Maio não é o mês do amor

No começo do mês de maio, um amigo se separou da esposa com quem esteve por sete anos.

Lembro que ele sempre se orgulhou de ter nela uma grande companheira, uma amiga para todas as horas, alguém que pudesse estar ao seu lado nos momentos mais difíceis. No dia dois, após uma longa discussão em meio ao feriado do trabalho, ele saiu de casa.

Ela queria sentir algo mais, tinha cansado de dividir um lar com alguém que não conseguia ver como homem, por quem não fosse apaixonada.

Ela disse que ele não era capaz de fazê-la sofrer.

* * *

Outro esteve chorando escondido e, ao mesmo tempo, rindo da própria desgraça, enquanto via o namoro terminando sem que ele pudesse impedir.

Viveram juntos, felizes, por todo o tempo que suportaram. Sorriam, saiam, dormiam, cuidavam da casa, brincavam e faziam sempre o melhor possível. Melhor esse que não foi suficiente para continuar escondendo a realidade silenciosa que tanto os perseguiu.

Hoje, ele colocou a mão no rosto logo depois de acordar e pensou que o último foi um ano perdido.

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Ainda no dia primeiro de maio, um terceiro chegou em casa vomitando de ansiedade ao rever aquela pequena com quem esteve sonhando em ser feliz.

Essa foi uma história que se passou em muitos dias, meses, mensagens e quilômetros de distância. Ambos estiveram felizes, escondendo-se atrás de seus celulares e computadores, enquanto planejavam o dia perfeito no qual se encontrariam novamente.

Para os dois, sobrou a percepção de que a realidade sempre caminha em um sentido oposto ao das imaginações mais selvagens.

* * *

Uma amiga se dedicava, nos últimos meses, a um processo de descoberta sexual sem precedentes em sua vida. Encontrou aquele com quem finalmente consegue sentir o corpo arrepiar com a mera lembrança dos momentos que tiveram juntos.

Durante o feriado, ele queria conversar, pensava em aprofundar a relação. Esteve feliz sabendo que finalmente era capaz de acertar.

Mas não, não é assim que funciona.

* * *

Claro, tem sempre aquele amigo triste e esperançoso.

Soube que hoje ele encontraria uma moça com quem esteve jogando conversa fora pela internet. Ao que tudo indica, vão a um restaurante bonito em algum lugar cujo nome não lembro.

Sua empolgação sempre me contagia, ainda que ele repita vez após vez, dor após dor, o mesmo ritual de buscar o próximo nome que o fará acreditar ser possível encontrar paz.

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É, amigos, talvez maio não seja o mês do amor, mas da cachaça.


publicado em 04 de Maio de 2014, 06:56
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Luciano Andolini

Cantor, guitarrista, compositor e editor do PapodeHomem nas horas vagas. Você pode ouvir no Spotify. Também escreve no Medium e em seu blog pessoal. Quer ser seu amigo no Facebook e Instagram.


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