa do trabalho de um menor e até oferece bebida alcoólica a ele em um certo ponto do filme.

Bem, eram outros tempos.

Fiz todo esse discurso por que achei incrível observar o processo inteiro.

Se tem alguma coisa que dá pra aprender com tudo isso é: as narrativas importam e muito. 

Essa situação, na qual de repente as pessoas escolhem times e resolvem defender seus pontos de vista, sem receio de omitir detalhes ou mesmo fatos gritantes, lembra muito um certo padrão que vemos se repetir a torto e a direito pela internet e pela vida.

Basta observar, nós fazemos isso o tempo inteiro: contamos para nós as versões onde somos os heróis. Somos vítimas quando nos sentimos injustiçados. Somos heróis falhos quando cometemos enganos. Mas raramente somos os vilões. Mesmo quando admitimos nossos erros, raramente reconhecemos estar mal intencionados.

É muito legal observar essa linha entre quem é o bonzinho e o malzinho da história ficar cada vez mais difusa. Ninguém é 100% herói, nem 100% vilão. A gente tem muitas qualidades e comete muitos atos de bondade, mas não conheço alguém que está imune a ser cuzão com uma frequência bem maior do que se admitiria em voz alta.

Daniel San, por exemplo, se tivesse desde o começo a força e o poder pra obter sucesso em confrontos violentos, talvez tivesse descido o sarrafo no Johnny sem a menor pena. E pode ser que Johnny, sem a influência do seu professor e todo o medo de perder seu status, nem precisasse ou quisesse entrar em conflito com um garoto muito menor e mais fraco. Mas isso, de novo, é especulação.

Karate Kid é só um filme que conta a história de uma briga de garotos. Porém, não dá pra negar que podemos tirar um monte de lições interessantes, já que as motivações por trás dessas implicâncias e a maneira esquentada de agir se mantém pra muito além da adolescência.

Na vida real, no entanto, os fatos só acontecem uma vez e homens crescidos precisam lidar com as consequências dos seus atos.

O resto é a gente tentando reescrever a história.


publicado em 23 de Março de 2018, 00:05
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Luciano Andolini

Cantor, guitarrista, compositor e editor do PapodeHomem nas horas vagas. Você pode ouvir no Spotify. Também escreve no Medium e em seu blog pessoal. Quer ser seu amigo no Facebook e Instagram.


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